Final feliz para a crise dos cinemas suíços?

Uma cena de "Platzspitzbaby" (O Bebê da Praça Spitz), o filme suíço de maior bilheteria em 2020 até quando os cinemas fecharam em março. Ascot Elite Entertainment

Aos poucos a Suíça volta à normalidade. O governo permitiu a reabertura dos cinemas a partir de 6 de junho. Porém os cinéfilos voltarão as salas? Uma proprietária fala dos seus temores.

Este conteúdo foi publicado em 04. junho 2020 - 12:45

"Naquele momento todos ficamos todos aliviados. Os dias antes do fechamento foram difíceis por causa da incerteza", conta Edna Epelbaum, presidente da Associação Suíça dos Proprietários de Cinemas, referindo-se à decisão do governo de declarar uma "situação extraordinária" e basicamente fechar o país para conter o Covid-19. 

"Cada cantão (estado) decidia por si próprio, o que dificultou muito as coisas para o nosso ramo de negócios já que dependemos de lançamentos nacionais e internacionais. Então, na noite de domingo (15 de março), metade do país se fechava enquanto a outra metade ainda não sabia. Chegamos ao ponto de ficarmos aliviados quando as medidas foram aplicadas em toda a Suíça". 

Mas em seis de junho as portas reabrem. A pipoca voltará a ser servida e os filmes poderão mais ser projetados nas 600 telas de cinema do país. Nos quase três meses em que as cortinas nas salas de espetáculos e cinemas permaneceram fechadas, seus proprietários, como os da maioria das empresas do país, tentaram sobreviver como possível.

A sala de projeção "Cine Rex" ainda está fechada em Berna. No cartaz: "Voltamos em breve". Helen James/swissinfo.ch

Epelbaum, que também possui vários cinemas em Berna, Bienne e outros vilarejos da Suíça francófona, declarou à swissinfo.ch por telefone que, após alguns dias sem que ninguém soubesse como lidar com questões de pessoal, "ficou claro que todo o nosso pessoal poderia entrar no sistema de trabalho em tempo reduzido". Esse mecanismo permite que os funcionários trabalhem em um percentual menor enquanto o empregador paga um salário menor, que é complementado pelo seguro-desemprego. 

Epelbaum também conseguiu um empréstimo sem juros "de forma rápida e tranquila". Mas ressalta que embora este tenha sido apreciado, não se trata de subsídio. "O dinheiro ajuda a cobrir o restante dos salários e pagar algumas contas". Mas é um empréstimo que terá de ser pago em algum momento, o que é bastante preocupante: os cinemas não receberam nenhum outro dinheiro além do empréstimo e do apoio do seguro-desemprego". 

Kai Reusser / swissinfo.ch

Como será 2020 para o setor? "Tentaremos esquecer esse ano o mais rápido possível e permanecer positivos em relação ao futuro. Vai ser um ano ruim, muito ruim". 

A empresária ressalta que a primavera já está perdida. Dentre outros, o lançamento do último filme de James Bond foi adiado para novembro. Oito filmes da série estão na lista dos 25 mais bem-sucedidos de bilheteria das salas do país. "Não é a primeira crise que o cinema superou e não será a última", lamenta Epelbaum.

Ivo Kummer, diretor de setor de cinema no Ministério suíço da Cultura, considera que os cinemas terão de contar com sucessos de bilheteria para sobreviverem até o final do ano. 

Transmissão online

No entanto, apesar das salas fechadas, festivais cancelados e produções adiadas, as pessoas continuam assistindo filmes. Não é uma surpresa que os grandes vencedores são as provedoras de streamings via internet. 

O consumo de filmes atinge níveis recordes graças à bilhões de pessoas em todo o mundo que estão de quarentena em casa e desejosas por alguma forma de entretenimento. A líder desse ramo, Netflix, teve o maior crescimento da história da empresa. Portais suíços de streaming como Cinefile, Filmingo e Artfilm.ch também têm sucesso. 

"No final de abril já tínhamos cinco vezes mais visualizações do que em 2019", conta Andreas Furler, fundador e diretor do portal Cinefile. "Estamos convencidos de que o streaming continuará a ser importante no futuro". 

O filme "Mare", do diretor suíço Andrea Stáka, por exemplo, foi lançado nos cinemas quando começou o "lockdown" no país e bastante visualizado no canal do Cinefile, segundo Furler. Outros filmes suíços foram disponibilizados nos diversos portais de streaming no país.

Epelbaum diz que vários de seus cinemas se uniram à Cinefile "para dar ao público uma chance de ver os filmes que deixaram de ser exibidos nos cinemas." 

Porém a renda gerada pela transmissão de vídeo a pedido não paga das despesas de um cinema. "É uma oferta voltada para o público, para não nos esqueçam completamente", disse Tobias Faust, gerente do cinema Kult.kino, da Basiléia, em uma entrevista de rádio. "Esse sistema não cobrirá os prejuízos provocados pela pandemia." 

Faust também se preocupa com o cinema alternativo. "Muitas produções pequenas e caras já deveriam ter sido exibidas nos cinemas e esgotaram o orçamento de marketing". Quando os cinemas voltarem, eles não terão outra chance e podem desaparecer sem deixar rastro". 

Epelbaum diz que vai manter a plataforma Cinefile mesmo após a quarentena "Ela pode prolongar a vida dos filmes", mas ressalta que seu "coração bate pela experiência oferecida pela sala escura e a grande tela". 

Fidelidade do cinéfilo

Epelbaum não está sozinha. Uma pesquisa com cinéfilos alemães, publicada em 20 de abril, constatou que muitos sentem falta do cinema: 69% dos pesquisados afirmaram que "muito provavelmente" irão ao cinema quando as restrições forem levantadas antes de ir a um restaurante (66%), usar o transporte público (57%) e fazer compras (55%).   

"Acho que a quarentena realmente provou que as pessoas querem ter uma experiência comunitária. Elas querem compartilhar coisas, histórias, risos e drama, o que não acontece quando assistem um filme em casa", reflete Epelbaum. 

A grande questão é saber: quando os cinéfilos suíços poderão se divertir juntos novamente? Em teoria, as portas devem reabrir em 6 de junho, mas não será uma decisão fácil para os proprietários das salas de projeção. Eles não querem abrir muito cedo e terem que fechar novamente como aconteceu na China. Todos precisam agora voltar a ganhar dinheiro. 

"A primeira prioridade é oferecer novamente a cultura cinematográfica ao público, mas isso deve ocorrer com segurança", diz Epelbaum. "Neste momento estamos em contato com as autoridades para obter a aprovação dos nossos planos de segurança. Quando a confirmação chegar, eu devo reabrir meus cinemas entre 10 e 11 de junho. "

Epelbaum diz acreditar pessoalmente que como "tudo voltou a abrir", não há mais razão para o fechamento dos cinemas. "Mas vai ser um desafio e tanto, pois dependemos muito da França, Alemanha e Itália", diz. Os distribuidores nas três principais regiões linguísticas da Suíça importam versões dubladas dos últimos sucessos de seus respectivos vizinhos e também não têm o direito de exibir filmes antes deles. 

"Por isso o número de filmes será provavelmente um pouco menor do que o normal no início de junho. No entanto, vamos ter filmes. Vai ser uma mistura de filmes novos e filmes que não foram ainda exibidos por causa da quarentena, os relançamentos."

Paixão 

O panorama do cinema suíço em geral mostra contrastes. No ano passado, oito salas de cinema fecharam, mas o número de ingressos e os lucros das bilheterias aumentaram. 

"É um pouco como Forrest Gump: você tem uma caixa de chocolates e nunca sabe o que vai encontrar", diz Epelbaum. "No início do ano nunca sabemos realmente o que vamos receber. Se o conteúdo for interessante, as pessoas virão ao cinema. 2019 foi um ano de cinema muito bom, um ano de cinema muito diversificado. Tivemos muitas produções diferentes que foram interessantes o suficiente para atrair pessoas ao cinema". 

Os filmes de maior bilheteria em 2019 foram "The Lion King", "Avengers", "Endgame" e "Frozen 2", "Joker" e "Green Book". 

"Agora, infelizmente, estamos em 2020. Os números das bilheterias definitivamente vão cair", lamenta Epelbaum. "Somos uma indústria com tanta paixão e crença no que estamos fazendo que eu nunca tenho medo de perder o gosto pela experiência cinematográfica". 

Cinema suíço em 2019

A Suíça teve uma perda líquida de sete salas de cinema no ano passado, caindo para 272 salas disponíveis, mas os visitantes e a renda nas bilheterias aumentaram. Além disso, a abertura do 16º multiplex do país significou que o número de telas permaneceu o mesmo. 

O total de visitantes aumentou em 6,4%, para 12,8 milhões. Dois terços dos ingressos foram para filmes americanos. Os 875 mil ingressos vendidos para filmes suíços refletiram uma participação de mercado de 6,8%. 

A receita total aumentou de CHF 178,7 milhões (US$184 milhões) para CHF 193,3 milhões. 

O preço médio de um ingresso aumentou em 30 centavos de francos para CHF 15,50. 

O residente médio na suíça foi ao cinema 1,5 vezes ao ano; um pouco mais do que as 1,4 vezes no ano anterior, embora houvesse diferenças regionais. Na Suíça francófona eles foram 1,9 vezes em comparação com 0,9 vezes da Suíça de língua italiana. 

(Fonte: ProCinema)

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