Gábor Hirsch, um dos últimos grandes testemunhos da Shoah

Gábor Hirsch em 2015 Keystone/ennio Leanza

Gábor Hirsch, fundador do Ponto de Contato Suíço para os Sobreviventes do Holocausto, faleceu em 20 de agosto, aos 90 anos de idade. Em janeiro, Hirsch acompanhou a presidente suíça Simonetta Sommaruga a uma cerimônia comemorativa da libertação do campo de concentração de Auschwitz, 75 anos atrás.

Este conteúdo foi publicado em 02. setembro 2020 - 11:30
*Anita Winter, Neue Zürcher Zeitung

Hirsch foi um engenheiro elétrico bem-sucedido, mas sua verdadeira vocação surgiu de seu papel como testemunha do Holocausto. Até pouco antes de sua morte, ele contava suas memórias do Holocausto de forma profundamente comovente.  Ele havia sobrevivido a um período terrível; seus relatos eram sempre sóbrios, mas isto os tornava ainda mais convincentes para seus ouvintes.

Sua última memória de sua mãe é apenas um exemplo. "Em Auschwitz eu trabalhei atrás do campo das mulheres. Tínhamos que cortar o gramado. Eu queria ver minha mãe mais uma vez e lhe havia trazido minha ração de pão. De fato, conseguimos trocar algumas palavras. Mas eu não pude dar a ela meu pão. Ela me deu sua ração em vez disso. Foi a última vez que eu vi minha mãe".

O documento do CICV confirmando a morte da mãe de Hirsch em um campo de concentração Keystone/ennio Leanza

B-14781

O estilo de Hirsch fez dele uma das vozes mais notáveis da Suíça, nos lembrando de não esquecer. Lembro-me do último grande evento escolar com os sobreviventes do Holocausto, em março deste ano. Eu o acompanhei naquele dia e pude observar como ele falava na frente de centenas de alunos. Ele os cativou com seu estilo narrativo direto e autêntico - enquanto descrevia como era a vida em Auschwitz, ele subitamente arregaçou as mangas de sua camisa e mostrou seu número de prisioneiro tatuado: B-14781.

Gamaraal-Stiftung

Aquilo chocou nitidamente os jovens ouvintes. Hirsch usava uma linguagem simples e clara para contar os terríveis acontecimentos da Shoah e como isso o atingiu. Ele contava como fora marginalizado e humilhado, mas também como conseguiu sobreviver e viver sua vida depois de tanto horror.

Ele dava essas palestras em escolas e universidades até pouco antes de sua morte. Ele foi incansável em compartilhar suas experiências como uma das últimas testemunhas desta terrível época - também como uma obrigação em relação aos milhões de pessoas que não podiam mais falar por si mesmas. Esta incansável determinação foi a base de sua importância para a Suíça. Somente alguns poucos sobreviventes ainda podem nos falar sobre a vida sob o regime nazista.

Hirsch, que nasceu na Hungria, era portanto um embaixador insubstituível, uma voz contra o esquecimento do passado. Gábor Hirsch estava convencido de que a memória e o conhecimento do passado tinham que permanecer no presente: esta era a única maneira para que a história não se repetisse. E foi por isso que ele assumiu a enorme tarefa de nos contar e de continuar fazendo isso - para e com cada geração.

Turma da escola de Hirsch em 1939 Keystone/ennio Leanza

"Não fale sobre a gente, fale com a gente''

Ele também conseguiu falar com os políticos. Em 19 de janeiro, Simonetta Sommaruga, que detém a presidência rotativa da Suíça este ano, foi a anfitriã de um almoço pessoal para os sobreviventes do Holocausto em Berna.

Durante este evento, Hirsch disse algo que nunca devemos esquecer: "Não fale sobre a gente, fale com a gente". Entretanto, este "fale com a gente" está se tornando cada vez mais difícil, porque o número de testemunhas está diminuindo.

Temos de agradecer a Gábor Hirsch por ter canalizado toda sua energia durante todos estes anos para nos contar suas experiências e memórias - memórias que às vezes eram quase impossíveis de serem colocadas em palavras. É também por isso que o trabalho de sua vida é tão importante. A morte de Hirsch nos lembra que a responsabilidade de manter vivas as lembranças do Holocausto está diminuindo cada vez mais para as gerações mais jovens.

Gábor Hirsch queria alertar as pessoas sobre os perigos do extremismo de direita e do racismo e para onde tais tendências poderiam levar. Ele era um incansável defensor do Estado de direito e de uma democracia forte. Este trabalho deve agora continuar, mesmo sem ele. O legado de Hirsch nos obriga a fazer isso. Perdemos uma pessoa amável, um amigo, mestre e mentor. Quem o conheceu, jamais o esquecerá.

*Anita Winter é a fundadora e presidente da Fundação Gamaraal. Este texto foi originalmente publicado no Neue Zürcher Zeitung e é publicado aqui com sua gentil permissão.

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