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Genebra internacional perdeu uma personalidade

Por

Sérgio Vieira de Mello em coletiva à imprensa, em Genebra, dia 30 de maio 2003.

(Keystone)

Com a morte trágica de Sérgio Vieira de Mello, em Bagdad, Genebra perde uma das grandes figuras das Nações Unidas.

O brasileiro era tido como provável sucessor do Secretário Geral da ONU, Kofi Annan. Pierre de Senarclens, professor na Universidade de Lausanne, era amigo de Sérgio Vieira de Mello.

Depois do atentado contra as instalações da ONU, em Bagdad, o governo suíço condenou "com a mais extremo rigor", esse ato "cego", e reafirmou seu apoio ao trabalho das Nações Unidas no Iraque.

O governo suíço exprimiu também sua consternação pela morte do representante especial da ONU. "Na pessoa de Sérgio Vieira de Mello, as Nações Unidas e a Genebra internacional perdem um grande servidor dos ideais de paz e de justiça que as animam", afirma o comunicado divulgado em Berna, capital suíça.



Sérgio Vieira de Mello tinha começado sua carreira na ONU, em Genebra, em 1969 e deveria voltar em setembro, para o cargo de Alto Comissário da ONU para os direitos humanos, em Genebra, após quatro meses de função no Iraque.

O professor de relações internacionais na Universidade de Lausanne (oeste da Suíça), Pierre de Senarclens, conheceu bem o brasileiro.

swissinfo: O sr. que era um dos amigos dele, como era Sérgio Vieira de Mello?

Pierre de Senarclens: Era um grande servidor das Nações Unidas. Um homem de muita inteligência que trabalhou nas frentes mais difíceis e perigosas nos últimos quinze anos.

Era um homem muito sutil mas que ousava se exprimir quando achava necessário, apesar do direito de reserva imposto por suas funções.

Sua morte é uma grande perda para as Nações Unidas. Ele assumiu no Iraque, com muita coragem, uma missão que sabia que era perigosa e difícil.

swissinfo: Como era o contato com ele?

P. de S.: Ele suscitava um sentimento de amizade e de conivência. Era um homem muito caloroso e tinha muito senso de humor. Dava a impressão de ser um homem de bem e tinha charme e inteligência.

swissinfo: O nome dele circulava como provável substitututo de Kofi Annan. O sr. que isso era realista ?

P. de S.: Essa idéia circulava relamente e ele seria a pessoa ideal para substituir Kofi Annan. Mas existem considerações de repartição geográfica e ninguém pode garantir que ele seria o escolhido.

swissinfo: Certos observadores imaginam que o atentado foi obra da CIA para eliminar um homem que os EUA não queriam no lugar de Kofi Annan...

P. de S.: Nesse tipo de circunstância, sempre voltam todo tipo de paranóia. Pessoalmente, eu não creio nesse cenário. Os Estados Unidos tinham todo interesse em obter a colaboração de Sérgio Vieira de Mello e das Nações Unidas.

Mesmo assim, esse cenário vai certamente circular durante quinze ou vinte ano porque as pulsões paranóicas demoram para desaparecer...

swissinfo: Sérgio Vieira de Mello era uma personalidade da Genebra internacional?

P. de S.: Era uma personalidade que tinha peso. Ele fez boa parte da carreira no Alto Comissariado da ONU para os refugiados, sediado em Genebra, era vice-Secretário Geral e Alto Commissário para os direitos humanos.

Seu desaparecimento vai deixar um grande vazio na Genebra internacional.

swissinfo: Depois do que ocorreu, o que a ONU pode fazer?

P. de S.: Não sei o que a ONU vai fazer mas sei que será muito difícil substituir a experiência, as facilidades de contato e o talento diplomático de Sérgio Vieira de Mello.

Será preciso encontrar uma pessoa que tenha ao mesmo tempo a confiança dos americanos e do administrador americano no Iraque, Paul Bremer, e do Secretário geral da ONU. Um diplomata que saiba das dificuldades encontradas quando da reconstrução de um Estado.

swissinfo: A Suíça privilegia o papel da ONU no Iraque. Depois do atentado isso pode mudar?

P. de S.: Creio que não. A posição de princípio da Suíça, favorável às Nações Unidas, é perfeitamente lógica e tradicional. Não acredito que o atentado terá uma influência sobre a política suíça.

swissinfo: Como o sr. interpreta esse atentado?

P. de S.: A resolução 1483 do Conselho de Segurança, atribuiu à ONU um papel crucial na reconstrução institucional e política do Iraque.

Esse papel é muito delicado, talvez até equivocado, pois o Conselho de Segurança era contra a intervenção militar. De uma certa maneira, agora a ONU apóia os Estados Unidos. E, evidentemente, os que querem as forças da coalisão fora do Iraque, atacam também a ONU.

Esse atentado exprime simbólicamente a vontade um alguns movimentos de prosseguir o confronto com os Estados Unidos e impedir a reconstrução do Iraque.

No fundo, assistimos a extensão do confronto com Al Qaida e as forças terroristas. O Iraque tornou-se um terreno de contronto entre o mundo ocidental, apoiado pelas Nações Unidas, e as forças do fundamentalismo islâmico.

Para mim, isso é conseqüência dessa guerra. Não creio que, no início, o regime de Saddam Hussein estivesse diretamente ligado ao terrorismo internacional.

swissinfo: Nesse contexto, a Suíça não tem outra escolha que apoiar a ONU?

P. de S.: A Suíça não tem uma política bem definida na cena internacional. Ela apóia a ONU, atribui muita importância às atividades humanitárias mas não creio que possa ter um papel específico nessa crise.

Aliás, não tenho certeza se a Suíça tem o pessoal necessário para desempenhar um papel diplomático. A Suíça não tem uma tradição forte de política extrangeira nem de engajamento na cena internacional. Ela entrou tarde nas Nações Unidas e ainda precisa provar a que veio.

Entrevista swissinfo: Pierre-François Besson
(adaptação, Claudinê Gonçalves)

Breves

- Sérgio Vieira de Mello morreu tragicamente no atentado contra o edifício onde funcionava a ONU, em Bagdá, dia 19 de agosto.

- O brasileiro tinha 55 anos, era poliglota, e havia sido nomeado representante especial da ONU no Iraque, dia 23 de maio. Ela era também o Alto Comissário da ONU para os direitos humanos.

- Especialista de problemas humanitários e da reconstrução de países, Sérgio Vieira de Mello trabalhou no Oriente Médio, nos Balcãs, na África e na Ásia.

- Doutor em Filosofia pela Sorbone, em Paris, era homem de terreno e havia começado sua carreira, em Genebra, em 1969, no Alto Comissariado da ONU para os Refugiados.

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