“Musa” de Paulo Coelho promove livro na Suíça
Mariana Brasil, inspiradora de um best-seller de Paulo Coelho, veio a Berna divulgar o "Entre as Fronteiras", livro-testemunho sobre cinco anos de experiência como prostituta.
Na obra, Mariana encara o passado, se desnuda e desmistifica a prostituição.
Mariana Brasil, nome de guerra de Sônia C.M. é uma dessas pessoas a quem, como dizem os franceses, se poderia dar a comunhão sem a confissão. De uma elegância discreta, boa plástica, grande capacidade de escuta, a paranaense de 38 anos, apresenta-se bem.
De fato, nada tem de mulher fatal ou de vampe. “Sou uma pessoa simples, muito diferente do que as pessoas me imaginam”, comenta Mariana.
Na sua vida, porém, já enfrentou uma barra, aos 24 anos, quando, de livre e espontânea vontade, vendeu seu corpo e, conduzida pela mão do destino, veio parar na Europa para “tentar a sorte, sem saber o que ia enfrentar”.
Como prostituta de luxo, como garota de programa nos cabarés e boates ou, como “puta de rua” – ou seja, no nível considerado mais degradante numa malconceituada profissão – conheceu na própria pele o cotidiano das pessoas que embarcaram nessa “viagem” de difícil retorno.
Mariana conseguiu regressar, cinco anos depois do “embarque”, buscando a redenção na escrita. O livro Entre as Fronteiras – tendo como subtítulo O “Manuscrito de Sônia”, a que Paulo Coelho faz alusão em nota final de Onze Minutos – foi lançado há quase um ano e meio no Brasil. E tradução italiana foi publicada com o título de Il Manoscritto di Sonia.
Perfil da prostituição
Na obra ela retrata, “sem falso glamour“, como gosta de realçar, o dia-a-dia da profissão: as emoções, as lutas interiores, as dificuldades, as misérias, os sofrimentos, a mesquinhez dos cáftens e caftinas, para não falar do pavor que as clandestinas têm da polícia. Ou seja, o mundo em que vive protagonista e pessoas de seu círculo de trabalho.
Afinal, a história que conta Mariana Brasil tem muito pouco a ver com a Maria, a protagonista de Onze Minutos, de Paulo Coelho. Aliás dizer que Mariana é a “musa” do Mago é puro exagero. São histórias diferentes, ambientadas em lugares diferentes, vividas por personagens diferentes.
Sônia C.M. tem uma explicação: Paulo Coelho trata o assunto do ponto de vista masculino. Enquanto seu livro dá o enfoque feminino “de quem viveu de dentro a realidade do mundo da prostituição, de quem viveu na pele essa experiência”.
A ligação entre ambos é o fato de se terem encontrado. Primeiro rapidamente em Mântua, na Itália, em 1999, onde Sônia conseguiu fazer chegar ao autor carioca seu manuscrito. Depois em 2000, na Suíça, onde ela pôde conversar com calma com Coelho e lhe mostrar um pouco a zona noturna quente de Zurique, onde mais trabalhou porque era onde dava mais dinheiro.
O empurrão de Coelho
Tempos antes, o autor de Alquimista já havia encarado a idéia de abordar a sexualidade “de maneira séria”. É plausível que o “manuscrito de Sônia” o tenha estimulado a levar o projeto à frente .
Em todo o caso, a visita ao principal palco de trabalho de Mariana, a Langstrasse, de Zurique, segundo Coelho, lhe ensinou que “para escrever sobre o lado sagrado (do sexo), era necessário entender porque ele tinha sido tão profanado”.
Reciprocamente, o fato de o texto de Sonia C.M. ter sido mencionado no penúltimo livro do famoso autor brasileiro foi uma enorme ajuda: “Um empurrão para que O Manuscrito de Sônia se tornasse o que se tornou”, admite a autora.
Ela acha mesmo que, “graças a fama do escritor e graças a Onze Minutos, teve oportunidade de “dar uma resposta ao trabalho dele” e de abordar um problema “de grande dimensão no mundo”.
Alguns altos e muitos baixos
O testemunho de Sônia é interessante, lê-se bem, e embora seja identificável com o gênero diário, evita a monotonia de um texto cronológico. A obra tem algo de cenário de filme, com freqüentes flashbacks.
Em 182 páginas, o leitor vai conhecer a garota de 24 anos que transpôs uma “fronteira” proibida de uma boate paulista – “que mudaria o rumo de sua vida” quando perdeu “o tesouro da inocência” – vai percorrer toda sua trajetória, desde os 3 primeiros meses que se prostituiu no Brasil aos sete anos que exerceu a profissão na Itália e principalmente Suíça. Anos de aventuras, poucas alegrias e muita ilusões e frustrações.
“O manuscrito de Sônia conta a trajetória de minha vida através de um misto de realidade e ficção”, diz a autora.
Desse ponto de vista, o valor testemunho do texto perde um pouco de impacto. Quem lê Entre as Fronteiras pode sempre se perguntar: O que é realidade? O que é ficção? A verdadeira história, então, nos escapa.
Um exemplo: o período de prostituição, afirma a autora em entrevista, foi de 1990-95. No livro o período alongou-se até fim de dezembro de 1997 “para que a narrativa fosse coerente”. E ela nos confunde um pouco mais quando afirma: “Ninguém sabe se contei tudo ou não”.
Exorcizar o passado
A esta altura começamos a duvidar até do que nos conta, e é uma pena. Mas para isso Sônia C.M. tem explicação aceitável: “Veja bem. Um dia vendi meu corpo. Hoje mostro meu rosto. Existe um espaço que reservo para mim mesma. Sei onde começa a realidade e onde termina a ficção. Eu preciso desse espaço para manter o mínimo… um espaço sagrado pra que possa existir… para meu equilíbrio”.
Argumenta ainda que “mexer no passado é muito complicado”. Lembra que foi difícil publicar, mas que o simples fato de escrever foi muito liberatório, ajudando-a externar emoções e sentimentos.
Diz ainda ter feito um trabalho em que mostrava o corpo, mas preservava os sentimentos (na medida do possível, é claro), e a própria verdade. “Hoje não uso máscaras. Diante de um jornalista, de uma platéia sinto-me mais nua do que quando trabalhava”.
“Nuvem negra”
Resta que, embora o leitor admita troca de nomes dos personagens e exclusão de fatos penosos, numa narrativa como esta ele provavelmente gostaria de saber se está diante de fatos reais ou inventados.
A finalidade anunciada da autora é, no entanto, muito nobre: “Compreendi o significado de minha experiência. Tomei a decisão de contar o meu passado, com o objetivo de ajudar outras pessoas. Se tivesse lido um livro como o meu, 14 anos atrás, eu teria sabido exatamente o que ia enfrentar. Não teria sido enganada com o glamour de vir para Europa tentar a sorte”.
Esse passado, Sônia C.M o vê como uma “nuvem negra” em relação à qual tem um vínculo de amor e ódio: “Hoje sou o que sou porque vi o glamour da Europa, as coisas lindas e maravilhosas… Mas vi também a boca do lixo da Europa. A miséria humana”.
Miséria que descreve como sendo “pior que a miséria econômica no Brasil”.
“A última estrada”
Sônia mantém hoje uma atitude discreta, um low profile, como se diria em inglês. Como prostituta se expôs a grande desonra pública. Mesmo se redimindo deve enfrentar o olhar freqüentemente depreciativo do próximo.
Ficou uma cicatriz? Ficou sim: “Dentro de cada ser humano existe um tesouro, a inocência. Quando algum toma a decisão de vender o próprio corpo, depara-se com outro aspecto do ser humano que paga pelo sexo. A gente passa a conhecer o lado mesquinho do ser humano”.
“Não saímos ilesos – prossegue – porque fica uma ferida, morre um pedacinho da inocência, daquela confiança que temos nas pessoas”.
Hoje, ensina, com autoridade que “prostituição é a última estrada a seguir”.
swissinfo, J.Gabriel Barbosa
Sônia C.M., 38 anos, é natural do norte do Paraná. Teve uma infância carente e um primeiro amor e a primeira desilusão aos 17 anos.
Casou-se por conveniência com um italiano e hoje vive perto de Tortona, no Piemonte, com um amigo, também italiano, e um filho de 18 anos.
Entre as Fronteiras vendeu 2 mil exemplares. Com a tradução italiana saiu-se melhor, com 3 mil exemplares.
Sônia prepara para novembro O Jardim das Cerejas em que os europeus são vistos pelos olhos de uma estrangeira.
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