
Sandoz avalia rever operações nos EUA por risco de tarifas

Diante da ameaça de tarifas de até 25% sobre medicamentos genéricos nos Estados Unidos, a Sandoz avalia ajustes em sua estratégia e possíveis aumentos de preços. Gilbert Ghostine, presidente do conselho de administração, comenta os impactos e planos da multinacional suíça.
Produtos farmacêuticos foram excluídos das novas tarifas anunciadas pelos Estados Unidos até o momento, mas o setor pode não ser poupado por muito tempo. A indústria farmacêutica, incluindo os genéricos, pode ser atingida com tarifas de 25% ou mais.
Uma empresa como a Sandoz, especializada em medicamentos genéricos e biossimilares, depende de cadeias de suprimentos estreitas e margens de lucro reduzidas, portanto, a perspectiva de tarifas significa rever sua estratégia nos EUA e potenciais aumentos de preços.
O repórter da Swissinfo encontrou Gilbert Ghostine, na sede da empresa em Basileia, O presidente do conselho da Sandoz analisa o impacto que as tarifas americanas teriam sobre a empresa, a dependência do setor farmacêutico de certas regiões para abastecimento e maneiras de evitar futuras escassez de medicamentos.
– Nascido em 1960
– Cidadão libanês e canadense
– “Local de residência: mundo”: mudou-se 20 vezes e morou em quatro continentes nos últimos 40 anos.
– Desde fevereiro de 2023: presidente do conselho da Sandoz
– Desde outubro de 2022: membro do conselho da Danone
– Desde julho de 2022: membro do conselho do Four Seasons Hotels and Resorts
– 2014-2023: CEO da Firmenich
– 1993-2014: cargos de liderança sênior na Diageo em quatro continentes
– 2001: Programa de Gestão Avançada, Harvard Business School
– 1985: MBA, Saint Joseph University, Líbano
swissinfo.ch: O diretor-executivo da Sandoz, Richard Saynor, mencionou que alguns produtos poderiam ser retirados do mercado americano se o governo Trump impusesse tarifas elevadas sobre medicamentos genéricos importados da Europa. Como as tarifas poderiam afetar sua linha de produtos e quais medicamentos poderiam ser retirados do mercado?
Gilbert Ghostine: Avaliamos nosso portfólio regularmente para garantir que estamos agregando valor e que um fornecimento confiável de medicamentos esteja disponível para os pacientes. Em alguns casos, certos produtos podem se tornar economicamente inviáveis devido a fatores como erosão de preços, aumento dos custos da cadeia de suprimentos e mudanças nos requisitos regulatórios. Nesses casos, podemos considerar a otimização ou redefinição de algumas de nossas prioridades de produtos.
Nos próximos anos, esperamos nos tornar líderes de mercado nos EUA em medicamentos biossimilares [que são versões mais baratas de medicamentos “biológicos” de marca criados a partir de células ou organismos vivos]. Planejamos vários lançamentos de novos produtos.
swissinfo.ch: Você acha que os pacientes americanos verão aumentos nos preços dos medicamentos genéricos, mesmo que esses preços não sejam definidos diretamente pela Sandoz?
G.G.: Somos contra tarifas sobre produtos farmacêuticos, especialmente sobre genéricos e biossimilares, porque elas podem levar a preços mais altos, redução no fornecimento e no acesso a medicamentos. Não acreditamos que tarifas sejam benéficas para o sistema de saúde dos EUA e ainda menos para os pacientes.

swissinfo.ch: Você acha que a guerra contra tarifas pode ter efeitos negativos em suas margens de lucro, não apenas nos EUA, mas também globalmente?
G.G.: Com as tarifas atuais, que se concentram principalmente na China e têm algum impacto no Canadá, nossas previsões para o ano podem absorver os novos impostos. Além disso, esperamos apenas um impacto indireto limitado de nossas organizações de fabricação terceirizadas.
Estamos acompanhando a situação de perto e confiantes em nossa capacidade de lidar com novas medidas tarifárias.
swissinfo.ch: Você sabe se os genéricos podem ser poupados de possíveis tarifas?
G.G.: Sou um eterno otimista e estou convencido de que o bom senso prevalecerá, porque não se pode brincar com a saúde das pessoas.
Nossas equipes nos EUA são regularmente convidadas à Casa Branca para explicar as características específicas dos medicamentos genéricos e biossimilares. Essas equipes deixam claro que estabelecer uma fábrica nos EUA, onde atualmente não fabricamos, levaria de três a cinco anos, aos quais seria necessário adicionar um a dois anos para obter as autorizações de produção necessárias. E a disponibilidade de genéricos é essencial para garantir o acesso dos pacientes a medicamentos acessíveis.
Também confiamos nas autoridades suíças, especialmente no governo federal, na SECO (Secretaria de Estado para Assuntos Econômicos) e na embaixada suíça em Washington, D.C. Seu compromisso em encontrar boas soluções é exemplar.
Por fim, é útil manter a gravidade desta situação em perspectiva, pois os Estados Unidos representam menos de 20% do nosso faturamento total.
swissinfo.ch: A Sandoz considera a disponibilidade de medicamentos uma de suas razões de ser. O que é necessário para manter a disponibilidade?
G.G.: Um fornecimento seguro de ingredientes é um fator-chave. Nesse sentido, a recente pandemia de Covid-19 foi um verdadeiro alerta para o mundo ocidental, que tomou consciência de sua dependência da China e da Índia, especialmente em relação a ingredientes farmacêuticos ativos.
Por esse motivo, agora produzimos em nossa própria fábrica na Áustria todos os ingredientes ativos necessários para nossos antibióticos e biossimilares destinados aos mercados europeu e americano. Somos, de fato, a única empresa europeia em nossa área a fazê-lo.
swissinfo.ch: Como vocês respondem às flutuações na demanda?
G.G.: Este é outro elemento-chave. Um inverno particularmente rigoroso, por exemplo, gera uma demanda excepcionalmente alta por antibióticos. Por razões técnicas, não é possível produzir muito mais da noite para o dia.
Além das flutuações na demanda, o próprio fornecimento de medicamentos também pode variar. Em 2025, a Sandoz poderá produzir o suprimento pretendido, mas alguns de nossos concorrentes poderiam produzir menos do que o esperado.
Por esses vários motivos, cerca de 100 dos 1.200 produtos que comercializamos na Suíça estavam fora de estoque no ano passado.
swissinfo.ch: O que pode ser feito para lidar com a escassez crônica de medicamentos?
G.G.: Estamos trabalhando em soluções com as autoridades em muitos países, incluindo a SwissmedicLink externo, a Agência Suíça de Produtos Terapêuticos. Atualmente, quando há escassez de medicamentos na Suíça, infelizmente não podemos usar medicamentos destinados a países da União Europeia devido às regras específicas que regem a rotulagem das embalagens e as bulas. Talvez uma solução seja substituir as bulas por códigos de barras?
Além disso, vários países, entre eles a Suíça, compram estoques de emergência de certos medicamentos essenciais ou nos pedem para manter reservas para eles.
swissinfo.ch: Qual é a disponibilidade de seus medicamentos em países em desenvolvimento, por exemplo, na África?
G.G.: Cada país é diferente e não acho que seja possível generalizar por continente. Tratamos todos os países da mesma maneira. Obviamente, a gestão do sistema de saúde, as regulamentações e o nível de desenvolvimento econômico variam de um país para outro. Além disso, em alguns países, comercializamos nossos produtos diretamente, enquanto em outros, recorremos a distribuidores externos ou autoridades estatais.

swissinfo.ch: A Suíça quer que a Sandoz contribua para a autossuficiência do sistema de saúde do país. Mas a sua empresa não fabrica na Suíça. No entanto, a empresa decidiu fabricar em alguns países vizinhos da UE a um custo mais elevado do que, por exemplo, na Índia. Isso permite que a Sandoz se beneficie de subsídios da UE. Vocês também recebem subsídios suíços para isso?
G.G.: As autoridades suíças estão muito satisfeitas com a nossa base de produção, 70% da qual está localizada na Europa: na Áustria, Alemanha, Eslovênia e, em menor grau, na Espanha. Em nossas unidades europeias, temos cotas e linhas de produção reservadas para a Suíça e também para outros países, incluindo os Estados Unidos.
Em Kundl, no Tirol austríaco, temos uma grande unidade fabril capaz de produzir todos os nossos antibióticos (incluindo suas substâncias ativas) para o mercado europeu. Nos últimos três anos, investimos € 250 milhões (CHF 234 milhões) para aumentar sua capacidade. Como resultado, recebemos € 50 milhões (CHF 47 milhões) da UE, graças a uma iniciativa austríaca apoiada pelas autoridades suíças. No entanto, não recebemos nenhum subsídio suíço.
swissinfo.ch: A Sandoz se concentra fortemente em biossimilares. Será que isso se deve ao seu alto valor agregado?
G.G.: Quando a Sandoz lançou seu primeiro biossimilar em 1996, ela criou uma nova categoria. Em 2024, alcançamos um crescimento de 30% neste setor, no qual atualmente somos líderes mundiais, com vendas anuais de quase US$ 3 bilhões (CHF 2,4 bilhões). É verdade que o desenvolvimento de biossimilares é uma prioridade para nós, graças ao alto valor agregado desses medicamentos.
O campo dos biossimilares também é extremamente complexo, com altas barreiras de entrada. O desenvolvimento de um biossimilar exige um investimento de US$ 200 a 500 milhões (CHF 161 a 403 milhões) ao longo de oito a 12 anos. Precisamos realizar inúmeros ensaios clínicos e obter autorizações de comercialização junto às autoridades competentes. Em comparação, desenvolver um medicamento genérico “apenas” custa de US$ 3 a 5 milhões (CHF 2,4 a 4 milhões) e “apenas” leva de dois a três anos.
swissinfo.ch: Dada a vasta experiência da Sandoz, especialmente em biossimilares, o próximo passo será o desenvolvimento de novos medicamentos de marca?
G.G.: Essa não é a nossa intenção, pois o potencial de crescimento em nossos campos atuais é enorme. A expiração das patentes de medicamentos de marca nos próximos dez anos criará um novo mercado no valor de US$ 500 bilhões durante esse período.
É claro que não esperamos que uma patente expire para começar a trabalhar e investimos quase US$ 1 bilhão por ano em nossos esforços de desenvolvimento e regulamentação. Quando começamos a trabalhar em medicamentos, muito antes de suas patentes expirarem, obviamente não sabemos quais concorrentes estão trabalhando nos mesmos medicamentos, então essa escolha é, por definição, arriscada.
swissinfo.ch: Vocês planejam desenvolver GLP-1s, os medicamentos atualmente muito populares para o tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade?
G.G.: Dado o sucesso desses medicamentos, eles oferecem uma enorme oportunidade para a Sandoz, e especialmente para pacientes que buscam preços acessíveis. A partir de 2026, após o vencimento das patentes, comercializaremos versões desses medicamentos em determinados países (Canadá, Brasil, México e Arábia Saudita).

swissinfo.ch: A Sandoz fabricará cada vez mais em países com baixos salários, como a Índia, onde vocês têm grandes concorrentes?
G.G.: Temos três grandes parques industriais na Europa, com longa experiência em fabricação e bem integrados à cadeia de suprimentos.
Estes locais são muito grandes, o que permite economias de escala, uma pegada ambiental reduzida, um elevado grau de automatização e a máxima qualidade. Estas instalações contribuem naturalmente para a autossuficiência europeia em assistência médica, pagamento de impostos locais, emprego de muitas pessoas e respeito aos direitos humanos, incluindo a segurança dos funcionários: tudo isso satisfaz às autoridades europeias.
Quando submetemos um medicamento para autorização de comercialização na Europa, todos esses fatores são levados em consideração, não apenas o preço. Como resultado, continuaremos a nos concentrar em nossas unidades de produção europeias. Portanto, não planejamos priorizar a mudança para países com os custos mais baixos. Dito isso, 30% da nossa produção atual ocorre fora da Europa, incluindo uma grande fábrica na Índia.
swissinfo.ch: Alguns dos medicamentos que vocês comercializam são fabricados por empresas externas. Essa é uma tendência crescente?
G.G.: Não, mas continuaremos a terceirizar de 40% a 50% da nossa produção, pois isso nos permite reagir com mais flexibilidade às flutuações da demanda.
Edição: Virginie Mangin/gw
Adaptação: DvSperling
Este artigo foi atualizado em 30 de junho para especificar que o desenvolvimento de um biossimilar requer um investimento de US$ 200 milhões a US$ 250 milhões ao longo de oito a 12 anos.
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