A fintech salvará os bancos privados suíços?

O futuro do setor bancário teria chegado? Um número crescente de startups em tecnologia financeira está tentando chacoalhar esta indústria; porém nem todos os tradicionais “players” estão convencidos.

Este conteúdo foi publicado em 09. janeiro 2018 - 13:15
Nova tecnologia digital poderia transformar a forma como os bancos fazem negócios Keystone

"Fintech não é uma solução milagrosa para a indústria financeira, mas é absolutamente necessário que os bancos enveredem pela via da transformação digital", disse Matthias Bossardt, chefe de segurança cibernética da KPMG Suíça, para swissinfo.ch. Em relatório recente, a KPMG prevê que muitos bancos privados suíços vão desaparecer à medida que os custos aumentam, as margens de lucro diminuem e os clientes se tornam mais exigentes.

O fato é que os bancos privados suíços já não podem mais confiar no antigo modelo comercial de esconder o dinheiro dos seus clientes. Eles também têm que lidar com os maiores custos de regulação e conformidade, a mudança da criação de riqueza em direção às economias emergentes e o desempenho lento dos mercados financeiros.

Examinamos alguns dos novos modelos suíços de fintech que poderiam ajudar os bancos privados tradicionais a sair do buraco – ou então serem substituídos.

Regulação/Conformidade

Requisitos de reserva de capital regulados pelos acordos de Basileia III, com o seu “acabamento suíço” bem resistente, iniciativas contrárias à lavagem de dinheiro (AML), evasão fiscal e sonegação de impostos, além do aprimoramento das regras de proteção ao cliente estão custando aos bancos mais tempo e dinheiro do que nunca.

"A explosão central dos custos está em elementos que não são voltados ao cliente. A regulação é uma das grandes barreiras de custos. Os gerentes de relacionamento estão gastando mais tempo com tarefas burocráticas do que com os seus clientes", comentou Prafull Sharma, Diretor de Transformação Digital e Terceirização da KPMG, para swissinfo.ch.

Em palestra no Fórum Suíço Internacional de Finanças, realizado no mês de junho em Berna, Henri Arslanian, da PwC Hong Kong, afirmou que 80% dos custos com pessoal geralmente envolvem despesas ligadas à prevenção, detecção e controle de atividades de lavagem de dinheiro.

Diversas startups – como Qumram, NetGuardians e SwissMetrics – desenvolveram algoritmos 'regtech' (tecnologias aplicadas ao cumprimento regulatório) para segmentar automaticamente a crescente montanha de dados em informações administráveis e significativas. Isso permite aos bancos eliminar as “maçãs podres” entre os novos clientes potenciais, detectar fraudes cibernéticas e verificar o histórico de crédito para determinar a saúde financeira dos seus clientes.

Plataformas digitais “Plug & Play”

O custo e a complexidade para atualizar os sistemas de TI aos novos padrões digitais exigidos tem forçado a sua terceirização por meio de especialistas externos. "Antigamente, quando os negócios floresciam e as margens de lucro eram altas, os bancos não eram pressionados para inovar", relatou Bossardt. “Mas agora os bancos precisam desses recursos justamente para se manterem vivos".

A Swisscom, provedor suíço de telecomunicações, opera plataformas para mais de 80 bancos. Empresas como Avaloq, Temenos e Additiv também são provedores bem estabelecidos de sistemas de software bancário que podem ser conectados pelos bancos e executar determinados serviços – a um custo inferior ao da opção de desenvolver internamente esses sistemas.

De acordo com a KPMG Suíça, a terceirização pode realmente ser a melhor opção para promover segurança cibernética aos bancos, já que as fintechs estão repletas de especialistas. Ao incumbir a terceiros suas plataformas digitais, os bancos acabam por não comprometer a sua cultura e personalidade únicas, concentrando seus recursos em clientes e produtos.

Aconselhamento automatizado

Ao invés de oferecerem os seus serviços aos bancos privados tradicionais, algumas fintechs estão perturbando a indústria com novos modelos de negócios. A Swissquote foi líder desta iniciativa por alguns anos, porém novas empresas em "robo-advisor", o aconselhamento automatizado do setor bancário – como Descartes Finance e True Wealth – também entraram no jogo.

O aconselhamento automatizado representa uma ameaça parcial para o setor convencional. Estas empresas emergentes permitem que os clientes tenham maior autonomia sobre a gestão de seus próprios recursos e mais acesso à informação, porém não possuem a competência, a experiência e a empatia dos bancos privados. De fato, tanto a Descartes quanto a True Wealth formaram alianças de parceria com bancos tradicionais.

Bossardt acredita que essa tecnologia pode se tornar uma ferramenta para auxiliar os bancos privados a entrarem no mercado asiático em rápida expansão: "Os clientes asiáticos definitivamente apreciam muito o uso da tecnologia para a sua relação bancária. Abraçar a fintech poderia abrir novos mercados para muitos dos pequenos bancos privados”.

Protocolo de confiança/criptomoeda

Via de regra, os bancos suíços evitam a moeda digital por ser tratar de uma moda feita sob medida para criminosos, que se lançou dentro de uma bolha sustentada por investidores irracionais. Apenas alguns bancos – como Falcon, Swissquote, Cornèr e Vontobel – adentraram nesta nova classe de ativos, mas sob condições comerciais equitativas.

No entanto, Smart Valor e Melonport estão abertamente aderindo ao protocolo de confiança (blockchain), porque permite às pessoas tanto armazenar quanto enviar os seus ativos diretamente ao destinatário sem um mediador financeiro tradicional por meio das criptomoedas, que não são impressas pelos bancos centrais.

Olga Feldmeier, fundadora da Smart Valor, diz que se inspirou na criação desta instituição financeira depois de viver uma inflação desenfreada que eliminou a poupança de inúmeros ucranianos e destruiu muitos empregos na década de 1990.

"As pessoas devem ter a capacidade de proteger as suas riquezas se os seus governantes decidirem imprimir dinheiro", relatou para swissinfo.ch. "Ser capaz de assegurar suas próprias economias é um direito humano". A Smart Valor prometeu ser o primeiro banco de criptografia suíço que permitirá a qualquer pessoa investir em propostas alternativas com chaves de segurança, em um mercado descentralizado e sem privilegiados.

A Lykke também encoraja seus investidores a terem um maior controle sobre os seus ativos, desenvolvendo uma plataforma de negociação blockchain que promete eventualmente negociar todas as classes de ativos de criptografia digital. Ao invés de se esconder nas sombras, a Lykke quer que os seus concorrentes se conectem em seu sistema de código aberto e assim continue a ganhar as licenças bancárias em todo o mundo.

Ideias disruptivas encontraram resistência do setor financeiro convencional. Mas os desenvolvedores de blockchain acreditam que é apenas uma questão de tempo até que as empresas tradicionais sejam surpreendidas pelo sucesso de seus modelos de negócios e sejam forçadas a aderirem.

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