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Pesquisadora suíça alerta para retrocessos nos direitos LGBTIQ+

Uma faixa na Parada do Orgulho em Berna.
A comunidade está preocupada, também devido às campanhas internacionais contra pessoas trans. Keystone / Peter Schneider

Tabea Hässler, pesquisadora da Universidade de Zurique, alerta para o aumento da violência e da autolesão entre jovens trans e critica a pressão de movimentos conservadores internacionais sobre os direitos e pesquisas envolvendo pessoas LGBTIQ+.

Swissinfo: O estudo analisa anualmente as condições de vida e as expectativas futuras das pessoas LGBTIQ+ na Suíça. Quais são as mudanças mais contudentes em comparação com os anos anteriores?

Tabea Hässler: Observamos que a violência física aumentou, mesmo que em um nível baixo, e que um grande grupo de pessoas tem uma sensação de insegurança nos espaços públicos. Pela primeira vez, muita gente expressou a preocupação de que haja uma reação adversa, de que as conquistas legais e a aceitação na sociedade possam se romper novamente.

Pela sexta vez, o Painel LBGTIQ+ suíço proporciona uma visão sobre a vida das pessoas queer. As pesquisadoras Tabea Hässler e Léïla Eisner, do Instituto de Psicologia da Universidade de Zurique, pretendem, através de dados longitudinais, tornar visíveis as evoluções na Suíça. Para a atual edição do Painel, 6.177 pessoas preencheram um questionário online, das quais 5.422 eram pessoas LGBTIQ+.

No ano corrente, Hässler e Eisner planejam um estudo comparativo internacional com a participação de mais de 70 países. Em meados do ano, pesquisadores de todo o mundo vão se reunir em Zurique, a fim de desenvolver um questionário adaptável a todas as condições globais. Entre esses pesquisadores, estão representantes de países como Gana, Uganda, Rússia, Hungria e Estados Unidos, onde a comunidade queer se encontra sob forte pressão.

Swissinfo: O resultado que chama a atenção é que, entre jovens na Suíça, uma em cada duas pessoas trans, não binárias e intersexuais inflige ferimentos ao próprio corpo. Como isso acontece?

T.H.: Pesquisas mostram que a falta de visibilidade dos modelos a seguir, a discriminação vivenciada diretamente bem como aquela vivenciada por outras pessoas, levam à autoestigmatização. Muitas pessoas trans e não binárias debatem-se internamente com sua identidade de gênero, sentindo que precisam se esconder para evitar a exclusão. Isso surte um efeito negativo sobre a saúde.

O comportamento autolesivo é, então, uma forma equivocada de lidar com o estresse. Por isso, jovens queer precisam de pessoas com quem possam conversar, precisam de modelos a seguir e de informação sobre diversidade, sobretudo nas escolas.

Quando jovens queer sentem apoio da escola, da família e dos amigos, isso surte um efeito positivo sobre sua saúde.

Tabea Hässler, da Universidade de Zurique, é cofundadora do Painel LGBTIQ.
Tabea Hässler, Universidade de Zurique. zVg

Swissinfo: A Suíça empenha-se pouco no campo da proteção à juventude?

T.H.: Existem grandes diferenças. O Currículo 21, vinculativo para muitos cantões, aborda o tema, mas deixa a cargo do corpo docente a decisão de recorrer à ajuda externa. O problema é que, muitas vezes, quem procura esclarecimento é quem já tem sensibilidade para o assunto, e não quem realmente precisa.

Swissinfo: Muitos jovens demoram muito tempo para se assumirem. Como você explica isso?

T.H.: Em média, a partir do momento em que uma pessoa jovem percebe que é queer, transcorrem quatro anos até que ela se assuma publicamente. Isso é algo que observamos também no contexto europeu.

Na maioria das vezes, por trás disso há medo – como, por exemplo, da reação dos pais. Embora muitos pais tenham uma atitude positiva, especialmente em relação às minorias sexuais, eles não se manifestam, porque não imaginam que a filha ou o filho possa ser queer.

Também percebemos que, para muitas pessoas queer, a revelação da orientação sexual ocorre de forma muito melhor do que o esperado. É claro que, infelizmente, ainda existem casos de crianças expulsas de casa, principalmente no caso de jovens queer.

Leia abaixo os principais resultados do estudo do Painel LGBTIQ+

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Swissinfo: Gays e lésbicas sofrem menos discriminação do que, por exemplo, pessoas trans. No entanto, recentemente, a copresidente do Partido Popular Evangélico renunciou ao cargo, devido a ameaças, após se assumir. Se a discriminação é obra de uma minoria barulhenta, o que pode ser feito a respeito?

T.H.: Há um estudo interessante, conduzido pela minha colega Léïla Eisner, a respeito disso. A pesquisa examinou o que as pessoas pensam quando, por exemplo, dois homens têm um relacionamento. De acordo com o resultado, as pessoas são muito tolerantes, mas acham que os outros são muito menos tolerantes. Essa suposição faz com que as pessoas não se manifestem contra comportamentos discriminatórios e, por exemplo, não intervenham quando alguém faz um comentário depreciativo.

Swissinfo: Você critica o fato de que o debate sobre pessoas queer e trans é frequentemente conduzido de forma simplista. Qual seria um exemplo típico disso?

T.H.: Os bloqueadores da puberdade. Eles podem ser administrados por um ano, adiando assim a decisão. No entanto, não podem ser administrados por mais tempo, pois afetam negativamente a densidade óssea. Então, é preciso tomar uma decisão.

Retrato de Léïla Eisner
Léïla Eisner, Universidade de Zurique. zVg

A abordagem tradicional é esperar e deixar a puberdade acontecer, mas isso faz com que crianças, que se sentem no corpo errado, desenvolvam depressão. E, em alguns casos, apresentem comportamentos autolesivos, chegando até ao suicídio. Não fazer nada é, portanto, uma decisão que pode ter consequências potencialmente fatais.

O problema é que se trata de uma idade muito tenra e muita coisa ainda pode acontecer. É importante ressaltar: nossa pesquisa mostra que a identidade de gênero das crianças trans é tão estável quanto a das crianças cisgênero.

Swissinfo: Recentemente, a disforia de gênero tem aumentado significativamente nas sociedades ocidentais. É preciso contar que isso seja também um exagero? E que, sendo assim, as reidentificações venham também a aumentar?

T.H.: Crianças trans e não binárias sempre existiram em todas as culturas e épocas. Hoje, os números estão aumentando principalmente porque mais pessoas estão se assumindo. Sendo assim, a estabilidade da identidade de gênero também é um tema sobre o qual precisamos de mais dados. Precisamos saber como essas pessoas jovens se sentem ao longo do tempo.

O problema é que não se pode simplesmente designar jovens aleatoriamente a um grupo de controle e, assim, realizar um estudo randomizado. Essas são limitações, com as quais temos que lidar na pesquisa.

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Grupos protestando pelos direitos LGBT

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É importante saber que a identidade sexual e a identidade de gênero são um espectro. Participei de um projeto nos Estados Unidos com crianças de 3 a 12 anos, que passaram por uma “transição social”, ou seja, mudaram de nome.

Entre essas crianças, muito poucas mudaram novamente sua identidade de gênero – na maioria das vezes, de binária trans para não binária. Nas entrevistas que realizamos com as crianças, elas não se arrependeram de sua trajetória. E ficou evidente o quanto é importante tirar a pressão sobre elas, apoiá-las e não forçá-las a nada.

Swissinfo: A ideia de pensar o gênero de forma não binária é uma oportunidade de diminuir a pressão para modificar as características físicas?

T.H.: Nem todas as pessoas trans tomam hormônios ou fazem cirurgias. Essa é uma escolha muito individual. O problema é que uma sociedade, na qual as pessoas possam viver e se sentir bem como são, é uma utopia.

Vivemos em um mundo marcadamente cis-heteronormativo, onde cada pessoa é categorizada em um esquema binário. E quando você recebe diariamente um rótulo errado, isso surte obviamente um efeito. No fim das contas, as pessoas trans só querem ser aceitas como são.

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Política suíça

Homofobia, um crime ou uma opinião?

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Swissinfo: Nos Estados Unidos, forças conservadoras, muitas vezes cristãs fundamentalistas, exercem uma pressão especialmente forte sobre a comunidade queer. No entanto, o movimento reacionário tem atividades em todo o mundo. Onde percebemos isso na Suíça?

T.H.: Posso dizer isso sobretudo no contexto da comunidade científica. Nos EUA, o financiamento foi completamente cortado e, em alguns casos, dados foram apagados. Muita gente está com medo de pesquisar nessa área, tudo relacionado ao tema “mulher” ou “trans” está sendo sinalizado. Temos colegas que estão cogitando deixar os EUA. Já houve consultas sobre quais pesquisas estão sendo feitas em Zurique; onde há colaborações, os EUA tentam influenciar outros países.

Swissinfo: Países que eram progressistas, como o Reino Unido ou a Suécia, restringiram os tratamentos de afirmação de gênero sob o argumento da proteção infantil. Eles não permitem cirurgias em menores de idade; e os bloqueadores da puberdade só podem ser prescritos no âmbito de pesquisas. Uma iniciativa na Suíça reivindica o mesmo. Você acredita que o país vai seguir essa tendência?

T.H.: É bom acompanhar os tratamentos do ponto de vista científico. No entanto, do ponto de vista ético, é muito problemático condicionar o acesso a um tratamento à participação em uma pesquisa. Pessoalmente, eu não gostaria de liderar um estudo desse tipo.

Na Suíça, menores de idade, considerando sua capacidade de discernimento, podem dar seu consentimento para um tratamento médico – considero extremamente problemático quando jovens transgênero são privados desses direitos em um contexto que é muito relevante para eles.

Swissinfo: As intervenções cirúrgicas em menores de idade são raras na Suíça. Na prática, elas estão limitadas à remoção dos seios em pacientes prestes a atingir a maioridade. Isso também é um argumento contra a regulamentação?

T.H.: De maneira geral, acho difícil estabelecer um limite arbitrário de idade. É preciso haver longas conversas com especialistas, nas quais adolescentes e jovens adultos obtenham informações, inclusive sobre a irreversibilidade das intervenções. E é importante avaliar continuamente qual é a melhor conduta.

Atualmente, pessoas intersexuais ainda são submetidas a cirurgias desnecessárias do ponto de vista médico, sem que tenham dado seu próprio consentimento. Essa é uma violação clara da integridade física. Até o momento, a política suíça não vê necessidade de agir, enquanto pretende proibir intervenções em jovens trans.

Operar crianças intersexuais sem seu consentimento e, ao mesmo tempo, privar as crianças trans da possibilidade de receberem tratamentos de afirmação de gênero, seria incoerente – e tampouco eficaz. O bem-estar de todas as crianças deve estar em primeiro lugar.

LGBTIQ+: sigla de lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, intersexuais e queer; o sinal “+” representa outras identidades.

Cis-heterossexual: refere-se a pessoas que se identificam com o gênero atribuído ao nascer (cis) e se sentem atraídas pelo outro gênero (hetero).

Queer: termo coletivo positivo para todas as pessoas que se desviam das normas sociais em relação ao gênero ou orientação sexual.

Não-binário: termo coletivo para pessoas que não se definem ou não se definem exclusivamente como homem ou mulher.

Trans: pessoas cuja identidade de gênero não corresponde ao gênero que lhes foi atribuído ao nascer.

Intergênero: pessoas que nasceram com características físicas (como hormônios ou genitais) que não podem ser classificadas clinicamente como exclusivamente masculinas ou femininas.

Coming Out (“sair do armário”, em português): revelar voluntariamente a própria identidade de gênero ou sexual.

Edição: Balz Rigendinger

Adaptação: Soraia Vilela

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