Da Índia à Suíça: a epopéia do ioga
De origem milenar indiana e enraizado na filosofia espiritual, o yoga conquistou a Suíça desde o início do século 20. Da colônia alternativa de Monte Verità ao boom das academias nos anos 1970, a prática ganhou espaço e se transformou em um mercado bilionário.
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Ioga com cerveja na estação de Zurique, retiro de ioga em Scuol… na Suíça, a ioga está em alta. É praticado em academias, ao ar livre ou em centros de bem-estar. No entanto, essa imagem amplamente difundida esconde uma prática milenar, profundamente ancorada na história cultural e nas tradições filosóficas da Índia.
Origens e evolução na Índia
A ioga tem sua origem na Índia, onde surgiu há mais de três mil anos, tratava-se então de uma prática eminentemente espiritual. Longe de se reduzir a um simples exercício físico, ela oferecia um caminho espiritual e cultural cujo objetivo último era a iluminação por meio da meditação.
As primeiras menções à ioga remontam ao período védico, entre 1500 e 500 a.C. Os Yoga-sutras de Patañjali, redigidos por volta do ano 200 d.C., são um texto fundamental da ioga. Nele são descritos os oito ramos da ioga, que vão dos princípios éticos (yamas) à comunhão espiritual (samadhi).
Durante o período colonial, missionários portugueses descobriram a ioga e a rejeitaram, vendo nela uma disciplina ligada ao hinduísmo. Os colonizadores britânicos demonstraram interesse igualmente reduzido pela cultura indiana e, consequentemente, pela ioga. Como reação, a ioga tornou-se para as indianas e os indianos um símbolo de identidade cultural e de autodeterminação.
Depois de rejeitarem a ioga no início da colonização, os britânicos descobriram, algum tempo mais tarde, os asanas (posturas corporais da ioga) e os integraram à sua própria ginástica. As origens de certas posturas hoje muito difundidas, como o cão olhandoLink externo para baixo ou o guerreiro IILink externo, são difíceis de determinar. Segundo algumas fontes, elas resultariam justamente dessa fusão entre os asanas e a ginástica britânica.
Conquista do Ocidente
Essas práticas continuaram a se desenvolver, e várias escolas surgiram, com um ensino centrado nos exercícios físicos e nas posturas. No fim do século 19, eruditos indianos e mestres espirituais viajaram ao Ocidente. Em 1893, Swami Vivekananda apresentou a ioga no Parlamento das Religiões, em Chicago. Objetivo: conquistar o Ocidente para o hinduísmo e abolir as diferenças. Sob essa ótica, ele adaptou a ioga à ciência e à racionalidade ocidentais, deixando de lado alguns de seus aspectos espirituais e culturais.
Durante as décadas seguintes, outros professores contribuíram para a difusão da ioga na Europa e na América do Norte. Nas décadas de 1960 e 1970, a ioga conheceu um verdadeiro boom no Ocidente.
Os Beatles, que em 1967 participaram de um seminário de meditação transcendental em Bangor, no País de Gales, contribuíram largamente para essa popularidade. No ano seguinte, eles viajaram com famílias, amigos, assistentes e inúmeros jornalistas para a Índia, a fim de seguir um curso aprofundado de meditação transcendental no ashram Shankaracharya Nagar. Graças aos Beatles e a outras estrelas mundiais, o guru Maharishi Mahesh Yogi tornou-se uma celebridade planetária, e seu caminho o levou também à Suíça.
Ioga na Suíça
No início dos anos 1970, Maharishi Mahesh Yogi transferiu a sede principal de sua organização para a Suíça, para o antigo grande hotel Sonnenberg, em Seelisberg. Ele ficou fascinado pelo ambiente, pela tranquilidade e pelo panorama com vista para as montanhas desse pequeno vilarejo alpino do cantão de Uri.
Felix Kägi, um de seus primeiros discípulos na Suíça, foi quem lhe apresentou esse local situado logo acima do Grütli, o prado às margens do Lago dos Quatro Cantões. Nos períodos de maior afluência, até 300 adeptos chegaram a viver em Seelisberg.
Maharishi Mahesh Yogi não foi o primeiro iogue na Suíça. Não dispomos de fontes concretas que permitam identificar os primeiros iogues em nosso país, mas sabe-se que a ioga já era praticada aí desde o início do século 20, no lendário Monte Verità.
Pessoas em busca de alternativas às convenções sociais rígidas de sua época haviam se estabelecido nas colinas de Ascona com o propósito de viver em harmonia com os ritmos naturais do ser humano e da natureza. Segundo o escritor Hermann Hesse, a colônia do Monte Verità também contava com adeptos e praticantes de “exercícios indianos”.
Ao longo do século 20, a popularidade da ioga não parou de crescer na Suíça. Em 1948, Selvarajan Yesudian e Elisabeth Haich, que haviam fugido da Hungria comunista, abriram em Zurique a primeira escola de ioga da Suíça. Yesudian era um iogue indiano que fora estudar na Hungria, onde publicou, em 1941, o livro Sport és jóga (Esporte e yoga), destinado a um público ocidental.
Nos anos que se seguiram, Yesudian e Haich abriram outras escolas na Suíça, notadamente em São Galo, Lausanne e no Ticino. Na década de 1970, a ioga conheceu um verdadeiro boom na Suíça, como também em outros países da Europa. Viram-se florescer os estúdios de ioga, os retiros e as ofertas de formação, e a Federação Suíça de Yoga foi fundada em Lausanne.
A ciência também passou a interessar-se cada vez mais pela ioga. Universidades e institutos de pesquisa debruçaram-se sobre os seus efeitos na saúde física e mental. Os primeiros estudos mostraram que a ioga podia reduzir o estresse, melhorar a saúde cardíaca e aliviar a ansiedade. Por isso, passou a ocupar um lugar no sistema de saúde, e fisioterapeutas começaram a colaborar com professores de ioga.
Seminário internacional de ioga ao ar livre, perto de Moléson (Friburgo), 1971. SRF
Atividade cada vez mais comercial
Originário da Índia, a ioga é hoje praticada por 250 a 300 milhões de pessoas em todo o mundo. Embora na Índia esteja estreitamente ligado à espiritualidade e à filosofia, na Europa e nos Estados Unidos a ênfase recai sobretudo sobre o aspecto corporal. Em certos estilos, a ioga se assemelha mais a um esporte do que a uma prática espiritual, como, por exemplo, nos campeonatos suíços de ioga.
É impossível negar que essa disciplina tomou um rumo comercial: tapetes, roupas, livros e até playlists transformaram a ioga em um mercado que movimenta bilhões. Muitas vezes resta bem pouco do modo de vida e da espiritualidade que, em sua origem, há alguns milhares de anos, eram constitutivos da ioga.
Manda Beck é historiadora.
Link para o artigo original no blog do Museu Nacional SuíçoLink externo
Adaptação: Karleno Bocarro
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