Plano anti-imigração não inspira eleitores, revela pesquisa de opinião

Muitos cidadãos de países da União Europeia trabalham e vivem na Suíça. A aprovação de uma iniciativa anti-imigração em uma votação nacional em 27 de setembro poderia ter um impacto adverso sobre a economia suíça, disse a maioria dos entrevistados em uma pesquisa da SSR. Keystone / Christian Beutler

Pouco antes da votação de setembro, pesquisa constata que a proposta da ala direita para acabar com acordo de imigração com a União Europeia tem apoio limitado entre os eleitores suíços.

Este conteúdo foi publicado em 26. agosto 2020 - 09:00

Entretanto, apoiadores da proposta parlamentar que prevê gasto de CHF6 bilhões (US$ 6,6 bilhões) com novos aviões de caça para a força aérea têm vantagem de quase 20 pontos percentuais sobre os oponentes da esquerda política.

A pesquisa encomendada pela Sociedade Suíça de Radiodifusão e Televisão (SSR SRG) foi realizada sete semanas antes de 27 de setembro, dia em que cinco questões serão votadas em todo país.

Para mais detalhes, veja o quadro abaixo:

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A cientista política Martina Mousson diz que é impressionante ver como as opiniões sobre a iniciativa anti-imigração permaneceram estáveis e entrincheiradas nos últimos cinco meses.

"Isso deixa pouca esperança para os defensores da iniciativa", diz Mousson, líder do projeto no instituto de pesquisa GfS Bern, que realizou o levantamento.

Ela considera que, salvo imprevistos durante as próximas semanas, é improvável que o Partido do Povo ganhe apoio fora de sua própria base e entre os críticos fundamentais do governo.

A pesquisa de opinião constatou que a maioria dos cidadãos das regiões de língua alemã e francesa pretendem rejeitar a iniciativa nas urnas. Somente a região de língua italiana do Ticino mostra sinais de que pode votar a favor.

Medo da retração econômica

Mousson diz que a principal razão que garante liderança para a oposição neste assunto é a preocupação de que a prosperidade econômica da Suíça esteja em jogo se as relações com a União Europeia - principal parceira comercial do país - ficarem comprometidas.

Ela acrescenta que a pressão em torno dos níveis de imigração está aliviada em comparação com a situação de 2014, quando os eleitores suíços aprovaram outra proposta do Partido do Povo que determinava a introdução de cotas de imigração para cidadãos da União Europeia.

Foi a raiva causada pela recusa do parlamento em implementar plenamente as exigências dessa iniciativa – de 2014 - que estimulou o Partido do Povo a lançar uma nova proposta. Mas agora a iniciativa anti-imigração enfrenta uma ampla aliança de todos os outros grandes grupos políticos, comunidade empresarial, sindicatos, parlamento e governo.

Mousson diz que os argumentos apresentados pela oposição parecem ser mais convincentes do que as justificativas daqueles que apoiam o fim do acordo de livre circulação (e o final de provavelmente outros seis acordos bilaterais).

Considerando o número atualmente bastante baixo de apoiadores (35%) e os outros resultados da pesquisa, Mousson está cética em relação a uma mudança repentina no cenário. "No momento, não há indicações claras de que a tendência negativa será revertida logo", diz ela.

Compra de aviões

Um plano orçamentário para a compra de caças de combate também aguarda a aprovação dos eleitores em setembro, de acordo com Lukas Golder, codiretor da GfS Bern.

Ele diz que os opositores de esquerda, que contestaram a decisão do parlamento em dezembro, podem ganhar um apoio adicional entre os eleitores mais jovens e as mulheres, particularmente na Suíça francófona.

Mas isso não parece ser suficiente para repetir uma surpresa nas urnas como ocorreu em 2014, quando os eleitores rejeitaram o plano de comprar 22 aviões de caça suecos em uma das piores derrotas democráticos para as Forças Armadas Suíças.

"Os entrevistados em nossa pesquisa acreditam que uma força aérea forte e independente é necessária", diz Golder. "Parece que a esquerda carece de argumentos realmente convincentes em sua campanha", acrescenta ele.

Pandemia da Covid-19

Um novo fator a ser considerado nas campanhas políticas que antecedem o 27 de setembro é a pandemia da Covid-19 e as medidas de distanciamento social estabelecidas pelo governo.

O distanciamento torna muito mais difícil a realização de reuniões públicas - uma forma tradicional de atingir os cidadãos suíços. Golder explica que as restrições dificultam para a oposição a organização de protestos e eventos, dando uma clara vantagem para o governo e suas propostas.

"A pandemia de coronavírus lançou uma enorme sombra, criando insegurança nas pessoas, principalmente em relação a sua situação econômica", diz Golder.

A isso se soma o fato de que os cidadãos terão que se decidir sobre quatro outras questões nacionais, enquanto em muitas regiões esperam-se também decisões em níveis regional e local.

Golder aponta ainda que os meios de comunicação tradicionais - imprensa escrita ou televisão - se tornaram mais relevantes enquanto as mídias sociais e outros canais de informação parecem ter perdido terreno.

Os jornais estão lutando para informar amplamente sobre o assunto e contribuir com o processo de formação de opinião, vital para a democracia. No entanto, a Covid-19 impôs a muitos jornais cortes e reduções no número de páginas por edição, devido principalmente à queda na receita publicitária.

Ainda não é óbvio até que ponto os apoiadores e oponentes, tanto da aquisição de aviões de caça quanto das barreiras de imigração, serão afetados pela pandemia. Mas nas últimas semanas tem havido muita especulação.

Em meados de setembro será publicada a segunda pesquisa de opinião da GfS que pode dar uma visão mais clara do cenário.

Detalhes da enquete

Os pesquisadores entrevistaram 29.540 cidadãos suíços de todas as regiões linguísticas do país para a primeira de duas pesquisas de âmbito nacional.

A pesquisa é baseada em respostas pela internet e entrevistas telefônicas, tanto com usuários de telefonia fixa como móvel, e foi realizada de 3 a 17 de agosto.

A margem de erro é de 2,9%.

A pesquisa foi encomendada pela Sociedade Suíça de Radiodifusão e Televisão (SSR SRG), empresa controladora da SWI swissinfo.ch, e realizada pelo instituto de pesquisa GfS Bern.

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