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Especialistas independentes criticam exclusão no debate sobre IA

Vidro com a inscrição em inglês.
Inteligência artificial foi um dos principais temas no WEF de 2026. Keystone / AP

Durante o WEF em Davos, vozes independentes como a da canadense Tammy Mackenzie buscam desafiar o domínio das big techs no debate sobre inteligência artificial, denunciando a exclusão de perspectivas críticas e alertando para os riscos da centralização de poder na tecnologia.

Tammy Mackenzie não veio a Davos para fazer negócios ou atrair investidores. Ela está aqui para trazer uma perspectiva sobre inteligência artificial (IA) que não vem de uma empresa de bilhões de dólares. “Queremos garantir que todos possam ter voz na IA, desde as pessoas comuns até os representantes das grandes potências”, diz Mackenzie, que dirige a The Aula Fellowship, um think tank com sede em Montreal, no Canadá, empenhado em promover uma IA mais inclusiva.

Tammy
Tammy Mackenzie Sara Ibrahim / SWI swissinfo.ch

Mackenzie é uma das muitas especialistas em tecnologia preocupadas com a concentração de poder na IA. Ela vem tentando aumentar a conscientização há anos por meio de pesquisas, dados e campanhas. Se os sistemas de IA não forem projetados tendo em mente os grupos marginalizados, eles correm o risco de reforçar a exclusão, argumenta a empresária. Ferramentas usadas em processos de recrutamento ou na área da saúde já estão tomando decisões automatizadas que refletem os preconceitos daqueles que as criam, para citar apenas alguns exemplos.

O maior desafio, no entanto, é levar essa mensagem aos círculos certos, especialmente quando os tomadores de decisão se reúnem em Davos, durante a semana mais cara do ano.

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Buscando pessoas

O Fórum Econômico Mundial (WEF) transforma o vilarejo alpino de Davos em um centro de networking internacional de alto nível. Participar dele implica custos que muitas organizações pequenas não podem arcar.

Mackenzie e eu nos encontramos em uma praça de Davos em uma tarde de quinta-feira. Durante o WEF, esse espaço se transforma em uma curiosa encruzilhada de vendedores de salsichas, promotores de tecnologia e pessoas que fazem uma pausa entre reuniões a portas fechadas no vilarejo.

Kulturplatz Davos durante o WEF 2026
Outro tema em Davos: tecnologias a favor do clima. Sara Ibrahim / SWI swissinfo.ch

Nessa rua normalmente tranquila, empresas e países chegam a pagar somas que podem ultrapassarLink externo um milhão de dólares para transformar uma loja ou escritório em sua vitrine durante a semana do WEF. A IA monopoliza os slogans e os espaços públicos. Entre os convidados do Fórum, os holofotes estão voltados para executivos de gigantes da tecnologia que se tornaram estrelas, como Dario Amodei (Anthropic), Jensen Huang (Nvidia) e Satya Nadella (Microsoft), que discutem os supostos riscos existenciais da IA e sua extraordinária promessa para a sociedade.

Para Mackenzie, estar em Davos é uma maneira de se aproximar dos centros de poder onde o futuro da inteligência artificial e, portanto, também o de milhões de pessoas, está sendo traçado. Ela quer que grandes empresas como a Microsoft ou a Palantir, que também desenvolve sistemas de IA para uso militar, se sentem à mesma mesa que pesquisadores, formuladores de políticas públicas e cidadãos comuns afetados por suas tecnologias. Uma de suas prioridades, diz ela, é encontrar pessoas influentes que sejam “honestas, corajosas e confiantes diante de nossos maiores problemas”.

“Toda grande mudança na história aconteceu porque as pessoas se sentaram juntas e mudaram o que não estava mais funcionando”, diz. Levanto uma sobrancelha. Parece-me uma visão um tanto ingênua. Mas Mackenzie insiste que realmente acredita nisso. Ela nasceu otimista, diz; a única coisa que realmente a deixa irritada é a injustiça.

Otimismo em Davos

Até algumas semanas antes, Mackenzie não sabia se teria condições de pagar a viagem a Davos. O acesso ao WEF e a seus eventos paralelos é feito somente por convite, e a acomodação é cara. Durante o Fórum, o aluguel de um apartamento em Davos pode custarLink externo até 95 mil francos por semana.

O voo e as cinco noites no hotel mais modesto para Mackenzie e um colega teriam custado ao seu think tank nove mil dólares canadenses, um valor que a organização não tinha. Mackenzie só conseguiu ir a Davos graças a uma campanha de doações e ao apoio financeiro de amigos, colegas, familiares e fundações que atuam na promoção da IA inclusiva.

O convite para participar, no entanto, veio de um encontro casual meses antes, em Montreal, com Daniel Dobos. Dobos é diretor de pesquisa da empresa suíça de comunicações Swisscom e cofundador da AI House, o principal espaço de networking de alto nível sobre IA em Davos durante o WEF. “Tammy é fantástica: ela é cheia de energia e paixão. Eu queria que sua organização pudesse vir a Davos”, afirma.

Bastidores da AI House

Dobos diz que iniciativas como a AI House lutam para incluir vozes como a de Mackenzie. É difícil encontrar um equilíbrio entre as grandes empresas, que pagam para garantir visibilidade e um lugar nos painéis, e os participantes menores e menos influentes, para os quais a participação é complicada tanto do ponto de vista financeiro quanto logístico. “Se quisermos ter credibilidade, também precisamos dar mais espaço às organizações menores”, ressalta.

Dentro da AI House, circulam empresários, pesquisadores e “gurus” de IA selecionados. Em um dia, Yann LeCun, ex-chefe de pesquisa em IA da Meta, subiu ao palco. Em outro, Talal Al Kaissi, diretor-executivo da G42, a polêmica empresa de IA fundada pela família real dos Emirados, foi convidado a falar sobre soberania em IA.

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À margem estão organizações com grandes ideais, mas poucos recursos, como a de Mackenzie, e jovens fundadores de start-ups em busca dos contatos certos. Vejo Mackenzie trocar cartões de visita ao final dos painéis. Mas ela também está ali como observadora. Após uma discussão sobre o uso da IA para fins militares, ela questiona a ausência de empresas que produzem tecnologias já utilizadas em guerras e conflitos. “Precisamos dessas empresas sentadas à mesa”, ressalta, explicando que essa é a maneira mais eficaz de garantir que seus sistemas reduzam a desigualdade e os danos, em vez de ampliá-los.

Círculos que importam

Jennifer AI na AI House em Davos durante o WEF 2026
Jennifer Ai Sara Ibrahim / SWI swissinfo.ch

Na AI House, um espaço com sofás confortáveis e mesas altas, encontramos Jennifer Ai, uma empreendedora na casa dos 30 anos com um sobrenome que parece quase uma reviravolta do destino. Ela também é do Canadá, e esta é sua primeira vez em Davos. Assim como Mackenzie, trabalha em um projeto que visa democratizar o acesso ao setor de tecnologia.

O mais recente empreendimento em que está envolvida pretende usar IA para digitalizar o processo de captação de recursos para start-ups globais. Encontrar capital para pequenas empresas ainda é, em grande parte, uma questão de sorte: a sorte de estar no lugar certo e conhecer as pessoas certas na hora certa. “Isso significa participar de eventos, pagar quantias exorbitantes de dinheiro e tentar conhecer alguém aleatoriamente”, diz Ai.

Em seus primeiros dias, ela mesma não conhecia ninguém e passou horas procurando investidores, escrevendo e-mails e aprendendo a aproveitar o momento. “Foi terrível”, lembra. Mas sua perseverança valeu a pena, diz ela, exibindo o sorriso radiante de alguém que sabe que finalmente entrou nos círculos que importam.

Macarrão diariamente

Embora ambas tenham conseguido chegar a Davos, Mackenzie e Ai estavam longe de viver a vida típica dos bilionários das grandes empresas de tecnologia. Nenhuma das duas encontrou acomodações acessíveis na cidade. Ai viajava diariamente de Zurique, em uma viagem que levava mais de duas horas de trem. Mackenzie dormia em um dormitório compartilhado a quase duas horas de distância. O trem custava cerca de 112 francos por dia, e a cama, quase 150 francos por noite. “Tudo custava cerca de duas vezes mais do que no Canadá e, muitas vezes, só havia opções de luxo disponíveis”, lembra.

Para economizar, Mackenzie diz que comia principalmente frutas, pão, cereais e carne seca comprados no supermercado. Houve apenas quatro refeições quentes durante a semana, três delas à base de macarrão.

Apesar das dificuldades, Mackenzie diz que a viagem valeu a pena. Em Davos, andou muito, visitou os espaços das big techs e conversou com equipes de recepção, explicando que as empresas podem criar produtos melhores se ouvirem o que as pessoas que os utilizam realmente querem. “Essa é uma regra básica de marketing. Mas, para que funcione, empresas, especialistas em tecnologia e pessoas comuns precisam se sentar juntos e conversar”, diz.

Ela não quer citar os nomes das empresas que visitou nem entrar em detalhes das conversas, mas afirma que se sentiu bem-vinda. Está convencida de que as grandes empresas de tecnologia só mudarão sua atitude se temerem perder legitimidade.

No final da noite, nos encontramos novamente do lado de fora da AI House, depois de termos procurado, sem sucesso, um painel sobre exploração do trabalho. Meus pés estão congelados e meu estômago ronca de fome. Mackenzie ainda parece fresca e animada; pergunto-me se é por causa das camadas de lã merino ou de seu otimismo.

No dia seguinte, o WEF terá terminado e a praça se esvaziará, como se essa enorme reunião de pessoas nunca tivesse acontecido. Antes de nos despedirmos, pergunto se ela realmente acredita que pode convencer os gigantes da tecnologia a abrir mão de negócios de bilhões de dólares simplesmente trocando cartões de visita em Davos. “Não estou aqui para convencer ninguém”, responde, antes de nos despedirmos. “Só podemos fazer uma coisa: colocar a mesa. Se as pessoas vierem e se sentarem, então algo mudará.”

Edição: Gabe Bullard

Adaptação: Alexander Thoele, com ajuda do Deepl

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