Viúva de diplomata morto no Iraque critica ONU

Lembrado em Genebra por um monumento e uma fundação, o diplomata da ONU morto pela Al Qaeda um atentado em 2003 no Iraque se tornou tema do filme "Sérgio". Por Skype entrevistamos a viúva Carolina Larriera, que lembra alguns momentos do chamado "homem que queria salvar o mundo".

Este conteúdo foi publicado em 24. maio 2020 - 12:00
Valéria Maniero, em Genebra
Sérgio Vieira de Mello durante uma coletiva no escritório da ONU em Bagdá, Iraque, em 24 de junho de 2003. Dois meses depois seria morto, junto com outros 19 funcionários internacionais, em um atentado à bomba. Keystone / Bullit Marquez

Já são quase 17 anos desde a morte do brasileiro Sergio Vieira de Mello num ataque terrorista ao escritório da ONU em Bagdá, quando era Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos. A história do brasileiro volta à tona agora com a estreia do filme "Sergio", na "Netflix", com Wagner Moura no papel principal. A história de amor entre ele e a economista argentina Carolina Larriera, que trabalhava na instituição e sobreviveu ao atentado, também está lá. Em 2017, a Justiça do Rio reconheceu a união civil entre Carolina e Sergio, depois de dez anos. 

swissinfo.ch conversou com exclusividade com Carolina Larriera, que vive hoje em São Paulo. Confira abaixo alguns dos principais momentos da entrevista.

Carolina Larriera vê pontos positivos e negativos no filme e na maneira como ela e Sergio foram retratados. "Nós, da América Latina, e estou falando como argentina, morando no Brasil, somos retratados como charmosos e, muitas vezes, não como realmente somos: pessoas preparadas, que se esforçaram muito", diz.

Carolina lembra que Sergio era brasileiro, carioca, e tinha estudado na UFRJ e na Sorbonne. Ela, em Harvard. "Às vezes, quando a gente é apenas reduzida a uma pessoa charmosa e sexy, fica desconfortável. A gente é muito mais do que isso", diz. Segundo ela, o filme retrata bem duas pessoas com suas personalidades, dúvidas e complexidades.

Carolina e Sergio em Ushuaia -Argentina - álbum de família. cortesia

"O filme faz justiça a essa parte e coloca claramente que Sergio e eu tínhamos um relacionamento formal, estável, reconhecido por todos e explicita no final que, depois de muitos anos, a nossa união, que já existia quando ele estava vivo, foi reconhecida formalmente pela Justiça brasileira".

No geral, o balanço é positivo, ela diz, mas vê pontos desfavoráveis: a história dos dois não foi breve como parece ter sido no filme. O relacionamento deles também era mais formal. Há também um outro ponto crucial – o da segurança. Carolina se refere à cena em que Sergio pede que o tanque seja retirado, mas na verdade, segundo ela, "o sênior management da ONU foi quem resolveu que para garantir a independência das Nações Unidas em Bagdá esse tanque deveria ser retirado". Explica que Sergio e sua equipe eram encarregados da transição política, não da parte logística, onde ficava essa questão da segurança.

Por que Sergio tem que ser conhecido e reconhecido

O que Sergio representou está sendo resgatado, na opinião de Carolina. Ela diz que o filme ajuda a divulgar entre os mais jovens a vida e o trabalho de Sergio, "o funcionário mais importante da história da ONU". Outro ponto importante é a valorização da própria cultura e dos talentos brasileiros. 

"Nós, da América Latina, muitas vezes acabamos valorizando muito mais o que está lá fora. O filme serve para inspirar os jovens que estão vivendo nesse momento político complexo. É mais importante do que nunca nos lembrarmos de que existem pessoas que acreditam em ideais e que se esforçam por batalhar por eles. Que é importante ter boas convicções e levá-las adiante. E que teve alguém que o fez. Essa pessoa, produto dessa sociedade, tocou as vidas dos mais vulneráveis. Ter esse raio de esperança hoje não tem preço".

Foto Carolina e Sergio com família dele no Rio - álbum de família cortesia

Segundo ela, Sergio deixou um legado de empatia e a ideia de que existem soluções.

"Ele acreditava que a polarização levava à destruição e que tinha uma forma de aproximar as pessoas e que, quando os líderes se aproximam, os primeiros beneficiados são as populações".

Os momentos após a morte de Sergio no Iraque

O corpo de Sergio foi enterrado no cemitério de Plainpalais, em Genebra, onde descansam personalidade suíças importantes e alguns estrangeiros, como o escritor Jorge Luis Borges. Mas Carolina não esteve presente ao enterro, em Genebra, nem ao velório, no Rio. E não foi por falta de vontade.

"A última vez que eu vi o Sergio foi na ‘morgue’ (necrotério, no Iraque), quando fui reconhecê-lo. Fui chamada porque Sergio usava aliança de casamento com o meu nome. A gente já utilizava há dois anos", conta.

 A partir daí, segundo ela, aconteceram várias coisas que a distanciaram do marido:

"Eu fui colocada em outro avião. Pedi para acompanhar Sergio, porque a gente tinha entrado no Iraque junto e tinha o compromisso de sair junto. Através de uma série de mentiras, eu fui separada dos meus pertences pessoais. Falavam para mim que Sergio ia ser colocado em um avião, então, eu subi nesse avião confiante de que nesse momento tão trágico ninguém ia se atrever a mentir; mas, na verdade, fui enganada. Me colocaram em um avião que ficou rodando pelo mundo inteiro. Demorei três dias para chegar. Para minha surpresa, ao invés de ser levada para onde estava Sergio, fui levada para o meu país, onde não morava fazia 15 anos", relembra, emocionada.

Ela conta que, ao chegar à Argentina, comprou passagem para ir ao Brasil. Quando Carolina chegou ao Rio, Gilda, a mãe de Sergio, a esperava, mas o corpo do marido não estava mais lá.

Túmulo de Sérgio Vieira de Mello em Genebra. swissinfo.ch

"O que eu sei é que Sergio amava profundamente o seu país, a sua cidade. Acho que algumas coisas não foram feitas da maneira correta. Teria sido bom se os desejos do Sergio tivessem sido respeitados", diz ela.

Depois do luto pela morte de Sergio, a luta

O que veio depois daquele 19 de agosto de 2003 foi ainda pior do que o mostrado no filme, "mesmo retratando uma tremenda tragédia".

"Todos esses anos têm sido muito difíceis para mim. A minha luta tem a ver com ter sido excluída de todas as listas de sobreviventes do atentado da ONU. A minha declaração sobre o que eu testemunhei naquele dia, estando no atentado, ficou fora das investigações. Eu tive obstáculos para chegar até o velório. De fato, não cheguei ao velório do Sergio (no Rio). Os meus pertences pessoais foram tirados de mim e também as chaves do nosso apartamento. Eu perdi todos os meus pertences pessoais", conta Carolina, que teve estresse pós-traumático depois do atentado e foi acolhida pela mãe do marido no Brasil.

Ela conta como as coisas aconteceram:

"Na época, o que me explicaram foi que, por não termos um papel assinado, eu, diante dos olhos da ONU, não era ninguém. Nem na minha condição como mulher de Sergio nem na de profissional, funcionária oficial da ONU por 7 anos que tinha ido ao Iraque com contrato assinado. Eu não entendi. Nessa época, eu estava totalmente atordoada pela morte dele e pelo atentado, quando morreram 21 amigos meus, não apenas colegas", conta.

Críticas à ONU

Carolina critica a ONU pela maneira como foi tratada depois da tragédia.

"A Organização das Nações Unidas coloca, em público, a preocupação com o status da mulher e com a segurança e o bem-estar de seus funcionários, sobretudo os feridos quando serviam à organização. Mas o que eu posso testemunhar, porque foi o que eu sofri, é que as ações concretas têm sido inferiores às grandes declarações", diz ela.

Monumento em memória às vítimas do atentado de Bagdá, atrás do Palácio Wilson, em Genebra: busto de Sérgio Vieira de Mello, do escultor Zurab Tsereteli. swissinfo.ch

Segundo Carolina, até hoje, a instituição se recusa a reconhecer a união dos dois. 

"A ONU poderia e pode reconhecer o processo judicial, que aconteceu no Brasil com todas as partes, e reconheceu legalmente a união estável entre Sergio e eu. Até maio de 2020, a ONU se recusa a reconhecer por razões que não têm sido explicadas. Eu percorri todo o caminho interno burocrático, incluindo também a parte interna judicial da ONU, e ainda não encontrei uma explicação sobre porque o sistema judicial brasileiro não está sendo reconhecido. Eu não entendo. Eu não tenho respostas. Eu não sei", afirma. 

Ela diz que, depois do atentado, foi "apagada de todas as listas com a desculpa de não ter um papel oficialmente assinado".

"Hoje, me dou conta que isso foi apenas uma desculpa. Eu me pergunto por que eu - e os meus colegas sobreviventes do atentado – fomos tratados da forma que fomos tratados e por que em particular hoje, depois que a nossa união estável foi reconhecida por um Estado-membro das Nações Unidas, a Organização persiste em colocar essa distância entre a oratória e os princípios de reivindicar os direitos da mulher, de ter empatia pelas vítimas de terrorismo". 

O significado da Suíça

Carolina diz que Sergio e ela tinham grande respeito por esse país. 

"Ele achava que a Suíça tinha um standard (padrão) de vida incrível, o que colocava ainda mais em destaque o sofrimento das populações onde ele ia trabalhar. Cada vez que ele voltava para a Suíça, ficava ainda mais agoniado por abandonar as populações que estavam realmente sofrendo nesses lugares de pós-guerra. Então, eu acho que a Suíça representa o que poderia ser", diz ela.

A vida no Brasil

Carolina se mudou para o Rio, onde contou com o apoio da mãe de Sergio depois do atentado. Morou vários anos a um quarteirão do Arpoador, o primeiro lugar que Sergio ia quando estava lá. Depois, foi para São Paulo, onde trabalha como economista, com projetos nas áreas de transparência, prestação de contas e relações internacionais.

"No Brasil, eu senti que Sergio estava lá e me senti bem. Eu precisava sobreviver como pessoa e o Brasil me deu esse espaço".

Democratização da diplomacia

Carolina falou também sobre o trabalho feito pelo Centro Sergio Vieira de Mello, criado em 2008 por ela e a sogra. Disse que era uma forma de levar aos mais jovens certos conceitos da diplomacia, como negociação, resolução de conflitos e oratória.

Um livro para contar a outra parte da história

Carolina está escrevendo um livro para contar o que aconteceu depois da morte de Sergio.

"Existe uma história até a ida ao Iraque e, desde o momento em que se confirma a morte dele, começa uma história nova, totalmente diferente. E também o posicionamento das Nações Unidas foi diferente depois do atentado", conta.

Segundo ela, organizações como a ONU podem "aprender com seus erros e corrigi-los, porque as que prosperam são aquelas que os enxergam, melhoram e avançam".

A melhor homenagem

Há um busto em homenagem a Sergio em frente à sede do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos em Genebra. Para Carolina, no entanto, uma boa homenagem seria respeitar as escolhas pessoais que ele fez.  Além disso, "colocar fim à incoerência entre um discurso oficial e uma política interna que não falam entre si é a melhor forma de fazer uma verdadeira homenagem aos ideais que Sergio abraçava."

O reencontro com a felicidade

A repórter do swissinfo.ch perguntou à economista se, depois de tantos anos, ela tinha reencontrado a felicidade. Na hora de responder, Carolina citou "Em busca de sentido" - um psicólogo que sobreviveu aos campos de concentração" (Viktor Frankl).

"O que resta depois de perder tudo? O que resta é o que está aqui dentro e que nos mantém vivos. A gente precisa manter esse espírito alimentado, cuidado, com amizades boas. É o mais importante. Nesses últimos 17 anos, tenho trabalhado muito interiormente para identificar que a verdadeira felicidade está aqui dentro", diz, apontando para o próprio corpo.

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