Educação

Lições do modelo suíço de formação profissionalizante

Pessoas formadas em cursos profissionalizantes chegam a chefiar grandes bancos. Alguns se tornam até Presidentes da Confederação. O sistema de formação profissionalizante é renomado internacionalmente e, muitas vezes, a primeira opção para os jovens.

Este conteúdo foi publicado em 19. julho 2020 - 09:00
Philip Schaufelberger (ilustração)

Algumas das figuras famosas que passaram pelo sistema profissionalizante do país incluem o CEO do maior banco suíço UBS, Sergio Ermotti e o ministro suíço das Finanças, Ueli Maurer, que começou sua carreira como escriturário comercial em uma cooperativa agrícola.

Ermotti disse que traz consigo até hoje as lições aprendidas durante seu curso profissionalizante, que ocorreu há mais de 40 anos em um banco de sua cidade natal, Lugano.

"Eu fazia negócios e executava grandes transações. E apesar de ser tão jovem, tive boas oportunidades de crescimento e sucesso", diz o banqueiro em "Jobs Now: Educação e treinamento vocacional estilo suíço". Esse estudo, publicado em 2017, apresenta perfis de executivos suíços que começaram a vida profissional como estagiários. "O curso profissionalizante me ensinou como me comportar no mundo adulto. Aprendi a apreciar o valor da atenção aos detalhes no meu trabalho, e ver como cada tarefa tem muitos componentes, cada um tão importante quanto o outro à sua maneira", conta. 

O sistema dual combina o estágio supervisionado, ou seja, aprendizado no trabalho, com recebimento de um salário de estagiário, além de um a dois dias de teoria na escola. Cerca de dois terços dos alunos que deixam a escola na Suíça optam por uma formação profissionalizante.

E existe a opção de se escolher uma das 230 diferentes carreiras profissionais, que vão desde a restauração até indústrias de alta tecnologia. 

Lacunas

No entanto, alguns pais e alunos acham que os jovens são forçados a fazer uma escolha de carreira cedo demais. “Como um jovem pode saber o que quer fazer na vida aos 14 anos?”, se perguntam alguns. Mas especialistas dizem que fazer um estágio ainda jovem oferece uma valiosa experiência de vida sendo que sempre há a opção de mudar de rumo mais tarde.

Existe pressão em alguns setores da sociedade, especialmente entre expatriados e profissionais com nível universitário, para que as crianças sigam o caminho acadêmico por razões de prestígio. Atualmente, apenas cerca de 20% dos alunos seguem seus estudos em universidades.

As autoridades suíças confiam na solidez do sistema de formação profissionalizante e promovem suas vantagens no exterior. A Suíça sediou um grande congresso internacional de educação vocacional e treinamento profissional (VPET). O último congresso deste tipo, realizado em 2018 em Winterthur, contou com a presença de representantes de Singapura, Moçambique e Índia, por exemplo.

O sistema é reconhecido internacionalmente. A designação como "padrão ouro", muitas vezes citada, vem de um estudo comparativo internacional de sistemas de ensino profissionalizante de 2015, apoiado por Harvard, e que considerou a Suíça a primeira colocada. Muitos jovens profissionais participam regularmente dos concursos internacionais de profissões.

Exportado para o exterior

Então, quem está interessado no método suíço? Os Estados Unidos, por exemplo, se interessam. Em 2016 o presidente Donald Trump investiu 200 milhões de dólares (CHF193,6 milhões) em um projeto de cursos profissionalizante. Empresas suíças - Bühler ou a Daetwyler, dentre elas - já aplicam o sistema de estudo e estágio em suas subsidiárias nos EUA.

"Parece haver um impulso maior dos governos estaduais e do governo federal nos últimos três anos", disse Michael Taylor, gerente de estágios e treinamento da Bühler Aeroglide na Carolina do Norte, em recente entrevista à swissinfo.ch. "As pessoas estão começando a ver o benefício de se combinar a experiência de trabalho com a educação. Acima de tudo, a possibilidade de se fazer uma carreira sem dívidas universitárias". E não apenas o EUA se beneficiam do sistema. 

O governo britânico se comprometeu em 2015 a criar mais três milhões de estágios até 2020, mas hoje já reconhece que este objetivo ambicioso está com o cronograma atrasado. As empresas inglesas também se beneficiariam de um sistema de formação técnica em estilo suíço que começa mais cedo e dura mais tempo, afirma o pesquisador suíço Stefan Wolter em um trabalho de 2018.

E os suíços estão regularmente entre os três países primeiros colocados na competição WorldSkills; uma espécie de Olimpíada para formação técnica e comercial realizada a cada dois anos. Os participantes são vistos como embaixadores do sistema vocacional, nos disseram membros da equipe suíça.

Mas será que funciona exportar o sistema suíço?

Os formuladores de políticas educacionais, e o público em geral em muitos países, incluindo os EUA e o Reino Unido, por exemplo, ainda veem a universidade como o "padrão ouro" para o sucesso na carreira, sugere nosso relatório. Mas muitos países querem tirar algumas lições do exemplo suíço.

Uma mudança de mentalidade ainda seria necessária para a formação profissional, disse Ong Ye Kung, ministro da educação de Cingapura, em uma entrevista de 2018 durante a conferência VPET. Embora alguns progressos tenham sido feitos em Cingapura, ele disse que as autoridades precisavam incentivar mais empresas a treinar seus funcionários.

"O ponto central é nosso objetivo de desenvolver um sistema de carreiras diversificadas, onde nossos jovens possam escolher entre opções dentro do espectro da educação acadêmica e da formação profissional baseada em estágios, e encontrar um caminho que lhes agrade, que alavanque seus pontos fortes e que os ajude a traçar carreiras gratificantes", disse. 

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