The Swiss voice in the world since 1935

Estudo revela alto índice de automutilação entre jovens trans na Suíça

Guarda-chuva de arco-íris
Discriminação é frequente e a saúde, especialmente das minorias sexuais, é precária: vida da comunidade LGBT na Suíça. Keystone / Peter Klaunzer

Trans e pessoas não-binárias enfrentam mais discriminação e têm pior saúde mental na Suíça, segundo a maior pesquisa nacional com a população LGBTIQ+. Jovens dessa comunidade são os mais afetados por automutilações e baixa autoestima.

Esta já é a sexta enquete ampla, realizada pelas pesquisadoras Tabea Hässler e Léïla Eisner, da Universidade de Zurique. No início do ano, elas publicaram os resultados dessa enquete mais recente do Painel LGBTIQ+, que é o estudo longitudinal mais importante da Suíça.

Da edição de 2025, participaram 6.117 pessoas: entre elas, 5.422 eram pessoas LGBTIQ+ e 695 eram pessoas cisgênero heterossexuais.

A seguir, apresentamos os resultados mais interessantes.

Mostrar mais
Uma faixa na Parada do Orgulho em Berna.

Mostrar mais

Demografia

Pesquisadora suíça alerta para retrocessos nos direitos LGBTIQ+

Este conteúdo foi publicado em “Nada fazer também é uma escolha e pode ser fatal”, diz Tabea Hässler sobre jovens trans na Suíça. Metade relata autolesão. Pressão conservadora global agrava cenário.

ler mais Pesquisadora suíça alerta para retrocessos nos direitos LGBTIQ+

Discriminação: um grupo é claramente o mais afetado

As minorias de gênero (como pessoas trans e não binárias) sofrem muito mais discriminação na Suíça do que as minorias sexuais (definidas como tais em função da orientação sexual).

Na maioria das vezes, as minorias de gênero são alvo de comentários depreciativos: mais de 93% relataram ter sido alvo de piadas inadequadas.

O segundo caso mais frequente de discriminação acontece quando a identidade de gênero da pessoa não é levada a sério — embora, de modo geral, esse tipo de experiência diminua minimamente na idade adulta.

O relatório classifica como “preocupante” o assédio sexual, sobretudo envolvendo pessoas intersexuais. Neste grupo, metade das pessoas já foi vítima de assédio sexual.

Conteúdo externo

É comum que a discriminação ocorra em espaços públicos, onde mais da metade das pessoas que integram as minorias de gênero já sofreu discriminação. Entre as minorias sexuais, esse número é de um terço. As redes sociais são outro espaço onde a discriminação costuma ocorrer.

O relatório aponta que a família também é lugar de discriminação: uma em cada três pessoas que pertencem às minorias de gênero já foi discriminada dentro da família.

LGBTIQ+: sigla de lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, intersexuais e queer; o sinal “+” representa outras identidades.

Cis-heterossexual: refere-se a pessoas que se identificam com o gênero atribuído ao nascer (cis) e se sentem atraídas pelo outro gênero (hetero).

Queer: termo coletivo positivo para todas as pessoas que se desviam das normas sociais em relação ao gênero ou orientação sexual.

Não-binário: termo coletivo para pessoas que não se definem ou não se definem exclusivamente como homem ou mulher.

Trans: pessoas cuja identidade de gênero não corresponde ao gênero que lhes foi atribuído ao nascer.

Intergênero: pessoas que nasceram com características físicas (como hormônios ou genitais) que não podem ser classificadas clinicamente como exclusivamente masculinas ou femininas.

Coming Out (“sair do armário”, em português): revelar voluntariamente a própria identidade de gênero ou sexual.

Bem-estar: gays e lésbicas sentem-se bem de maneira geral

De acordo com o estudo, as minorias sexuais na Suíça são praticamente tão felizes quanto seus pares cisgênero e heterossexuais.

Os dois outros grupos apresentam resultados piores nas pesquisas, embora as pessoas pertencentes às minorias de gênero apresentem o menor nível de bem-estar na Suíça.

Neste caso, perguntou-se às pessoas participantes com que frequência elas experimentaram emoções positivas ou negativas nos últimos 12 meses, em uma escala de 1 (muito raramente) a 7 (muito frequentemente).

Conteúdo externo

Saúde mental: jovens têm problemas mais sérios

Também no que diz respeito à saúde mental, as pessoas que integram as minorias de gênero apresentam os resultados mais preocupantes. Mais da metade desse grupo afirma que suas condições psíquicas não estão boas. Entre jovens, esse número chega a 56%, ou seja, apenas 20% sentem-se bem.

Conteúdo externo

Por outro lado, pessoas categorizadas como minoriais sexuais avaliam sua saúde mental apenas ligeiramente abaixo da média das pessoas cisgênero heterossexuais. As pessoas intersexuais situam-se no meio termo.

Em todos os grupos, a autoavaliação da saúde mental melhora na idade adulta.

Autolesões afetam quase 50% de jovens trans

O comportamento autodestrutivo é significativamente menos frequente em adultos do que em adolescentes. Isso se aplica a todos os grupos analisados no relatório.

A proporção deste comportamento entre pessoas cisgênero heterossexuais diminuiu de 19,6% para 7,7%; entre as minorias sexuais, de 27,9% para 12,6%.

Entre pessoas trans, não binárias e intersexuais, os números são, contudo, alarmantes: mais de 33% desse grupo de adultos e praticamente metade da(o)s jovens (49,7%) declaram comportamentos de autolesão.

Conteúdo externo

Sair do armário: maior confiança no círculo de amigos

O relatório apresenta também uma imagem detalhada dos contextos em que pessoas LGBTIQ+ tornam sua identidade visível.

A confiança maior é no círculo de amigos, seguido pela família. No local de trabalho, revelar a identidade de gênero ou orientação sexual é uma atitude mais frequente do que durante o ensino superior.

Conteúdo externo

Entre as pessoas LGBTIQ+, as que menos assumem a orientação sexual são as que ainda frequentam a escola ou estão em formação profissional – isso também porque muitas delas precisam de alguns anos até tornar públicas suas identidades de gênero ou orientação sexual.

Conteúdo externo

Atmosfera na sociedade: apenas um grupo sente-se aceito

Mais de 40% das minorias sexuais sentem-se bem-aceitas na Suíça; e apenas um terço reclama de uma atmosfera negativa na sociedade frente à sua orientação sexual.

Por outro lado, pessoas trans e não binárias sentem-se bem menos à vontade na Suíça: 76,5% desse grupo descrevem uma atmosfera negativa, enquanto apenas 7,8% como positiva.

O relatório apresenta esses números no contexto das campanhas políticas contra pessoas queer, como as que têm sido observadas recentemente, sobretudo nos Estados Unidos.

Pessoas intersexuais não se sentem bem-aceitas na Suíça: 57,1% percebem uma atmosfera negativa.

Conteúdo externo

Edição: Balz Rigendinger

Adaptação: Soraia Vilela

Mais lidos

Os mais discutidos

Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!

Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR