Brasil leva o melhor snowboarder da Suíça para as Olimpíadas de inverno na Itália
Segundo a imprensa suíça, o Brasil assume cada vez mais importância em diversos campos: além dos seus campeões nas Olimpíadas de Inverno (!), o país registra um "boom" turístico inédito, e suas riquezas minerais estão na mira da ordem mundial desenhada por Donald Trump. O direito ao aborto, porém, ainda é uma quimera para as mulheres brasileiras.
Abomináveis brasileiros das neves
O astro do esqui Lucas Pinheiro BraathenLink externo (25) deu o exemplo. Agora Pat Burgener, especialista em halfpipe, também competirá pelo Brasil nos Jogos Olímpicos de Inverno na Itália.
A decisão de Burgener foi surpreendente e causou espanto. “Algumas pessoas me disseram: ‘Você está louco! Por que está fazendo isso?’”, conta o snowboarder. Mas o próprio Burgener também tinha dúvidas. “Eu não sabia o que me esperava. Isso me assustava.” Inspirado por Braathen, ele acabou se aventurando na mudança de nacionalidade.
Motivado pela história da família de sua mãe, que cresceu no Brasil, a ideia de representar o país o acompanhava há muito tempo. «Eu queria muito conhecer o país. Desde a mudança, tenho ido lá regularmente.»
Rapidamente se formou um pequeno grupo de fãs de Burgener. Seus sucessos foram decisivos para isso. Com o pódio no início do ano no Canadá, Burgener fez história. Nunca antes um brasileiro havia conseguido ficar entre os três primeiros em uma competição de snowboard.
Desde então, cada vez mais brasileiros têm entrado em contato com ele e anunciado que acompanharão os Jogos Olímpicos. No entanto, o preço foi alto. Com a mudança de federação, Burgener perdeu a estrutura a que estava acostumado. Não havia mais equipe, nem acompanhamento, nem rotinas fixas.
De repente, ele estava por conta própria. Burgener perguntou a um colega se ele poderia treiná-lo. O que surgiu de uma situação de emergência acabou se revelando um golpe de sorte.
Na classificação geral, Burgener está em 6º lugar – bem à frente do segundo melhor suíço.
Fonte: BlickLink externo, 05.02.2026 (em alemão)
O novo Japão?
O Japão viveu um verdadeiro boom turístico no ano passado – muitos suíços também estão entusiasmados com o Japão. Mas, de acordo com o atual Barômetro Mundial do Turismo da ONU Turismo, em 2025 outro país viveu uma verdadeira invasão: o Brasil. O país sul-americano registrou um aumento de 37% nas chegadas internacionais no ano passado.
O Brasil também está na moda entre os suíços? “Com certeza”, responde Gabriela Stauffer, diretora executiva da Dorado Latin Tours, especialista em América Central e do Sul. “O Brasil está se tornando o destino da moda na América do Sul em 2026.” A Dorado Latin Tours registrou em 2025 “um crescimento muito satisfatório da receita na casa dos dois dígitos”.
Segundo Stauffer, há inúmeras razões para o boom do Brasil. “A demanda sustentada é impulsionada, por um lado, pelos investimentos, especialmente no segmento de hotéis de luxo em expansão no Brasil.” Além disso, os preços das passagens aéreas para o Brasil caíram em 2025. Sem esquecer: a alegria de viver no Brasil. “O estilo de vida dos habitantes locais é descolado e moderno”, diz ela. “O Brasil vive o prazer e a alegria de viver.”
Brasil: +37%
Butão: +30%
Islândia: +29%
Guiana: +24%
Egito: +20%
África do Sul: +19%
Japão: +17%
Sri Lanka: +17%
Coreia do Sul: +15%
Marrocos: +14%
“O Brasil é um dos principais destinos de viagens de longa distância para nós”, afirma Beatrice Honegger, gerente de Operação de Turismo Latino do grupo Knecht. “Estamos registrando um aumento significativo na demanda e, em alguns casos, vemos até mesmo taxas de crescimento recordes.”
A tendência também é confirmada por Reto Kindlimann, da Brasa Reisen, uma agência de viagens de Zurique especializada em viagens à América Latina. Como a agência começou há 30 anos como especialista em viagens ao Brasil, a demanda por viagens ao Brasil é geralmente alta. “Nos últimos meses, porém, observamos um aumento na demanda. Estimamos um aumento de cerca de 20%”, diz Kindlimann.
Entre os destinos mais procurados pelos clientes suíços, além do Rio de Janeiro, estão Paraty, Fernando de Noronha, Pantanal, Amazônia, Salvador, Chapada da Diamantina e Jericoacoara.
Fonte: 20MinutenLink externo, 31.01.2026 (em alemão)
Matérias-primas e poder na nova ordem mundial
O diário zuriquenho Neue Zürcher Zeitung (NZZ) publicou uma longa reportagem, de seu correspondente no Brasil sobre a importância que o país vem adquirindo no xadrez geopolítico da era Trump – e como o governo Lula tem navegado suas relações com o poderoso vizinho do norte.
Em julho de 2025, Donald Trump impôs altas tarifas alfandegárias sobre produtos brasileiros. Trump queria punir o país pela maneira como a Justiça brasileira lidou com o ex-presidente Jair
Bolsonaro. Entretanto, quase todas as tarifas punitivas foram suspensas e Trump conversou várias vezes com o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva.
Mas a mudança de opinião de Trump não é motivada por simpatias pessoais. Muito mais importante: o Brasil é uma potência mundial em mineração, com algumas das maiores reservas de terras raras e minerais críticos. Um mineral é considerado “crítico” quando é importante para a economia mundial, mas seu abastecimento é incerto, como por exemplo, quando ele é extraído por poucos países ou existe um monopólio.
De acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos, o Brasil possui, depois da China, a segunda maior reserva de terras raras, ou seja, quase um quarto da quantidade disponível no mundo. Trata-se de 17 elementos químicos que só são encontrados em pequenas concentrações em todo o mundo.
As terras raras se tornaram um importante instrumento da China em disputas geopolíticas. Elas são importantes para a indústria automotiva, a transição energética e a indústria de armamentos. No ano passado, a China, pela primeira vez, suspendeu ou reduziu a exportação de algumas terras raras para seus parceiros comerciais. Isso causou perdas de produção em fábricas europeias e americanas.
O Brasil também é um importante produtor de minerais críticos. É um importante fornecedor de nióbio, níquel, bauxita e grafite. A produção de cobre e lítio também cresceu rapidamente nos últimos anos. Para a empresa de consultoria PwC, o Brasil é um ator fundamental no mercado global de minerais energéticos.
Fonte: NZZLink externo, 04.02.2026 (em alemão)
A novela do aborto
Rebecca Mendes (38) foi a primeira mulher latino-americana a tentar reivindicar o direito ao aborto perante um tribunal superior – e narrou a sua experiência para a revista feminina Annabelle.
“Meus filhos tinham seis e nove anos quando engravidei pela terceira vez, em 2017. Eu tinha trinta anos, tinha me separado do meu marido e estudava Direito graças a uma bolsa de estudos. Pagava o aluguel com um emprego temporário.
Quando decidi abortar, pensei na minha família, na nossa sobrevivência financeira e no meu futuro. De acordo com a legislação vigente no Brasil, o aborto é crime e só é permitido após um estupro, se a vida da mãe estiver em risco ou se o feto tiver uma malformação grave.
Encontrei na internet um centro de atendimento ao qual escrevi. Uma mulher chamada Debora Diniz me respondeu imediatamente: “Vou tentar te ajudar”. Ela me mostrou uma terceira possibilidade: lutar. Ela queria levar meu caso ao Supremo Tribunal Federal. Ela me alertou, dizendo que eu deveria pensar bem se queria me expor dessa forma. Para mim, era o mal menor.
Mas a proibição não impede os abortos: todos os anos, pelo menos meio milhão de brasileiras realizam um aborto – quase um a cada minuto. A cada cinco dias, uma mulher morre em consequência de um aborto clandestino. Eu não queria continuar com a gravidez nem realizar o procedimento ilegalmente. Meu medo de ser presa ou de ter complicações era muito grande.
“A cada cinco dias, uma mulher morre no Brasil em consequência de um aborto clandestino”
Com uma equipe de advogadas, preparamos o caso. Tentamos mostrar, com base nas avaliações da escola dos meus filhos, que sou uma pessoa íntegra. Explicamos que eu queria recolocar meu DIU e tive que esperar mais de seis meses para isso. No Brasil, é possível obter anticoncepcionais pelo sistema público de saúde, mas ele funciona muito lentamente.
No entanto, o tribunal determinou que eu não tinha motivos legais suficientes para a ação e se recusou a decidir sobre o caso. Nos dias e semanas seguintes, fui ameaçada e difamada nas redes sociais. As pessoas me chamavam de assassina, escreviam que meus filhos mereciam morrer.
Um opositor do aborto apareceu em frente ao meu apartamento e disse que eu ficaria esquizofrênica se abortasse. Tudo isso apenas porque eu queria decidir sobre meu próprio corpo. Tive a sorte de poder abortar legalmente na Colômbia pouco tempo depois. Não me importava com o que as pessoas diziam sobre mim.
Eu dei entrevistas, mas nunca li os comentários odiosos sobre mim na internet. Eu estava na mídia porque fui a primeira mulher latino-americana a tentar obter o direito geral ao aborto em uma Suprema Corte.
Muitas mulheres entraram em contato comigo pedindo conselhos. Não desejo a nenhuma mulher que passe pelo mesmo. Por isso, em 2020, fundei com Debora Diniz e outras pessoas a organização Projeto VivasLink externo, que apoia mulheres e meninas em casos de aborto no Brasil e facilita o acesso a serviços legais de aborto no exterior.” – Rebeca Mendes (38), advogada, mora em São Paulo.
Fonte: AnnabelleLink externo, 03.02.2026 (em alemão)
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Publicaremos nossa próxima revista da imprensa suíça em 23 de janeiro de 2026. Enquanto isso, tenha um bom fim de semana e boa leitura!
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