Brasileiros na Suíça apresentam saúde mais debilitada

Uma pesquisadora brasileira Viviane Anastácio mapeou o DNA de suíços e brasileiros residentes na Suíça e descobriu que a saúde dos brasileiros é pior do que a dos suíços. A migração não é a única culpada pela diferença.

Este conteúdo foi publicado em 27. fevereiro 2020 - 12:30
Liliana Tinoco Baeckert
Viviane Anastácio: "O ponto positivo da pesquisa é que os brasileiros imigrantes reportaram fumar menos." swissinfo.ch

Mesmo com plano de saúde obrigatório, brasileiros residentes na Suíça estão mais doentes que os do Brasil e que os próprios suíços. Esse foi o resultado do estudo conduzido pela geneticista Viviane Anastácio, para a tese de Doutorado em Genética pela Universidade de Liverpool/St. Mary’s, na Inglaterra.

Mestre em Ciências Médicas e Nutrição pela Escola Politécnica Federal de Zurique (ETH, na sigla em alemão), a autora analisou e comparou 422 amostras anônimas de testes genéticos dos três grupos populacionais. A pesquisa levou em consideração fatores individuais de risco, prevalência de sobrepeso e obesidade, risco genético ligados a doenças crônicas, idade, gênero, hábitos de vida e níveis de estresse.

Ela se diz alarmada com o que descobriu: os brasileiros residentes na Suíça estão mais gordos, não fazem exercício físico, apresentam mais doenças crônicas como diabetes, pressão arterial alta e depressão.

O quadro das mazelas inclui níveis ainda não satisfatórios de tabagismo, quadro de estresse maior que os dos dois outros grupos e baixa frequência a consultas médicas. "É um absurdo o fato de que nossos conterrâneos se descuidem tanto da saúde quando vivem no exterior. Em termos de história genética, os suíços teriam uma probabilidade muito maior de adoecer. Mas não é o que acontece na prática", explica. 

A cientista, que também é nutróloga e geneticista, mora no país há dez anos e recebeu a swissinfo.ch em seu consultório, na clínica de Spa Medical Center, em Bad Zurzach. Entre algumas taças de chá, conversamos sobre o que leva ao descuido, sobre a importância da genética para mapear os riscos de patologias e da necessidade de haver conscientização médica para tratamento diferenciado de grupos populacionais específicos.  

A pesquisadora diz que pessoas de diferentes classes sociais participaram do estudo. Entretanto, diante do ainda alto preço dos testes genéticos – 499 Francos na Suíça e 2.500 reais no Brasil, deduz-se que brasileiros que ganham salário mínimo, por exemplo, não foram incluídos pelo simples fato de não poderem arcar com essa despesa. Os testes ainda não são cobertos pelos planos de saúde em geral, somente em casos de suspeita de doença celíaca ou para algumas patologias raras.

swissinfo.ch: O que a Senhora descobriu exatamente com sua pesquisa?

Viviane Anastácio: Esse trabalho demorou três anos para ser concluído. Durante esse período, mapeei e comparei esses três grupos específicos, de várias camadas sociais. O que saiu disso foi uma situação alarmante: a principal descoberta é que o brasileiro que mora na Suíça está mais doente, em vários sentidos.

Mas vou te dizer que isso é só a ponta do iceberg de uma série de consequências e razões. Então, dissecando o estudo, posso afirmar que os nossos conterrâneos tomam mais medicamento, apresentam maior incidência de doenças crônicas, por exemplo. Mais da metade dos entrevistados estavam obesos, se alimentavam mal, cerca de 90% eram totalmente sedentários ou praticamente. 

O interessante é que ao se analisar o DNA de um suíço, nota-se que essa população tenha mais variantes genéticas para doenças crônicas. Em tese, significa que eles apresentam mais tendência para algumas patologias. Na prática, não é assim que funciona. Como fazem mais exercício físico regularmente, comem porções menores e sobretudo utilizam mais vegetais em sua alimentação, ganham na estatística da saúde. Aliado a isso, tomam menos remédio e fazem uso de suplementação natural.

Essa pesquisa comprova o que outros estudos já diziam: os bons hábitos superam a predisposição. O que é uma boa notícia: dá para driblar muitas das eventuais tendências a doenças crônicas e do metabolismo. E como fazer? Mais uma vez vou bater na mesma tecla: exercício físico, controle do peso e o apoio de suplementação vitamínica, que em muitas vezes se faz necessário. A vitamina D no inverno e outono é um exemplo disso.

swissinfo.ch: A senhora explica em seu estudo que há um descompasso, trazido pela migração, entre o que o brasileiro come e o que deveria ingerir, de acordo com seu perfil genético. 

V.A.: Exatamente. Essa é uma das razões para resultados tão negativos. Vou citar o exemplo do queijo, que é um dos alimentos nacionais e típicos daqui. O pessoal adora uma fondue, mas preste atenção: cerca de 80% dos brasileiros analisados trazem, em algum grau, intolerância à lactose ou variantes genéticas que favoreçam a absorção elevada de gordura da dieta, causando maior acúmulo de energia em forma de gordura corporal. Isso quer dizer que engordamos mais ao comermos muitos produtos lácteos com maior porcentagem de gordura saturada animal. Quanto mais inflamação, maior a tendência à obesidade e doenças crônicas. Uma coisa leva a outra.

É importante ressaltar que eu não estou dizendo que todos precisem abdicar do seu queijo. Talvez não devessem comer tanto quanto os nativos. O nosso corpo não foi feito para ingerir essa quantidade toda. Os europeus têm mais tolerância à gordura saturada. 

O fato é que quando se consome lactose além da conta, há um desequilíbrio na microbiota intestinal e adicionalmente um aumento na produção de fatores inflamatórios. As consequências disso vão do desconforto abdominal, mas que muitas vezes nem se percebe, passando pela proliferação de vermes até inflamações mais sérias, o que pode levar a um amento de peso corporal, retenção de líquidos e produção de substâncias inflamatórias, até associadas com o desenvolvimento de alguns cânceres. 

Por isso, em muitos casos, recomenda-se um exame para analisar a situação da flora intestinal do paciente. Isso sem falar na importância do consumo de verduras, probióticos. Em algumas situações, é importante verificar a existência de vermes. 

Outro desequilíbrio relacionado à genética refere-se à exposição ao sol. Quanto mais escura a pele, maior a necessidade de tomar sol para absorver a vitamina D. E quem, de fato, já recebeu a recomendação de repor? O trabalho mostrou que 95% dos brasileiros residentes na Suíça carregam mais variantes genética que levam ao um déficit da vitamina. 

Vou te dar outro exemplo: o iodo e o selênio, importantes micronutrientes para a função de defesa do corpo contra patogênicos e carcinogênicos, também surgiram como deficitários na pesquisa. E nós precisamos para ter um bom funcionamento tireoide, tão importante para várias funções do nosso organismo. 

Entretanto, o iodo é encontrado em menor quantidade no solo suíço, em comparação ao brasileiro. E nosso corpo precisa mais das substâncias que o de um local. Então, é importante verificar. Quando for comprar sal, é bom adquirir o marinho e não refinado, em vez do produto mais vendido por aqui, que vem do Jura. 

Eu acredito que os médicos suíços não estejam levando em consideração as necessidades específicas de determinados grupos étnicos. O estudo da influência da genética na saúde vem exatamente romper esse paradigma e possibilitar um tratamento mais individualizado. 

swissinfo.ch: E há também alguma razão comportamental para colocar os brasileiros residentes na Suíça em posição tão desfavorável?

V.A.: Durante as entrevistas, pude verificar que muitos brasileiros não procuram o médico na Suíça devido à barreira da língua. Gente, não pode isso. Tem que estudar o idioma, ou pedir um amigo ou companheiro/a para ir junto. Ou faça os exames e peça para um médico no Brasil interpretar. O que não se deve, em hipótese alguma, é se abandonar.

Existe um outro componente cultural no médico aqui na Suíça que pode desencorajar a procura pelo nosso público: eles são mais sérios, diretos e ainda consultam os livros na frente do paciente. Tem gente que acha que o médico não sabe, o que não é verdade. 

Isso sem falar na compensação da comida por saudade, na preguiça de caminhar por causa do frio. E por aí vai uma lista de razões. 

Muitos conterrâneos não sabem nem utilizar corretamente o seu plano de saúde. Desconhecem os seus direitos. Alguns não pagam o seguro adicional, perdendo o acesso a tratamentos mais alternativos e até mesmo a devolução de parte do dinheiro investido em uma academia, por exemplo.

Outra questão que surgiu nas entrevistas foi o alto valor das franquias dos planos de saúde, o que dificulta o uso dos serviços médicos por muitos. Ainda existe a mentalidade de que a Suíça é um país onde se ganha o dinheiro para ser enviado para a família que ficou. Então, a pessoa vive aqui com a cabeça lá, trabalha muito e não preserva uma qualidade mínima de vida. 

Enfim, economizam com a saúde para gastar milhares de francos com viagens ao Brasil. Só que essas pessoas ignoram o fato de que não poderão usufruir desse dinheiro no futuro se abandonarem os hábitos saudáveis agora. Isso é muito sério. 

No Brasil, 40% da população está obesa e a maior prevalência está entre os de camada mais pobre. Mas aqui a situação é outra, essas pessoas têm acesso a plano e maior poder aquisitivo para pedir um plano com seguro adicional para prevenção. É preciso quebrar esse círculo.

swissinfo.ch: Há mais alguma diferença interessante entre os suíços e os brasileiros, em termos de DNA?

V.A.: Trazemos em nosso DNA dois genes desfavoráveis a fazer dieta: o receptor de leptina e o FTO. Eu não sei se você já teve a oportunidade de observar que o suíço praticamente come em pires, de tão pouco que consomem num almoço, por exemplo. Pois não é que isso é comprovado no estudo do DNA! O grupo dos brasileiros em geral carrega mais variante genética relacionada ao controle da saciedade. Isso significa que tendemos a comer mais devido a esse gene ligado ao apetite.

swissinfo.ch: E dá para mudar esse quadro? 

V.A.: Mas é claro. Já vimos que nosso DNA tem pontos muito fortes. O primeiro passo, então, seria ir a um médico e pedir um exame completo de sangue, para poder detectar possíveis desequilíbrios. Eu aconselho também a se fazer um mapeamento genético para que o profissional possa focar em tratamento mais individualizado, embora esta modalidade ainda caminhe em passos lentos na Suíça. Em outros países já é uma realidade. Aqui o plano de saúde não cobre estes exames, que demoram anos para serem avaliados pele Ministério da Saúde.

Se a pessoa se cuidar e persistir, terá bons resultados. O ponto positivo da pesquisa é que os brasileiros imigrantes reportaram fumar menos. Mas voltando à prevenção, tem que incluir no dia a dia exercício físico e caminhada. Perder peso, se for o caso. Não é pressão da mídia, não é conversa de beleza. É necessário para sua saúde. Gordura causa inflamação e uma série de doenças crônicas e o risco de desenvolver câncer aumenta consideravelmente. 

A célula da gordura é um órgão que não pode crescer muito. Eu trabalhei em um dos maiores ou talvez o maior centro de investigação de gordura do mundo, o da ETH. O que eu posso afirmar é que as células adiposas mandam sinais para o corpo, produzem hormônios inflamatórios, e que podem quebrar o DNA da célula. 

A inflamação produzida e o aumento da produção de estrógenos são muito prejudiciais e é esta que está associada a diversos tipos de câncer como o de mamas, ovários e próstata, além de outros.

Então, é importante não deixar para ir ao médico somente no Brasil. Os benefícios virão rapidamente.  

Os hábitos de saúde nas estatísticas

 

Brasileiros na Suíça

Brasileiros no Brasil

Suíços

obesidade

60.8%

56.1

57.6%

tabagismo

6.9%

8.5%

12.2%

sedentarismo

60%

58%

9.2%

portadores de doença crônica

34.3%

24.4%

10.9%

intolerância à lactose

80%

50%

uso de Medicamentos

16.7%

13.4%

6.7%

nível elevado de stress

20.6%

19.5%

16.4%

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