Suíços são menos afeitos às "notícias falsas" sobre o Covid-19

Dentre os boatos que existem sobre o novo coronavírus incluem a teoria de que este nunca existiu. Keystone / Nicolas Armer

A desinformação sobre a Covid-19, como a própria pandemia, tornou-se um fenômeno global que, como o vírus, afetou mais alguns países do que outros. Como a Suíça lida com o problema?

Este conteúdo foi publicado em 30. junho 2020 - 12:30

O novo coronavírus seria uma arma biológica criada em um laboratório chinês ou uma invenção do co-fundador da Microsoft, Bill Gates, para lucrar com uma eventual vacina? Ou o vírus é uma fantasia? Um dos líderes dos protestos contrários ao "lockdown" na Suíça chegou a duvidar de sua existência.

Nos últimos meses, os teóricos da conspiração e vozes na mídia alternativa foram ampliados: eles aproveitam-se da crise e das plataformas de mídia social para espalhar boatos e alcançar uma maior audiência.

Tudo isso faria parte da "infodemia", o termo usado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) durante a crise global do novo coronavírus para descrever "o excesso de informações - algumas precisas e outras não - que torna difícil para as pessoas encontrar fontes confiáveis". Alegações não verificadas sobre as origens do vírus, sintomas e curas potenciais tem ocupado verificadores de fatos e autoridades de saúde pública, que por vezes consegue desmascarar seus autores.

Contudo, novas pesquisas sugerem que a desinformação relativa ao Covid-19 na Suíça, embora existente, não é tão difundida como nos países marcados por níveis elevados de polarização da sociedade, baixa confiança nas instituições públicas e instrumentalização da ciência, fatores que levam as pessoas a "compartilhar" alegações não fundamentadas.

Excesso de informações

Para mostrar como a desinformação relacionada Covid-19 se tornou um fenômeno de massas, um estudo publicado no Jornal Britânico de Medicina mostrou que mais de um quarto dos vídeos mais populares do YouTube sobre o coronavírus continha informações enganosas.

Dentre eles, encontram-se vídeos populares de uma empresária da moda Genebra que incentiva seus fãs nas redes sociais a rejeitar as máscaras de proteção facial ou de um consultor "residente nas montanhas suíças", que alega: uma segunda infecção de Covid-19 é letal.

As autoridades sanitárias advertem que "particularmente durante situações de emergência ou crise [...] a informação não verificada se espalha mais rapidamente do que a informação verificada cientificamente". Suas campanhas tentam desmascar algumas afirmações enganosas comuns sobre o Covid-19 através de imagens. FOPH

"Há muita incerteza (em relação ao vírus) entre as autoridades e pesquisadores, o que aumenta a insegurança na população", avalia Edda Humprecht, pesquisadora de comunicação social na Universidade de Zurique.

A teoria de que Bill Gates estaria envolvido na origem do vírus convenceu 8% dos suíços que responderam a uma pesquisa de opinião organizada pela editora Tamedia. Uma proporção impressionante (30%) disse acreditar que o vírus foi criado em um laboratório.

O excesso de informação transparece nas mídias sociais. O Observatório Infodêmico Covid-19, que coletou milhões de tweets em todo o mundo nos últimos seis meses, mostra um aumento acentuado do diálogo na plataforma Twitter sobre o Covid-19 na Suíça, desde o início do surto.

De 1.770 tweets sobre o tema "Covid-19" em 20 de fevereiro de 2020, as atividades saltaram para 8.600 tweets cinco dias depois, quando foi anunciado o primeiro caso confirmado na Suíça. No início de março já eram 10 mil tweets. Os debates sobre o tema no Twitter permaneceram intenso durante todo o período do lockdown, nunca caindo abaixo de seis mil mensagens por dia.

Porém muitos desses tweets - cerca de 40% em alguns dias - vieram de "robôs", usuários automatizados sem status "verificado" no Twitter.

"Em média, os chamados "bots" não verificados são responsáveis por compartilhar, circular e até mesmo 'amplificar', notícias não confiáveis", afirma Manlio DeDomenico, que dirige o observatório na Fundação Bruno Kessler em Trento, Itália.  

Embora a desinformação sobre o vírus seja hoje um fenômeno mundial, alguns países foram mais afetados do que outros, consideram DeDomenico e sua equipe em um relatório publicado em março. A exposição a bots não verificados e notícias não confiáveis (tais como sites de notícias falsas ou clickbait) foi menos intensiva na Suíça do que Itália, Alemanha e EUA, por exemplo.

"Você pode ter milhares de contas com apenas um seguidor, enviando apenas uma mensagem não confiável, e [portanto] ter um baixo 'risco infodêmico'", explicou.

Menos ações, menor alcance

Em outras palavras, mesmo que milhares de bots estejam postando informações falsas, poucas pessoas podem estar realmente vendo ou se envolvendo com elas.

Humprecht avalia que as pessoas na Suíça estavam mais relutantes do que outras em compartilhar informações não confiáveis. É o que demonstrou uma pesquisa realizada em seis países pela Universidade de Zurique e Universidade da Antuérpia, onde ela e outros pesquisadores atuaram. Descoberta: os suíços foram os menos propensos a compartilhar informações falsas sobre o Covid-19 nas mídias sociais (11%) do que os americanos (27%).

Os pesquisadores explicam que a "resistência" a notícias falsas" deve-se à vários fatores.

Um deles é a disponibilidade de fontes de notícias confiáveis. Os suíços confiam de uma forma geral nos meios de comunicação (44%) do que a média global (38%). É o que mostra também o último relatório da Reuters Digital. Durante o lockdown, muitos buscaram se informar nas mídias estabelecidas e nas fontes oficiais de notícias para obter informações, impulsionando o tráfego desses sites.

Embora a mídia na Suíça seja muitas vezes criticada pela classe política, os órgãos de imprensa não são sistematicamente deslegitimados ou rotulados como "fonte de notícias falsas", uma estratégia utilizada por alguns políticos em diversos países, ressaltou Humprecht.

Conteúdo externo

"Quando você não tem fontes de informação confiáveis, o que mais se compartilha são as emoções", analisa Humprecht. As mídias alternativas difundem narrativas simples e polarizantes, nos quais oponentes são criticados. Os usuários compartilham as informações para sinalizar como se sentem. Se as informações são precisas, é de pouca importância.

Sua pesquisa também revelou que os consumidores de mídias alternativas estão mais dispostos a espalhar informações não idôneas. Mas embora esses sites tenham se tornado mais visíveis durante a pandemia e aumentado sua audiência, em geral, continuam sendo "um fenômeno de nicho" na Suíça, disse.

Ciência como arma

De acordo com Humprecht, os usuários mais ativos nas mídias sociais também são mais propensos a se interessarem por informações falsas ou enganosas. Pesquisas realizadas por uma equipe canadense, por exemplo, descobriram que as pessoas que passam mais tempo nas mídias sociais, onde circulam informações equivocadas, tendem a ter mais percepções equivocadas sobre o Covid-19.

Na Suíça, 44% das pessoas afirmam se informar através das mídias sociais, como mostra o relatório da Reuters. Já a média global seria de 55%. Mas a percepção do problema também é elevada: mais de 70% das pessoas entrevistadas pelos pesquisadores disseram estar preocupadas com informações imprecisas sobre o vírus que circulam na rede.

Em alguns países, as pessoas usam as plataformas de mídia social mais como forma de entretenimento do que para se informar. "Você navega e recebe as notícias. É muito fácil clicar no botão 'compartilhar' como forma de enviar uma mensagem emocional sobre um tema", considera Humprecht. Trata-se de um comportamento mais comum nos EUA do que na Suíça, acrescentou.

A polarização da sociedade, relativamente baixa na Suíça, tem um papel importante na capacidade do público de "resistir" às falsas informações. Em sociedades altamente polarizadas, as pessoas confiam, sobretudo, nos órgãos de imprensa preferidos, mas que também podem apresentar "uma realidade desvirtuada" e dificultar o público de diferenciar o falso do verdadeiro, acrescenta Humprecht.

Nesse ambiente, a ciência pode ser utilizada como uma "arma". Os políticos podem questionar a autoridade dos especialistas, por exemplo, e incentivar o público a buscar explicações em outros lugares ou curas alternativas.

Os suíços, por outro lado, têm um elevado grau de confiança na ciência, como mostram as pesquisas de opinião. Elas revelam que a população aprovou o gerenciamento da crise pelo governo, que no início do surto chegou a criar uma força-tarefa científica para coordenar conselhos e pesquisas sobre o Covid-19.

ONU: "Faça atenção antes de compartilhar"

A ONU criou um grupo de voluntários encarregados de combater à desinformação em relação ao Covid-19. Intitulado "Share Verified", o projeto de "colaboração social" permite que pessoas comuns divulguem informações factuais sobre o vírus. Qualquer pessoa pode se inscrever para receber informações verificadas e depois compartilhá-las nas redes sociais.

"A boa comunicação pode salvar pessoas. A desinformação pode destruir vidas", declarou Melissa Fleming, chefe de comunicação da ONU, na conferência internacional anual (virtual) de checadores de fatos, Fato Global 7, realizada em junho.

Fleming ressaltou que a ONU quer intensificar os trabalhos do grupo Share Verified para encorajar os usuários das mídias sociais a "examinar o que veem e verificar se a fonte é confiável ou se trata apenas de uma resposta emocional que está sendo manipulada."

"Como Nações Unidas, lutamos para que as pessoas no mundo possam obter informações confiáveis, factuais e baseadas em fatos científicos sobre as questões ligadas ao Covid-19", acrescentou.

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