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Suíços do estrangeiro lembram da sua antiga colônia de férias

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Uma colônia de férias para a 5ª Suíça: entre 1956 e 1979, o Lar dos Suíços do Estrangeiro funcionou em um pequeno vilarejo no interior do país. Era um projeto social mantido por um casal de empresários para receber famílias e jovens e permitir que eles tivessem experiências e impressões do país dos antepassados.

Este conteúdo foi publicado em 17. novembro 2020 - 10:00

Hugo Wyss, Gianni Escher e Constantino Semini contemplam, quase seis décadas depois, algumas casas no vilarejo de Dürrenäsch, no cantão da Argóvia. Os cabelos dos senhores, já na casa dos 80 anos, estão grisalhos, mas a alegria de viver se mantém acesa.

"Ela foi tirada aqui!", diz Semini, apontando uma foto a seus dois amigos. "Gianni, naquela época você só se interessava mesmo pelas garotas", brinca Wyss. Lembranças vem à tona. As expectativas e interesses eram grandes quando se encontraram, em 1957, no Lar dos Suíços do Estrangeiro. Foi uma aventura e a pedra fundamental de uma longa amizade.

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Mapa da Suíça mostrando a localização de Dürrenäsch, no cantão da Argóvia. swissinfo.ch

Destino mundial

Foi em 1956, quando o vilarejo transformou em um destino comum para muitos suíços que viviam no exterior. Herbert Bertschy-Ringier foi o responsável pelo empreendimento. Ele fundou o "Lar dos Suíços do Estrangeiro" em sua cidade natal, Dürrenäsch. Tratava-se de uma colônia de férias voltada a esse grupo específico de pessoas, que compartilham da mesma cultura, mas viviam nos quatro cantos do globo. Como empresário do ramo da seda, ele costumava encontrar muitos compatriotas nas suas viagens de negócios. Na época percebeu que todos tinham algo em comum: saudades de casa.

Entretanto, os três suíços, jovens na época, Escher, Semini e Wyss, continuaram nostálgicos ao se encontrar em Dürrenäsch em 1957. Eles pensavam no país que nasceram, a Itália. Semini vinha de Nápoles, Escher de Trieste e Wyss, de Como. "Recebemos um bilhete, que penduramos no pescoço, e entramos no trem", diz Semini. Escher e Semini já se conheciam de um antigo acampamento.

"Mas não me lembro muito disso", diz Gianni Escher ao olhar para os vários prédios da antiga colônia. " Ainda me lembro achar estranho que eles servirem na época o macarrão com mousse de maçã! ", diz Wyss, e ri. Ele não gostava da cozinha suíça. "Lembro que pegamos carona até Teufenthal na caçamba de um caminhão", acrescenta Escher. Depois seguiram de trem para Aarau.

Lar para crianças judias

Além de oferecer um espaço para os suíços do estrangeiro, foi o amor pelas crianças que levou o casal Rita e Herbert Bertschy-Ringier a fundar o Lar, em abril de 1956. Ele era filho de um fabricante de seda. Ela, filha do dono de uma editora. Ambos tinham uma mente aberta, viajavam muito e tinham uma fortuna considerável.

No Lar havia espaço para 100 hóspedes, em nove casas diferentes. A ideia para isto já existia antes da II Guerra Mundial. No entanto, Bertschy "suspendeu o projeto durante a guerra para ajudar a Cruz Vermelha", como pode ser lido no livro "Crônicas do Lar para os Suíços do Estrangeiro". Entre 1944 e 1948, as casas serviram à Cruz Vermelha como um lar para crianças judias refugiadas. Foi a última deste tipo.

Nesse meio tempo, os três ítalo-suíços já não pertenciam mais à comunidade da 5ª Suíça. Wyss foi viver em Neuchâtel, Escher em Teufen, um vilarejo de St. Gallen, e Semini, no cantão de Zug. Depois os três estudaram na renomada Escola Politécnica Federal (ETH) em Zurique. Desde então, seus caminhos se cruzaram frequentemente. Os três permaneceram na Suíça, fizeram carreiras e fundaram suas famílias. Uma coisa, no entanto, não desapareceu em todos estes anos: a profunda gratidão que sentiam pelo seu país de origem: "A Suíça foi muito generosa na história, no que diz respeito à dupla cidadania", diz Hugo Wyss.

A família Bertschy atingiu um ponto nevrálgico com a fundação do Lar, ou "Home", como é chamado em todas as línguas. Naquela época, a Suíça estava muito mais distante do que está hoje com o aumento da mobilidade e da tecnologia. Para muitos suíços do estrangeiro, a colônia de férias ainda era a única conexão com seu país de origem. Além disso, oferecia estadia a preços acessíveis: qualquer pessoa que ajudasse na casa poderia reduzir ainda mais as diárias, que já eram relativamente baixas.

A colônia de férias foi um destino preferencial de férias por duas décadas para a Quinta Suíça. Keystone / Alphons Biland

Sete mil pernoites por ano

"Aqui os recrutas passam suas férias. As pessoas chegam aqui em Dürrenäsch para começar uma nova vida. Aqui se encontram", foi o título de uma reportagem de 1963 exibida na televisão suíça.

Quase todos os países estavam representados na colônia de férias. Havia suíços que viviam na Etiópia, Haiti, Japão ou até mesmo Filipinas, apenas para citar apenas alguns. Entretanto, a maioria dos hóspedes na colônia em Dürrenäsch vinham da França ou das colônias francesas. Por isso, o francês era a língua predominante.

"Muitos suíços parisienses vinham passar aqui suas férias", lembra-se Barty Mekri. Esse senhor de 62 anos conta, por telefone, que veio pela primeira vez aos quatro anos de idade, acompanhado pela avó e o irmão. Mekri ainda se lembra de muitos detalhes: da viagem de trem de Paris à Basiléia e Aarau, da viagem no trem regional à Teufenthal e da neve: "Até mesmo minha avó nunca tinha visto tanta neve naquela época.

Isso foi em 1962. Barty Mekri voltou à Dürrenäsch muitas vezes depois. Sempre para passar três semanas. "Às vezes vinha no inverno, às vezes na Páscoa e muitas vezes para o 1º de agosto", conta. O Dia Nacional da Suíça era sempre o ponto alto do ano para o Lar e seus hóspedes. Todos os anos havia excursões e comemorações, nas quais todos podiam participar.

A família de Barty Mekri encontrando o "Papai Noel" em Dürrenäsch. zvg

Em média, o Lar registrava quase sete mil pernoites por ano. No entanto, como as viagens se tornaram cada vez mais baratas nos anos 1970 e os hóspedes se tornaram cada vez mais velhos, ficou difícil manter o funcionamento do espaço. Ele nunca cobriu seus próprios custos e não recebia subsídios do governo. Os custos eram financiados pela família Bertschy-Ringier.

Houve vários projetos para manter a colônia de férias, mas eles vingaram. O fato de Dürrenäsch estar longe das principais rotas de tráfego - e dificuldades de conexão com o transporte público - podem ter sido algumas das razões. Eram principalmente clientes regulares de longa data que ainda passavam suas férias no Lar. Entre eles estava a família de Barty Mekri, suíços parisienses.

"Teria adorado vir aqui com meus filhos"

"As perspectivas a curto e médio prazo para o futuro são tristes" foi o título de uma análise da situação do ano de 1978. Houve outras sugestões para manter a colônia. Não muito mais que isso. O fundador morreu durante as negociações em março de 1979. Assim a família decidiu fechar o espaço no outono do mesmo ano.

"Viemos à Dürrenäsch novamente em 1979 para nos despedirmos", diz Mekri, antigo hóspede. Se o Lar ainda existisse hoje, teria gostado de mostrá-lo a seus filhos. "Sempre gostei demais de vir à Dürrenäsch", declara Mekri com nostalgia.

Hoje apenas algumas placas informativas lembram que o casarão recebia suíços do estrangeiro vindos de todas as partes do mundo. swissinfo.ch

Embora a paisagem da vila de Dürrenäsch tenha mudado nas últimas décadas, uma série de edifícios ainda pertencentes à família Bertschy testemunham os tempos da antiga colônia de férias. Por exemplo, grandes placas ainda estão penduradas, onde se pode ler a inscrição "Lar para suíços do exterior".

Depois que os três antigos hóspedes, Wyss, Escher e Semini, fizeram uma viagem ao local do seu passado, retornam então às suas casas. Hugo Wyss desconfia que, 63 anos após o primeiro encontro, talvez não haja mais outra oportunidade. "Acho que foi nosso último encontro", diz ele.

Adaptação: Flávia C. Nepomuceno dos Santos

Museu informal

A família Bertschy, proprietária da colônia de férias dos suíços do estrangeiro, não quis fazer comentários, mas organizou o contato com Isidor Keller, que também recebeu os três antigos suíços do estrangeiro - Wyss, Escher e Semini - em Dürrenäsch.

Junto com uma série de voluntários, Keller dirige o museu do povoado em Dürrenäsch, que dedica parte de seu espaço de exposição sobre a colônia de férias. Ele cresceu nas proximidades e ainda vive por lá. A mãe de Isidor Keller trabalhou na colônia por muitos anos e, portanto, tem histórias a contar. Keller também recebe grupos interessados no "seu" museu do povoado.

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