Plataforma de negócios que conecta Brasil e Suíça celebra 75 anos

Desde 1945, a Câmara de Comércio Suíço Brasileira conecta empresas suíças com o mercado brasileiro. Em 2020 festeja o aniversário e comemora o avanço nas relações bilaterais entre os países. Apesar das crises, vê cenário promissor.

Este conteúdo foi publicado em 03. setembro 2020 - 10:00
Clarissa Levy
Pavilhão suíço em uma feira internacional realizada em São Paulo, em 22 de outubro de 1954. cortesia

O mundo se despedia da II Guerra Mundial quando um grupo de suíços se reuniu no Rio de Janeiro para criar uma câmara de comércio. A ideia era fomentar os negócios entre a Suíça e o Brasil, fortalecendo as conexões entres os suíços radicados no país tropical. Em 2020 a Câmara de Comércio Suíço Brasileira (Swisscam) celebra os 75 anos de história e união entre empresários helvéticos no Brasil.

Na época em que foi criada, a entidade servia como um espaço de convívio social entre os descendentes do país alpino. "Os tradicionais almoços suíços eram um lugar para desabafar dificuldades, conseguir conselhos e se apoiar", contou o presidente Philip Schneider à swissinfo.ch. No período, os negócios entre Suíça e Brasil consistiam principalmente em importações. Um documento da década de 1950 registra os itens importados: relógios, bijuterias, gramofones, produtos químicos e têxteis.

Mais de meio século depois, a câmara não funciona mais no Rio de Janeiro. Hoje, ocupa um espaço cedido pelas multinacionais Syngenta e Clariant em São Paulo. E, ao longo dos anos, o perfil da entidade se alterou. Cada vez mais se torna um hub de interlocução entre organizações, deixando de ser somente um ponto de encontro de expatriados suíços.

As relações comerciais entre Brasil e Suíça se transformaram e a câmara de comércio acompanhou as mudanças. "Nas últimas duas, três décadas, cada vez mais viramos um espaço para networking entre empresas", explica Schneider.

Mas algo do espírito da fundação no Rio de Janeiro permanece, porque a entidade segue como um espaço de diálogo intimista, próximo. A partir de comitês temáticos, a Swisscam coloca em contato empresas de diferentes tamanhos de um mesmo setor. "Por sermos uma câmara pequena conseguimos conectar muito as pessoas", conta Stefania Hertach, diretora-executiva. Além da participação com stands em feiras, periodicamente a câmara organiza cursos online (webinars) e conversas entre associados e especialistas sobre assuntos que estão chamando atenção. Nos eventos, na hora do café com pão de queijo, as conversas entre empresários acontecem e os negócios crescem - contam os diretores.

Equipe de funcionários da Câmara de Comércio Suíço Brasileira (Swisscam), em São Paulo. Lorna Lee

Hoje, a Câmara conecta 196 empresas e associados pessoas físicas do Brasil e da Suíça. Passados 75 anos, o comércio não se restringe a importações. Atualmente, empresas de serviços, tecnologia, inovação e indústrias suíças ocupam o mercado brasileiro.

"O investidor suíço consegue visualizar o potencial do Brasil", aponta Hertach. Segundo dados da Receita Federal, a Suíça ocupa a sexta posição dentre os países que mais investem no Brasil, com montantes da ordem de 22 bilhões de dólares.

Nos últimos dois anos a câmara organizou um evento de promoção do Brasil em Zurique, o “Doing Business in Brazil”, que frutificou em negócios, mesmo durante um período marcado por crises em solo brasileiro. Para Schneider, o evento mostrou que o "mercado brasileiro tem oportunidades fantásticas" para a Suíça. 

Um eldorado na América Latina

O Brasil é o principal parceiro econômico da Suíça na América Latina, responsável por 26% dos negócios helvéticos na região. Em 2018, o país foi destino de cerca de 38% de exportações da Suíça no continente.

Comemoração dos 25 anos da Swisscam com um banquete na Casa da Suíça, em São Paulo, em 1970. cortesia

O tamanho do mercado, com centenas de milhões de consumidores em potencial, é atrativo. "Para as empresas que oferecem serviços para celular, como aplicativos, isso aqui é um eldorado", diz Schneider. O diretor aponta que existe um olhar atento para o Brasil. Schneider considera que as crises econômico-políticas que assolaram o país nos últimos anos não foram tão prejudiciais aos investimentos, pelo contrário, afirma que entre 2018 e 2019 a Câmara viu o fluxo de investimentos crescer.

Para Hertach, mesmo com a Covid-19 o cenário permanece ascendente. A diretora explicou que o número de associações, considerando empresas e pessoas físicas, cresceu durante a pandemia. E os eventos online promovidos pela Swisscam durante a quarentena somam mais de dois mil espectadores.

"Organizamos tanto palestras com experts para tirar as dúvidas como bate papos para que os CEOs das empresas possam discutir abertamente, em um ambiente íntimo, as pautas do momento", explica Hertach. Uma das funções da Câmara é acompanhar de perto o que está em discussão no Brasil nas esferas de governo e de mercado.

Em entrevista ao swissinfo.ch, as lideranças da Swisscam apontaram que agora estão em evidência as oportunidades no setor de saneamento. Em junho, o Brasil aprovou um novo marco regulatório que altera as regras de contratação e concorrência, abrindo caminho para empresas privadas oferecerem os serviços de esgoto e abastecimento de água. A mudança, que dividiu opiniões na sociedade brasileira por se tratar da privatização de um serviço essencial, pode cair bem para empresas estrangeiras que tenham experiência no ramo.

Com a força das grandes empresas

A Câmara de Comércio também atua para facilitar diálogos entre os associados e a esfera política. Em 2014, quando a Suíça foi retirada da lista brasileira de paraísos fiscais a Swisscam forneceu levantamentos mostrando os impactos tributários da mudança, trocando informações com as representações diplomáticas suíças.

"Acompanhar as legislações e regulações é um papel fundamental da Swisscam", afirma Hertach. A diretora comenta que a entidade organiza conversas entre representantes do governo brasileiro e CEOs das empresas suíças. "Trazemos os desejos das empresas para o governo", explica.

Já aconteceram encontros com representantes da administração federal e com, por exemplo, autoridades da ANVISA (a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, instância que regula medicamentos e agrotóxicos).  "O espaço com o diretor da ANVISA, por exemplo, foi um momento em que as empresas puderam colocar suas opiniões, serem ouvidas", relembra Schneider.  

Hertach rememora o café da manhã oferecido aos CEOs das multinacionais com presença do embaixador e autoridades. "Formamos esses pequenos comitês para conectar as pessoas, com a força que as multinacionais têm", conta. Temos relevância perante Brasília”, acrescenta.   

Almoço ocorrido em 30 de julho de 1947 por ocasião da visita à São Paulo do Encarregado de negócios no Rio de Janeiro. Charles Redard (1884-1954). cortesia

Como o resto do mercado, a Swisscam segue atenta as pautas das reformas governamentais, tendo organizado conversas sobre as reformas trabalhista e da previdência, aprovadas sob comemoração do setor empresarial e oposição forte na sociedade. Agora a entidade considera que a reforma tributária que vem sendo ensaiada pelo governo do presidente Jair Bolsonaro é o grande assunto.

Nesse cenário, Schneider aponta que a câmara tem um bom diálogo com entes do governo, conseguindo estabelecer interlocuções e amplificar as demandas dos associados. 

Sobre a SWISSCAM

  • Foi criada oficialmente em 27 de abril de 1945
  • Conta com 156 associados no Brasil e 40 na Suíça, entre empresas e pessoas físicas
  • Os associados são em sua maioria do setor de serviços, seguido pelo ramo industrial e comercial
  • Fazem parte da câmara as principais empresas suíças instaladas no Brasil, assim como empresas brasileiras interessadas em fazer negócios na Suíça.
  • Por ano a SWISSCAM promove em média 70 eventos
  • A diretoria é formada por 15  representantes de empresas associadas  e a equipe executiva conta com seis pessoas
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