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Como "homens como padrão" prejudicam a medicina de precisão

A ciência médica ignoraria as diferenças entre homens e mulheres? Keystone / Ben Birchall

Enquanto os humanos são suficientemente inteligentes para desenvolver tecnologias avançadas como a inteligência artificial (IA), eles estão deixando de considerar que as diferenças sexuais são importantes no treinamento dessas tecnologias para uso na saúde.

Este conteúdo foi publicado em 06. agosto 2020 - 09:54
swissinfo.ch

A medicina de precisão leva em conta as diferenças de saúde e doenças entre indivíduos causadas por fatores genéticos e ambientais. Considerada como a próxima grande onda na área da saúde, se bem aplicada, a medicina de precisão deverá permitir que pacientes se beneficiem de prevenção, diagnóstico e tratamento feitos sob medida.

A quimioterapia, por exemplo, está se tornando muito mais direcionada, com medicamentos desenvolvidos para tipos específicos de câncer com certas características genéticas. Os médicos vão testar os pacientes para essa composição genética específica e só pacientes com perfil genético correspondente receberão o medicamento.

Além dos testes genéticos, a medicina de precisão também se baseia em registros eletrônicos de saúde, grandes análises de dados e na supercomputação.

Mas dados enviesados ameaçam impedir que a medicina de precisão atinja seu potencial. Um dos principais obstáculos é, entre outras questões, o ponto cego histórico em relação ao corpo das mulheres na pesquisa médica.

"O problema não se limita apenas à forma como um algoritmo é projetado, mas também aos preconceitos de sexo e gênero que residem nos dados utilizados", explicou Davide Cirillo, co-autor de uma recente resenha publicada pela organização Projeto do Cérebro da Mulher (n.r.: Women's Brain Project - WBP).

"Apelo à responsabilidade"

O WBP é uma organização sem fins lucrativos sediada na Suíça que tem como objetivo entender como as diferenças de sexo e gênero têm um impacto sobre o cérebro e as doenças mentais.

Davide Cirillo é um dos autores de um estudo publicado no Projeto do Cérebro da Mulher. Davide Cirillo

A organização soou um alarme para a comunidade científica alertando que se deve evitar importar todas as falhas da sociedade e da medicina contemporânea, como a sub-representação das mulheres em ensaios clínicos, para a próxima geração de cuidados médicos.

"Quando desenvolvemos soluções de IA para a saúde, devemos ter um comitê de ética avaliando o benefício e o risco, bem como a possibilidade de se gerar discriminação pela sua aplicação, da mesma forma como se faz com o desenvolvimento de medicamentos", disse Antonella Santuccione Chadha, diretora da WBP à swissinfo.ch.

Após dois anos de trabalho, Cirillo, Silvina Catuara-Solarz e outros nove pesquisadores lançaram "um apelo à responsabilidade" em uma resenha sistemática publicada no periódico NPJ Digital MedicinLink externo deste mês.

"A presença da inteligência artificial é tão difundida em nosso cotidiano que não podemos ignorar o impacto que a tecnologia está tendo em nossa sociedade, especialmente no que diz respeito à pesquisa médica e à tomada de decisões em saúde", disse Cirillo, do Centro de Supercomputação de Barcelona.

A resenha analisou grandes bancos de dados e processamento de linguagem natural e robótica, fatores os quais especialistas preveem serão intrusivos ou melhorarão ainda mais nossas vidas no futuro próximo, dependendo de sua perspectiva.

Faca de dois gumes

Os pesquisadores da WBP descrevem a inteligência artificial como uma faca de dois gumes. Se implementada corretamente, ela poderia resolver o problema dos cuidados médicos centrados nos homens, como por exemplo, em que os sintomas de infarto do coração das mulheres são negligenciados, ou medicamentos que são liberados no mercado que têm efeitos colaterais desproporcionalmente adversos para as mulheres.

Silvina Catuara-Solarz e mais nove pesquisadores pedem mudança de postura. Silvina Catuara-Solarz

Há aqui uma oportunidade de mitigar as desigualdades, integrando efetivamente as diferenças de sexo e gênero na assistência à saúde. grandes bancos de dados biomédicos e clínicos, por exemplo, têm o potencial de fornecer insights mais profundos sobre a saúde e doenças em uma escala sem precedentes.

No entanto, os sinais iniciais não são bons. Apesar dos significativos avanços científicos alcançados até agora, a maioria das tecnologias de IA biomédica atualmente utilizadas não leva em consideração a detecção de viés, diz a resenha.

"Se essas tecnologias forem desenvolvidas sem remover os preconceitos de sexo e gênero que existem no mundo, elas podem realmente ampliar e perpetuar algumas desigualdades e estereótipos", disse o neurocientista Catuara-Solarz, falando em um webinar do WBPLink externo onde os autores apresentaram suas descobertas.

Resultados insatisfatórios

Então o que isso significa na prática? "O fracasso na contabilização dessas diferenças gerará resultados insatisfatórios e produzirá erros, bem como resultados discriminatórios", disse a revisão.

Tomemos o Mal de Alzheimer, por exemplo. Mais mulheres sofrem de Alzheimer do que homens e os sintomas e a idade de início diferem entre os sexos. No entanto, historicamente, os ensaios clínicos têm sido realizados na maioria dos indivíduos do sexo masculino.

O uso de dados baseados predominantemente em indivíduos do sexo masculino para desenvolver um sistema de triagem baseado na IA para o Alzheimer significa que ele não será tão eficaz ou útil para as mulheres.

Imagine isso em uma escala muito mais ampla. Evidências de diferenças de sexo e gênero têm sido relatadas em uma série de doenças crônicas, de diabetes a doenças cardiovasculares e neurológicas, sem mencionar distúrbios de saúde mental, cânceres e autoimunidade.

Existem também fatores de estilo de vida associados ao sexo e gênero, como dieta, atividade física, tabagismo e consumo de álcool, que se correlacionam com a epidemiologia das doenças.

Humanos padrão

Em seu livro de 2019, Invisible Women, Caroline Criado Perez enfoca os problemas causados pela lacuna de dados das mulheres em muitos aspectos da sociedade. Ela descreve evidências esmagadoras de que as mulheres estão sendo desconsideradas pelo establishment médico.

"Os corpos, sintomas e doenças que afetam metade da população mundial estão sendo descartados, desacreditados e ignorados". E tudo isso é resultado da lacuna de dados, combinada com a crença ainda prevalecente, diante de todas as evidências que temos, de que os homens são os humanos padrão".

Os pesquisadores do WBP, liderados pela Santuccione Chadha, falam sobre os vieses desejáveis e indesejáveis nas implementações de IA que informam a medicina de precisão. Viés desejável significa usar as informações disponíveis sobre diferenças para fornecer tratamentos eficazes para cada sexo.

Vieses indesejáveis desconsideram essas diferenças e incluem alegações que são baseadas em evidências insuficientes ou distorcidas.

Tome-se o exemplo da depressão. Estudos epidemiológicos indicam que há uma maior prevalência de depressão entre as mulheres. Mas isto pode ser o resultado de escalas clínicas de depressão que medem sintomas que ocorrem com maior frequência entre as mulheres.

Um nível de nuance é necessário para interpretar adequadamente a diferença de sexo e gênero de forma a ter um impacto positivo no bem-estar do paciente e no acesso à saúde. É do interesse de todos que este trabalho seja realizado.

Para isso, o WBP está realizando um fórum internacional sobre o cérebro e a saúde mental das mulheres em Zurique, em setembro, para explorar ainda mais as diferenças sexuais e de gênero como um caminho para a medicina de precisão.

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