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Política e personalidade Diga-me quem és, e eu te direi como votas

Pessoas com mentalidade aberta tendem a votar na esquerda, enquanto pessoas conscienciosas são fãs da lei e da ordem. Essas são as conclusões do cientista político Markus Freitag no seu novo livro, baseado em pouco mais de 15 mil entrevistas.

Eleitor colocando seu voto em uma urna durante as votações de 24 de setembro de 2017.

Eleitor colocando seu voto em uma urna durante as votações de 24 de setembro de 2017.

(Keystone/Gian Ehrenzeller)

Teria sido o referendo sobre a reforma das aposentadorias realizado em 24 de setembro um compromisso equilibrado? Ou foi esse o produto inconsequente de um sistema falido às custas dos jovens? E se a resposta à essas questões não forem baseadas em ponderações racionais acerca de nossos interesses, mas sim em nossa personalidade?

Esse artigo foi publicado nas páginas de #DearDemocracyLink externo, a plataforma de democracia direta da swissinfo.ch

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Para Markus Freitag, professor der ciência política na Universidade de Berna, o caráter desempenha um papel importante em decisões políticas. Sobre a reforma das aposentadorias, por exemplo, alguém que valorize igualdade e justiça social vai dar uma resposta diferente de alguém que valorize a manutenção das regras e o financiamento sustentável.

Freitag publicou recentemente um livro delineando esses temas, cujo título é “Die Psyche des PolitischenLink externo” (A Psique da Política). Baseado em quase 15 mil entrevistas, o livro explora os efeitos de vários traços de personalidade sobre opiniões e decisões políticas, além de contribuir para os estudos internacionais que aplicam o chamado “modelo de cinco fatores de traços de personalidade” (veja box). 

O contraste urbano-rural

O estudo de Freitag é baseado em quatro grandes pesquisas feitas na Suíça em anos recentes. De acordo com os resultados, aproximadamente metade dos Suíços se caracterizam a si próprios como conscienciosos. O segundo maior traço nessa auto avaliação é a afabilidade, seguido pela honestidade e pela extroversão. Apenas um pequeno número dentre os que responderam à pesquisa se consideram particularmente neuróticos.

Há, no entanto, diferenças regionais: habitantes de zonas rurais tendem a ser mais conscienciosos, enquanto os habitantes de cidades tendem a ser mais abertos. Pessoas da Suíça francófona e do Ticino (italófona) valorizam em média mais a abertura do que os suíços de língua alemã, que se julgam mais conscienciosos e prontos para chegar acordos, quando comparados a seus compatriotas de língua francesa e italiana.

Markus Freitag, professor de ciências políticas na Universidade de Berna.

(zvg)

Seria essa a confirmação do cliché do suíço-alemão reservado e reticente? Não inteiramente. Contradizendo a crença popular, o levantamento mostrou que os suíços francófonos e, sobretudo, os habitantes do Ticino, seriam menos extrovertidos do que habitantes de outras partes do país.

Extrapolando sobre esses resultados, Freitag também apurou que os interesses dependem da personalidade: pessoas abertas e extrovertidas são mais interessadas em assuntos políticos em geral, enquanto pessoas de caráter contemporizador são comparativamente menos interessadas em política. A explicação dada por Freitag é que a política implica conflitos e debates, o que tende a repelir esse tipo de personalidade.

Aberto à esquerda, pé-no-chão à direita

Como regra geral, pode-se dizer que pessoas abertas e afáveis tendem à esquerda política, enquanto pessoas conscienciosas preferem posições conservadoras. Para estes, a manutenção da lei e da ordem, e a estabilidade dos preços são importantes, enquanto para aqueles, a tônica recai sobre as garantias da liberdade de expressão.

Pessoas abertas são mais favoráveis à imigração. Para tipos afáveis, um estado de seguridade social forte é importante. Pessoas conscienciosas preferem limites claros em ambas essas áreas.

Essas tendências independem de outros fatores como idade, sexo, educação ou local de residência. Freitag sublinha que o eleitor não está inteiramente à mercê de sua personalidade; a sentença “diga-me quem és, e eu te direi como votas” é um exagero. Não se trata de ignorar outras influências no comportamento eleitoral.

“Eu estou, senão, tentando mostrar que não se deve deixar a personalidade fora da equação quando se tenta explicar a ação e o pensamento políticos”, diz Freitag. Com efeito, na maioria dos estudos, pesquisadores concluíram que a personalidade é tão importante quanto a educação, o sexo ou outros fatores sócio demográficos.

Quais seriam as implicações para a política?

Como deveriam os políticos reagir à influência demonstrável do caráter? Talvez eles já tenham reagido. Em dezembro do ano passado, um artigo publicado pelo jornal Tages-Anzeiger afirmou que Donald Trump devia sua vitória nas eleições presidenciais nos EUA em grande parte à novos métodos de propaganda digital personalizada, o chamado “micro-targeting”. Mensagens direcionadas de campanha foram enviadas pela firma Cambridge Analytica no Facebook como parte de uma estratégia digital em favor de Trump, e visando as personalidades de usuários individuais.

O verdadeiro impacto dessas mensagens é controverso. O que está claro é que candidatos e partidos estão moldando suas mensagens ao público alvo com a maior acurácia possível. Isso já se dava muito antes da última campanha presidencial, mas a mídia digital abriu de fato novas possibilidades de fazê-lo com mais precisão.

Markus Freitag duvida que os métodos da Cambridge Analytica tenham tido uma influência decisiva na vitória de Trump. “O conhecimento da personalidade permite moldar as mensagens políticas de forma precisa, mas saber se essas mensagens políticas podem mobilizar o público alvo é outra questão.” Ademais, o caráter é extremamente complexo e os resultados das eleições dependem de eventos externos, diz Freitag.

Ele vê, no entanto, riscos na análise e no uso de perfis de personalidade por políticos. “O que nos causa desconforto é o elo entre aquilo que na realidade é privado, a personalidade, com o público, ou seja, o processo político.” A questão de como lidar com, e regular essa relação vai ser um tema importante no futuro próximo.”

O modelo de cinco fatores

Esse modelo de personalidades elaborado e aceito por psicólogos distingue os seguintes tipos de pessoas:

Tipo aberto: aberto ao desconhecido e a novas experiências. Muito criativo e questionador de ideias e hábitos existentes.

Tipo consciencioso: cuidadoso e acurado, gosta de um dia-a-dia ordenado e prefere uma vida familiar estável.

Tipo extrovertido: sente-se à vontade com outras pessoas e gosta de se comunicar.

Tipo contemporizador ou afável: prefere a harmonia e evita conflitos

Tipo neurótico: ansioso, deficitário em autoconfiança e facilmente provocado. O oposto de pessoas emocionalmente estáveis que tendem a ser calmas e equilibradas.

Essas cinco características estão presentes em distintos graus de intensidade em cada pessoa, sendo que uma combinação das mesmas é possível. Por exemplo, uma pessoa pode ser a um só tempo aberta e conscienciosa, ou extrovertida e neurótica.

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Adaptação: Danilo von Sperling, swissinfo.ch

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