Falso ou verdadeiro: crianças são vetores do coronavírus?

Os cientistas ainda não conseguiram desvendar todos os mistérios do SARS‑CoV‑2, dentre eles: se as crianças são vetores da doença. Keystone / Martial Trezzini

O funcionário do alto escalão do governo que coordena o combate à pandemia considera que as crianças não são os principais vetores do Covid-19. Porém a reabertura próxima das escolas lança muitas questões. Não há riscos?

Este conteúdo foi publicado em 27. abril 2020 - 08:49

Um dia depois de o governo ter anunciado a reabertura das escolas primárias - 11 de maio - o chefe da divisão de doenças transmissíveis do Departamento Federal de Saúde Pública (BAG, em alemão), Daniel Koch, esclareceu sua posição sobre o papel desempenhado pelas crianças na transmissão do novo coronavírus.

"As crianças certamente não são os vetores da epidemia", declarou em 17 de abril Koch, uma figura-chave na estratégia do governo para enfrentar a crise. "Obviamente existem crianças que foram infectadas, mas isso ocorreu grande parte através dos pais. Mas elas não são os principais vetores e não são sofrem realmente o impacto (pelo vírus)".

Na semana, Koch repetiu a declaração logo após a chegada de muitas petições online, no qual os autores se manifestam contra a reabertura das escolas públicas. As petições foram assinadas por milhares pais e professores preocupados.

A falta de dados amplos sobre o papel das crianças na transmissão do Covid-19 pode ser um dos fatores da incerteza. Os especialistas também parecem divididos ao interpretar as pesquisas já feitas sobre a questão.

Menos infecções entre as crianças

Em muitos países é consideravelmente muito menor o número de crianças que tiveram resultados positivos no teste de Covid-19 do que de adultos. Na Suíça, pessoas com menos de 20 anos responderam por apenas 859 dos 28.100 casos positivos registrados até 22 de abril - cerca de 3%. Há índices de infecção igualmente baixos nos Estados Unidos (2%), China (2,2%), Itália (1,2%) e Espanha (0,8%).

É possível que muitos casos não tenham sido registrados, pois as crianças têm menor probabilidade de apresentar os sintomas. Por exemplo: um estudo com mais de duas mil crianças contaminadas pelo novo coronavírus na China mostrou que mais de 90% delas eram assintomáticas, ou seja, apresentaram apenas sintomas leves. Muitos países não fizeram testes sistemáticos para o vírus.

Muitos países também relataram menos casos de crianças sendo hospitalizadas. A morte do Covid-19 entre crianças é rara. Até o momento, nenhuma pessoa com menos de 20 anos morreu das complicações causadas pelo Covid-19 na Suíça. Os especialistas ainda estão tentando entender por que a doença parece ser menos grave em crianças.

As taxas de infecção podem ser baixas, mas isso não significa que as crianças sejam imunes ao vírus, consideram os especialistas.

Em um estudo recente, pesquisadores acompanharam 391 pessoas que contraíram o vírus na cidade de Shenzhen, no sudeste da China. Eles descobriram que apenas entre 7% e 8% das crianças com menos de 10 anos de idade - e que estavam entre os seus 1.300 contatos próximos - contraíram a doença, uma taxa de infecção semelhante aos adultos.

Faltam evidências

Uma vez que crianças são infectadas, a próxima questão é saber até que ponto elas transmitem a doença. Mas como relativamente são poucos os casos envolvendo crianças, faltam dados concisos, ou que dificulta a formação de um consenso entre os especialistas sobre a questão.

Após analisar cerca de 2.500 casos pediátricos de Covid-19, muitos dos quais leves ou assintomáticos, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA disseram que "pacientes com doenças menos graves, e aqueles sem sintomas, provavelmente desempenham um papel importante na transmissão da doença". Mas o CDC também apontou que sua amostra não estava completa.

O Centro Europeu de Controle de Doenças é mais cauteloso: seus especialistas afirmam que "ainda há alguma incerteza" sobre o papel que as crianças desempenham na transmissão.

Daniel Koch declarou que baseia sua posição em discussões com pediatras suíços especializados em infectologia. Um deles, Christoph Berger, declarou ao jornal suíço NZZ que "há algumas evidências que sugerem que crianças e adolescentes não são os principais causadores da pandemia de Sars-CoV-2."

O caso de um menino de nove anos que contraiu Covid-19 nos Alpes franceses, mas não transmitiu a doença, apesar de ter contato com mais de 170 pessoas, levou especialistas que investigaram seu caso a concluir que as crianças provavelmente não desempenham um papel importante na transmissão do vírus.

A criança, que também teve uma gripe comum sazonal, tinha uma carga viral baixa - ou poucas partículas virais - em seu corpo e apresentava apenas sintomas leves. Esse baixo nível de infecção pode explicar por que ele não infectou as pessoas com quem teve contato.

"É provável que isso aconteça com muitas crianças", declarou Kostas Danis, um dos pesquisadores envolvidos. "Elas têm menos sintomas ou sintomas mais leves. Por isso são menos propensas a transmitir a doença". Estudos com grupos familiares também sugerem que as crianças pegam o vírus dos adultos, que tendem a ser mais duramente atingidos, acrescentou Danis.

Fechamentos de escolas ajudou?

Apesar dos protestos na Suíça e outros países europeus contra a reabertura de escolas, o seu fechamento provavelmente não teve efeito na disseminação do vírus SARS-CoV-2. Segundo Cientistas britânicos, o fechamento das escolas teve, sim, um impacto maior no retardamento da propagação de vírus como a gripe, que tem uma taxa de transmissão maior em crianças do que em adultos.

E, segundo esses pesquisadores, o contrário parece ser verdade para o novo coronavírus: as crianças parecem menos propensas a transmitir a doença do que os adultos. Portanto, o fechamento de escolas pode, na verdade, ser menos eficaz na atual crise do que outras medidas como o distanciamento social.

"Acho que não vamos ver um aumento no número de casos por causa das escolas", considerou Danis, epidemiologista do ministério francês da Saúde. "O risco (de contrair o vírus) é baixo. Ele seria maior em ambientes com adultos mais sintomáticos."

Veredito: questão não pode ser respondida

O papel das crianças na transmissão do novo coronavírus continua sendo uma das muitas perguntas sem resposta nessa crise. As evidências surgem aos poucos, mas os dados existentes levam uma parte dos especialistas a sugerir que as crianças parecem menos propensas, do que os adultos, a transmitir a doença.

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