O piloto suíço que ficou encalhado no Rio de Janeiro
De sunga na praia e sem dinheiro: 25 anos depois, o piloto da foto que marcou o colapso da Swissair no Rio quebra o silêncio. E um jornalista suíço visitou a favela mais conhecida do mundo: Rocinha, onde mesmo apesar do perigo, os turistas fazem fila para visitá-la. Estas e outras notícias foram destaques na imprensa suíça desta semana.
Faltam poucos dias para a eleição presidencial no Brasil. Nos últimos dias, o pleito tem ocupado lugar de destaque na cobertura dos principais jornais sobre a América Latina. Uma pesquisa mais atenta, porém, revela também algumas “pérolas” jornalísticas sobre temas menos convencionais, mas nem por isso menos interessantes.
Nesta revista de imprensa, destaco duas grandes reportagens publicadas pelo NZZ, um dos mais importantes jornais da Suíça.
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“Confiem no sangue do meu sangue”: é assim que o clã Bolsonaro quer voltar ao poder
O artigo do correspondente Klaus Ehringfeld sobre as eleições presidenciais no Brasil foi publicado em diversos jornais suíços e de língua alemã, entre eles o Vaterland, de Liechtenstein, e o Tagblatt, do cantão de St. Gallen.
A repercussão mostra a relevância internacional do pleito brasileiro e de seus possíveis efeitos políticos, econômicos e diplomáticos.
O texto apresenta Flávio Bolsonaro como principal nome da direita contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Escolhido pelo pai, Jair Bolsonaro, para disputar a Presidência, Flávio construiu sua carreira como deputado estadual no Rio de Janeiro e, desde 2019, como senador, defendendo pautas de segurança pública, armamento e maior rigor penal.
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Flávio Bolsonaro, um presidenciável à sombra do pai
Ehringfeld também relembra controvérsias envolvendo Flávio e destaca sua aproximação com as posições do pai. Entre as propostas citadas estão o endurecimento no combate ao crime, a construção de grandes presídios, a redução da idade de responsabilidade penal, cortes na estrutura do Estado e uma política econômica de austeridade.
Na política externa, uma eventual vitória de Flávio poderia significar maior aproximação com os Estados Unidos e mudanças na relação com a China, principal parceiro comercial do Brasil. O artigo observa ainda que, embora Flávio não tenha o mesmo carisma do pai, conta com o apoio direto de Jair Bolsonaro e com a fidelidade de parte expressiva do eleitorado de direita.
Esquerda se opõe ao acordo, mas seus eleitores o aprovam
O tema ganhou destaque em diversas mídias suíças, entre elas o jornal francófono 24 Heures e o germanófono Tages-Anzeiger, de Zurique, por tratar de uma questão atual e relevante para a política comercial do país.
A pesquisa indica que, se o acordo de livre comércio entre a EFTA e o Mercosul fosse submetido hoje a plebiscito na Suíça, a maioria dos eleitores poderia aprová-lo nas urnas. Segundo levantamento do 20 Minuten e da Tamedia, 42% se dizem favoráveis ao tratado, 39% contrários e 19% ainda não têm posição definida, o que mostra uma vantagem do “sim”, embora o debate permaneça aberto.
O acordo prevê a redução de barreiras entre a Suíça e Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, com isenção tarifária para quase todas as exportações suíças ao Mercosul e facilidades para a entrada de determinados produtos agrícolas sul-americanos.
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O que é preciso saber sobre o acordo UE-Mercosul
O tratado foi aprovado pelo Parlamento suíço, mas uma coalizão de ONGs anunciou a intenção de convocar um referendo, com apoio do Partido Socialista e dos Verdes. Os críticos apontam falta de salvaguardas mais rígidas contra produtos associados ao desmatamento da Amazônia ou ao trabalho forçado, enquanto os defensores destacam ganhos de competitividade e uma economia estimada em cerca de 150 milhões de francos por ano para as empresas suíças.
A pesquisa também revela diferenças importantes entre partidos e grupos sociais. O apoio é maior entre eleitores do Partido Liberal (FDP), do Partido Verde Liberal e do Partido do Centro, enquanto a base do Partido do Povo Suíço (SVP, na sigla em alemão) se mostra mais cética, apesar de muitos de seus parlamentares terem apoiado o acordo. Caso o referendo seja confirmado, o plebiscidto deverá ocorrer no início do verão de 2027, colocando no centro do debate a relação entre interesses econômicos, proteção ambiental e direitos humanos.
A maior favela do Brasil está nas mãos de criminosos do tráfico. Mesmo assim, os turistas fazem fila para visitá-la
A extensa reportagem do correspondente Thomas Milz, publicada pelo Neue Zürcher Zeitung (NZZ), um dos mais prestigiosos jornais da Suíça, mostra uma transformação surpreendente da Rocinha.
Conhecida internacionalmente como uma grande comunidade (favela) do Rio de Janeiro marcada pela violência, pelo tráfico e pela presença limitada do Estado, a comunidade tornou-se também uma das atrações turísticas mais procuradas da cidade.
O fenômeno é impulsionado por iniciativas locais como o projeto “Na Favela”, que organiza passeios com guias da própria comunidade e utiliza tecnologia para definir rotas e alertar sobre eventuais riscos. O turismo passou a gerar renda para guias, mototaxistas, comerciantes, restaurantes e operadores de drones. Segundo a reportagem, entre mil e dois mil visitantes chegam diariamente à Rocinha, e milhares de famílias já se beneficiam desse novo mercado.
Milz contrapõe essa nova realidade turística aos problemas históricos da comunidade. A Rocinha, que pode abrigar entre 100 mil e 200 mil pessoas, ainda convive com precariedade nos serviços públicos, falta de saneamento e coleta de lixo, pobreza e forte presença do crime organizado. O Comando Vermelho exerce controle sobre parte da vida econômica e social, enquanto muitos moradores demonstram profunda desconfiança em relação ao poder público e à política.
A reportagem destaca, sobretudo, o esforço dos próprios moradores para criar oportunidades onde o Estado pouco atua. Projetos de educação, turismo e empreendedorismo são vistos como caminhos para romper ciclos de pobreza e violência. Nesse cenário de fortes contrastes, a Rocinha apresentada pelo NZZ deixa de ser apenas símbolo de criminalidade e exclusão e passa a aparecer também como um destino turístico em ascensão, sustentado pela iniciativa e pela criatividade de sua própria população.
O piloto desempregado da Swissair do voo Rio, 25 anos após a suspensão das operações
Na entrevista de Moritz Kaufmann, um piloto relembra o episódio que o transformou involuntariamente em símbolo da falência da Swissair, a principal companhia de aviação da Suíça na época.
Em 2 de outubro de 2001, durante o histórico Grounding (falência) da companhia, Daniel Riediker foi fotografado na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, de calção de banho e chapéu de piloto, enquanto a empresa que representava havia praticamente paralisado suas operações.
O suíço era copiloto de um voo entre Zurique, Rio de Janeiro e Buenos Aires. Sua tripulação acabou sendo a única a permanecer no exterior durante a crise, depois de decidir ficar no Rio em vez de retornar imediatamente à Suíça. Sem smartphones e com acesso precário à internet, os tripulantes acompanhavam de longe o drama da empresa e chegaram a dividir dinheiro entre si quando alguns cartões bancários foram bloqueados.
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“Lembranças da Swissair”
O piloto conta que temia pelo futuro profissional, sobretudo porque sua esposa estava prestes a dar à luz o terceiro filho. Com a criação da Swiss International Air Lines, em 2002, continuou na aviação, embora tenha levado oito anos para voltar a receber o salário que tinha na Swissair. Hoje, ainda trabalha como piloto de longa distância e considera que a atual Swiss é uma companhia muito diferente, integrada ao Grupo Lufthansa e marcada por uma forte influência alemã.
Vinte e cinco anos depois, Riediker avalia que o fim da Swissair abalou profundamente a Suíça e continua vendo aquela fotografia de CopacabanaLink externo como a imagem que condensou todo o episódio. Apesar das perdas profissionais e das incertezas daquele período, ele permaneceu ligado à aviação e afirma ter encontrado novamente na cabine de comando o lugar onde realmente se sente realizado.
>>Outros assuntos noticiados na Suíça:
Polêmica em torno da padroeira do Brasil a poucos dias das eleiçõesLink externo (29/09)
Roberto Carlos, lenda do Brasil, perdeu toda a sua fortunaLink externo (28/09)
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Publicaremos nossa próxima revista da imprensa suíça em 9 de outubro. Enquanto isso, tenha um bom fim de semana e boa leitura!
Até a próxima semana!
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