Navigation

"Os finalistas da Copa serão Adidas e Coca Cola"

Alegrias da Copa. Keystone

Em tom voluntariamente sarcástico, o suíço Michel Thévoz, historiador da arte e sociólogo, fala de futebol em entrevista à swissinfo.ch.

Este conteúdo foi publicado em 19. junho 2010 - 12:21

Segundo ele, o esporte das multidões perdeu sua dimensão lúdica para curvar-se às leis do mercado e da competitividade.

De um lado tem os fanáticos e de outro os alérgicos. O futebol divide, como toda prática apaixonada e apaixonante. Se o Mundial faz muita gente feliz, também provoca vítimas: as equipes eliminadas, a decepção dos torcedores, as mulheres em casa privadas de seus programas prediletos e os intelectuais decepcionados por um “jogo” que se distancia cada vez mais do esporte para atender as leis do mercado.

Dessa última categoria faz parte o sociólogo suíço suíço Michel Thévoz, que tem opiniões severas sobre o futebol. Já era o caso três anos atrás quando publicou A Hora do Inverno, um ensaio divertido e pertinente sobre as novas mitologias, incluindo o futebol, considerado por ele como “o pesadelo da mundialização”. De lá para cá, sua opinião não mudou.

swissinfo.ch: Ouve-se falar que o Mundial chegou na hora certa para evacuar as inquietudes provocadas pela crise econômica. O senhor acha que ele desempenha um papel de amortecedor?

Michel Thévoz: Não exatamente. Eu diria que o Mundial serve de camuflagem. Ele desvia a atenção das pessoas dos verdadeiros problemas colocados pela mundialização: a confusão de identidades e o fosso cada vez maior entre ricos e pobres, entre neocolonos e neocolonizados. Seu papel consiste, portanto, não em aliviar as pessoas, mas enganá-las, distanciando-as da verdade.

swissinfo.ch: Se o futebol não existisse, o mundo seria melhor?

M.T.: Se o futebol fosse extinto, reapareceria de qualquer maneira, sob uma outra forma. O problema não é esse. O que seria necessário é refletir sobre o significado nocivo desse esporte que, mais do que qualquer outro, exalta as preferências nacionais. Temos o direito de questionar hoje se a Copa, pela competitividade arrogante e agressiva que ela acarreta entre as nações, não leva finalmente ao racismo.

swissinfo.ch : Mas essa competitividade também existe no tênis, quando da Copa Davis, por exemplo.

M.T.: É verdade, mas o esporte ocidental foi concebido assim: sempre é preciso um ganhador, o que eu acho fascinante. Na realidade, o Mundial serve para exportar o modelo esportivo europeu, a torná-lo planetário.

Vou lhe contar uma história que esclarece o que digo. Há mais ou menos um século, um missionário branco tentou introduzir o futebol em um vilarejo africano. Os jogadores eram magníficos, mas o jogo durou três dias porque as duas equipes em campo queriam chegar a um empate. Na mentalidade deles, muito diferente da nossa, o jogo era comunitário. Ela excluía a ideia de uma vitória que humilharia o adversário.

swissinfo.ch: Sem vitória não há dinheiro e não existe vitória sem dinheiro. O senhor concorda que é difícil eliminar a noção de triunfo em nossas sociedades baseadas no dinheiro?

M.T.: Já posso dizer quem serão os finalistas desse Mundial : Adidas e Coca Cola. Os outros servem de marionetes. Falando seriamente, eu gostaria que uma equipe africana ganhasse a Copa. Seria um pequeno retorno ao terceiro mundo da exploração econômica da qual foi vítima.

swissinfo.ch: Parece que a visão que o senhor tem do Mundial é muito negativa. Pensando bem, o senhor não encontra uma única qualidade?

M.T.:Não. Eu lamento, mas não tenho um final feliz a propor. Vou inclusive mais longe e confesso que a Copa me lembra os grandes desfiles de sinistra memória que os nazistas gostavam.

swissinfo.ch: O senhor não jogou futebol quando era adolescente?

M.T.:Joguei, claro, na escola, como todo mundo. Aliás, eu adorava. Mais tarde, também fui assistir a alguns jogos.

swissinfo.ch : O que aconteceu que o senhor abandonou?

M.T.: Um amigo de meu pai, um homem idoso que eu via em transe ao final dos jogos. Sua atitude indigna me incitou a fazer a diferença entre o futebol que proporciona prazer e o que torna possesso.

swissinfo.ch: O senhor assiste os jogos da Suíça na Copa do Mundo?

M.T.: Não, mas eu gostaria de reencontrar uma prática do jogo prazerosa, lúdica, comunitária e não através da mídia.

swissinfo.ch : O nome Ottmar Hitzfeld significa alguma coisa para o senhor?

M.T.: Não, mas é necessário precisar que meus conhecimentos do futebol não são os de um torcedor, mas de um sociólogo.

Ghania Adamo, swissinfo.ch

Michel Thévoz

Lausanne. Nasce em 1936 em Lausanne, oeste da Suíça.

Paris. Depois de estudar Letras na Universidade de Lausanne, estuda na Escola do Louvre, em Paris.

Museu. Trabalha como assistente e depois como conservador do Museu Cantonal de Belas Artes, em Lausanne.

Arte bruta. Assume a direção da Coleção de Arte Bruta em Lausanne e do museu do mesmo nome criado posteriormente.

Universidade. Especialista de arte contemporânea, é nomeado professor de história da arte na Universidade de Lausanne.

Aposentadoria. Aposenta-se em 2001.

Publicações. Publicou vários livros, entre eles “L’Aléatoire”, “Requiem pour la folie”, “Le corps peint”, “Plaidoyer pour l’infamie”, “L’esthétique du suicide”.

Temáticas. Sua obra aborda temas como o academismo, a arte dos loucos, o suicídio, o espiritismo e a infâmia.

End of insertion

Este artigo foi automaticamente importado do nosso antigo site para o novo. Se há problemas com sua visualização, pedimos desculpas pelo inconveniente. Por favor, relate o problema ao seguinte endereço: community-feedback@swissinfo.ch

Em conformidade com os padrões da JTI

Em conformidade com os padrões da JTI

Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Os comentários do artigo foram desativados. Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!

Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch

Partilhar este artigo

Modificar sua senha

Você quer realmente deletar seu perfil?