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Uma invasão? A crítica do turismo por volta de 1900

Cartão postal antigo
Um cartão postal satírico datado de cerca de 1910 mostra a Jungfrau do futuro, invadida por turistas: trens, aviões e multidões de visitantes conquistam a montanha. e-pics

Foi ao casar-se com Marie Stern, proprietária de um hotel em Wengen, que o arqueólogo Jakob Wiedmer descobriu o "boom" do turismo da Belle Époque nos Alpes bernenses. Ele registrou suas impressões em seu romance "Flut" (n.r.: Inundação), uma crítica ao turismo que o obrigou a abandonar imediatamente suas funções de diretor de hotel.

Swissinfo republica regularmente artigos do blog do Museu NacionalLink externo dedicados à história da Suíça, disponíveis em alemão, francês e inglês.

De filho de padeiro a arqueólogo, depois hoteleiro

Nascido em 1876 no vilarejo de Herzogenbuchsee, nas proxi midades de Berna, filho de um padeiro, Jakob Wiedmer foi muito cedo considerado uma espécie de gênio. Na escola, elogiavam a facilidade com que aprendia. No entanto, como seu pai achava que já havia “intelectuais demais”, empurrou o jovem para aprender um ofício de verdade: o de empregado de comércio.

Assim que Jakob Wiedmer foi contratado para tal cargo em Zurique, seu empregador o enviou a Atenas. Parece que sua estadia ali desenvolveu mais seu interesse pela arqueologia do que pelo comércio. De volta a Berna, o jovem tornou-se arqueólogo e depois escritor, antes de contrair matrimônio em janeiro de 1904: aos 27 anos, casou-se com Marie Stern, proprietária de um hotel em Wengen, e assim se tornou gerente de hotel, conforme a legislação em vigor na época.

Foto em preto e branco de um homem
Jakob Wiedmer em 1907. Wikimédia

No caminho para o turismo de massa nos Alpes berneneses.

A experiência que Jakob Wiedmer teve com a expansão do turismo de massa – ou até do hiperturismo – enquanto hoteleiro em 1904/1905 parece tê-lo marcado profundamente. Na época, a região do vale de Lauterbrunnen, em particular o vale do Lütschine, ao pé das montanhas Eiger, do Mönch e da Jungfrau, já apresentava uma longa tradição de turismo alpino. Desde a segunda metade do século 18, as viagens turísticas aos Alpes bernenses se multiplicaram, inicialmente centradas em alguns espetáculos naturais específicos.

Turismo de massa ou hiperturismo?

O turismo de massa define-se como o deslocamento de um número muito grande de pessoas para destinos populares, muitas vezes com ofertas padronizadas. Já o hiperturismo designa uma situação em que o turismo assume tal amplitude que passa a comprometer sensivelmente a qualidade de vida da população local, assim como a experiência dos próprios turistas.

As geleiras de Grindelwald, na época ainda visíveis a partir da aldeia de Grindelwald e acessíveis após uma curta caminhada, despertavam intenso interesse. Pode-se imaginar o fascínio do público, majoritariamente urbano, pela “vista das geleiras” devido a grande quantidade de aquarelas e pinturas que foram produzidas. Além disso, na época romântica, as visitantes e os visitantes também eram cativados pelas poderosas cascatas.

Ilustração antiga de cataratas
Vista das Cataratas de Staubbach, no Vale de Lauterbrunnen, por volta de 1850. Com uma altura de quase 300 metros, elas inspiraram Goethe a escrever seu poema “Gesang der Geister über den Wassern” (Canto dos Espíritos sobre as Águas) em 1779. Um desenho de Franz Schütz, provavelmente adquirido na época, ainda hoje está exposto na casa de Goethe em Weimar. Musée national suisse

Além das maravilhas da natureza, manifestações culturais também atraíam o público majoritariamente urbano. No espírito de um retorno às formas de vida originárias das populações alpinas, a Festa de UnspunnenLink externo surgiu em 1805. Ao sul de Interlaken, nobres da cidade de Berna convidavam para encontros inspirados nas tradicionais festas dos pastores de montanha, marcados por concursos e demonstrações artesanais e artísticas. Era então necessário hospedar cerca de 600 convidados, o que acarretava sobrecarga nos hotéis e pensões.

Ilustração antiga de cenário alpino
Representação da segunda edição da Festa de Unspunnen em 1808. A festa só foi retomada um século depois, em 1905, na época áurea do turismo no Oberland bernês. Musée national suisse

O crescimento do turismo nos Alpes bernenses está estreitamente ligado ao desenvolvimento da infraestrutura de transporte, tendo como ponto de partida a construção de estradas com técnica avançada de engenharia desde meados do século 18. Os maiores lagos do cantão de Berna – o lago de Thun e o lago de Brienz – foram inicialmente atravessados por barco. A partir de 1835, o primeiro barco a vapor cruzou o lago de Thun, e o lago de Brienz quatro anos mais tarde. Numerosas barcas, contudo, permaneceram em serviço para o transporte de pessoas até a década de 1870.

No entanto, foi a ligação da região à rede ferroviária que se revelou decisiva para o advento do turismo de massa, sabendo-se que a conexão se limitou, num primeiro momento, ao trecho entre Berna e Thun (concluído em 1859/1861), de onde era então possível tomar um barco. Somente a partir de 1885 a expansão da rede ferroviária se acelerou: no espaço de apenas dez anos, surgiu a linha férrea de Thun a InterlakenLink externo ao longo do lago de Thun, bem como as ligações entre Interlaken, Grindelwald e Lauterbrunnen e, igualmente, a linha do Brünig, que conectava Brienz a Lucerna passando pelo passo do Brünig. Por fim, com a abertura da linha do Lötschberg em 1913, estabeleceu-se uma ligação com o Alto Valais e até Milão.

Graças a esse acesso facilitado, o turismo continuou a se expandir nos Alpes bernenses. Iniciou-se então, entre as diferentes localidades e regiões, uma competição que se desenrolava em dois níveis: a atratividade da oferta hoteleira e as vias férreas de montanha. A princípio, as melhores acomodações para uma clientela internacional abastada se limitavam às cidades situadas na periferia dos Alpes, como Thun.

Mas, no final do século 19, novos complexos hoteleiros surgiram às margens do lago de Brienz, em Grindelwald, em Wengen e em Mürren, desencadeando uma corrida pelos melhores locais e pela clientela mais rica – algo que, pode-se imaginar, deve ter gerado forte rivalidade e certa dose de inveja dentro das comunidades desses pequenos vilarejos.

Cartaz antigo de cenário alpino
A vila de Wengen e a ferrovia Wengernalp, cartaz turístico de Anton Reckziegel, 1903. O cartaz apresenta uma vila em seu estado natural, situada no coração de uma paisagem alpina idílica. No entanto, a imagem sugere claramente a chegada do turismo de massa burguês à Kleine Scheidegg. Musée national suisse

As vias férreas de montanha cumpriam uma função especial: a de transformar o olhar lançado sobre as montanhas. Até então, apenas os alpinistas podiam contemplar os Alpes do alto. Os trens que percorriam as montanhas trouxeram uma mudança de perspectiva decisiva ao permitir o acesso a pontos de vista em altitude sem que fosse necessário realizar façanhas esportivas excepcionais. Do final da década de 1870 até a I Guerra Mundial, um grande número de ferrovias de cremalheira e funiculares, cada vez mais sofisticados, foi construído.

No contexto que nos interessa, a construção da ferrovia Wengernalp, que subia de Lauterbrunnen a Wengen e depois até a Kleine Scheidegg, antes de descer novamente a Grindelwald (1893), foi essencial. A linha contribuiu de modo decisivo para o desenvolvimento do pequeno vilarejo alpino de Wengen, o que nos coloca diretamente no universo do casal Wiedmer-Stern. Contudo, o projeto de longe mais audacioso deveria conectar-se a essa ferrovia e ligar a Kleine Scheidegg ao JungfraujochLink externo. Numerosas fotografias da Belle ÉpoqueLink externo atestam o fascínio que esse trajeto exercia sobre os turistas.

Ilustração da construção da ferrovia Jungfrau
A construção da ferrovia Jungfrau não foi unanimidade: cartão postal da época (por volta de 1912) caricaturando o sofrimento infligido pela ferrovia aos picos personificados do Eiger, Mönch e Jungfrau. Musée national suisse

A publicação de guias turísticos também foi um fator no desenvolvimento do turismo de massa. A série “Murray’s Handbook for Travellers” para leitores ingleses e sua contraparte alemã, o “Baedeker”, desempenharam um papel essencial. Esses guias revelaram os lugares imperdíveis em uma viagem à Suíça. Eles eram atualizados regularmente, de modo que uma comparação entre as diferentes edições oferece uma boa visão geral do desenvolvimento do turismo. Graças às novas ferrovias de montanha ou aos hotéis atraentes, destinos que antes mal eram mencionados, de repente se tornaram o centro das atenções.

“Flut”, uma nova crítica do turismo

Em 1904, Jakob Wiedmer escreveu seu romance caracteristicamente espirituoso “Flut”, que foi publicado no ano seguinte. Embora a obra tenha sido imediatamente bem recebida após sua publicação em forma de série e tenha sido até mesmo mencionada no jornal The Times, de Londres, seu conteúdo não foi recebido com grande entusiasmo nos Alpes berneneses, e é fácil entender por quê.

Capa de um livro
Capa do romance “Flut”, de Jakob Wiedmer, editora Huber & Co, 1905. De: Felix Müller: Rastlos. Das erstaunliche Leben des Archäologen und Erfinders Jakob Wiedmer-Stern (1876-1928)» (ouvrage uniquement disponible en allemand)

O tema do livro permaneceu atual – ainda hoje. A ação se passa em Stägen; trata-se, evidentemente, de Wengen, embora alguns trechos também remetam a outros lugares, como Mürren. Esse vilarejo de montanha, isolado e de tradição camponesa, transforma-se subitamente em um destino internacional de veraneio, invadido por turistas. Os camponeses tornam-se hoteleiros, num ambiente marcado por despeitos e conflitos.

As descrições de Jakob Wiedmer em seu romance Flut não surgem do nada e lembram, de fato, numerosas localidades dos Alpes bernenses. Ao final, o lugar é incendiado num desfecho apocalíptico. De modo quase profético, esse epílogo catastrófico aponta para o problema de uma orientação econômica centrada exclusivamente no turismo e para suas consequências sobre a natureza alpina. O primeiro colapso ocorreu quando da eclosão da I Guerra Mundial, que provocou uma prolongada ausência de hóspedes internacionais.

“Continuem, construam ferrovias para todos os lados, profanem a Jungfrau com o estrondo de suas máquinas e a multidão carrancuda, e pisoteiem sua cabeça com as solas sujas pela lama das grandes cidades! […] Mas vocês a violentaram; vocês a vendem a preço vil para seu próprio lucro, como uma jovem de pouca virtude!”

Trecho de Flut, p. 228 da nova edição (tradução livre). Essa passagem antecipa o que uma caricatura de 1912 denunciaria por ocasião da inauguração da ferrovia da Jungfrau.

O romance crítico ao turismo de Jakob Wiedmer insere-se numa tradição de narrativas que abordam com reserva – de forma nuançada ou claramente negativa – o surgimento do turismo de massa e suas consequências para as sociedades outrora aldeãs dos vales alpinos suíços.

No fim do século 19, o confronto entre a população local e os turistas passou a ser apontado de maneira cada vez mais crítica; as rupturas dentro das sociedades alpinas também ganharam relevância. Assim, o relato de Arnold Halder “Die Stiefelchen oder Was sich in Interlaken Alles treffen kann” (1883) examina igualmente, ainda que brevemente, o mundo que se opunha aos hotéis de luxo.

Reedição do romance Flut

A reediçãoLink externo de Flut saiu há pouco pela editora Chronos, 120 anos após a publicação do livro. Ela vem acompanhada de um prefácio do biógrafo de Wiedmer, Felix Müller, e de um posfácio de Christian Rohr sobre a história do turismo.

Paralelamente aos hotéis, subsistiam bairros miseráveis com crianças em andrajos, mendigos e salteadores de estrada. Em sua tese de 1891, “As principais mudanças no modo de vida das populações de alta montanha na Suíça ao longo do século 19”, o futuro poeta Rudolf von Tavel também relatava uma mendicância ostensiva ou disfarçada, personificada por tocadores de trompa ou crianças vendendo ramalhetes de flores. Já em 1900, portanto, o Oberland bernês estava às voltas com o hipertourismo.

Após a ruptura

A publicação do romance levou o casal a romper com Wengen. Em seguida, mudaram-se para Berna, onde Jakob Wiedmer assumiu um cargo no Museu Histórico de Berna, tornando-se seu diretor em 1907.

Seu trabalho como arqueólogo, cujos efeitos são sentidos até hoje, merece ser descrito como uma pesquisa pioneira. Entretanto, até mesmo essa atividade se tornou monótona demais para ele. Com os lucros da venda do hotel em Wengen, ele financiou negócios no exterior, até que a eclosão da I Guerra Mundial pôs fim às suas ambições.

Anúncio antigo
Anúncio da venda do hotel-pousada Stern & Beausite em Wengen, 31 de março de 1905. De: Felix Müller: Rastlos. Das erstaunliche Leben des Archäologen und Erfinders Jakob Wiedmer-Stern (1876-1928) (ouvrage uniquement disponible en allemand)

Assim, o financista tornou-se um inventor de máquinas de todos os tipos. Ele era incansável em sua busca por novos projetos. Seu maior sonho era adaptar seu último romance, Kyra Fano, para as telas, com ninguém menos que Alfred Hitchcock na direção. Mas não deu em nada: sofrendo durante anos com os efeitos posteriores da sífilis e de uma doença reumática, o gênio que nunca conseguiu se estabelecer morreu em 3 de agosto de 1928.

Adaptação: Karleno Bocarro

Christian Rohr é professor no Instituto de História da Universidade de BernaLink externo.

Link para o artigo original publicado no blog do Museu Nacional SuíçoLink externo

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