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A pandemia expôs a fragilidade dos mais velhos

A pandemia destacou a falta de reconhecimento social em relação às pessoas idosas. © Keystone / Gaetan Bally

Em 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) chamou a crise de saúde do coronavírus de pandemia. Um ano e mais de 2,6 milhões de mortes depois, um olhar retrospectivo sobre um flagelo que atingiu mais duramente os idosos.

Este conteúdo foi publicado em 12. abril 2021 - 10:00
Marcela Aguila Rubín e Norma Domínguez

"A pandemia está causando medo e sofrimento indescritíveis entre as pessoas idosas em todo o mundo", dizia um relatório das Nações Unidas, em maio passado, sobre o impacto da Covid-19 sobre os idosos.

Pesquisadores, associações e a mídia relataram esses efeitos prejudiciais e mostraram como a preocupação com a segurança dos idosos levou a interpretações errôneas. Essas interpretações levaram à estigmatização, isolamento e vulnerabilidade daqueles que supostamente deveriam ser protegidos.

"Muitas injustiças foram cometidas contra os idosos. Eles se sentiram culpados pela cessação das atividades, pelos problemas econômicos resultantes e pelo fato das pessoas terem que ficar em casa", lamenta o Professor Christian MaggioriLink externo, coordenador da Comissão Científica da "Haute École de travail social" de Fribourg (HETS-FR).

Hoje, um ano após o início de uma pandemia que parece interminável, Christian Maggiori ressalta: "A crise mostrou o pior e o melhor das pessoas. No lado positivo, há alguns exemplos muito bons de solidariedade, especialmente dos idosos que ajudaram os mais isolados fazendo compras para eles, preparando alimentos para eles ou levando-os ao médico.

Escuta

Christian Maggiori codirigiu o relatório científico "Les 65 ans et plus au coeur de la crise Covid-19Link externo", dedicado à primeira onda da pandemia.

O estudo, que envolveu mais de 5.000 idosos de 65 a 98 anos na Suíça francófona, revelou o impacto da crise: um aumento da precariedade dos mais vulneráveis, um aumento da sensação de solidão, de ser considerado um fardo pela família e amigos, bem como a preocupação de ser mal visto pela sociedade.

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O objetivo da pesquisa, realizada entre 17 de abril e 3 de junho, era dar voz àqueles de quem se fala mas não são ouvidos. Esta situação não é exclusiva da Suíça.

"Precisamos consultar as pessoas mais velhas para aproveitar seus conhecimentos e assegurar que elas estejam plenamente envolvidas na formação das políticas que afetam suas vidas", diz o relatório da ONU.

Revolta dos cabelos brancos

Em diferentes países, como a Colômbia, onde surgiu a chamada "revolta dos cabelos brancos", os idosos têm lutado por este direito.

Um grupo de septuagenários denunciou medidas para trancar os idosos como uma violação de seus direitos à igualdade, à liberdade de movimento e à livre expressão de sua personalidade. Um juiz se pronunciou em favor deles.

Na Argentina, "caímos ao outro extremo" na tentativa de proteger os idosos, diz María Isolina Dabove, especialista em direito da terceira idade da Faculdade de Direito da Universidade de Buenos Aires.

Ela aponta para o fato de que pessoas com mais de 70 anos tiveram que pedir permissão para deixar suas casas e cuidar de suas necessidades básicas na capital argentina. "Este pedido de permissão adicional, somente para eles, foi-lhes imposto com base em um preconceito da 'velhice' que viola diretamente a igualdade nas condições de exercício de seus direitos", comenta a jurista.

Na França, em meados de maio, a decisão de prorrogar o confinamento dos maiores de 65 anos "por um período indefinido de tempo" causou uma onda de descontentamento. A psicóloga Marie de HennezelLink externo descreveu a decisão como "injusta e arbitrária".

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Retrocesso dramático

Um dos fenômenos que mais consternou Christian Maggiori foi o enfraquecimento da valorização dos aposentados. Este é um retorno à visão de trinta ou quarenta anos atrás, quando os idosos eram considerados um grupo homogêneo, sem levar em conta sua trajetória de vida, seu estado de saúde, sua situação familiar, seus múltiplos perfis.

"Muitos idosos que eram independentes sentiram que não eram mais independentes". Pela primeira vez, eles começaram a se sentir velhos. De repente, eles se encontraram em um grupo onde não se encaixavam", diz o psicólogo da idade.

As pessoas que costumavam cuidar de seus netos ou realizar atividades voluntárias não podiam mais funcionar, acrescenta ele. Elas foram deixadas à margem da sociedade, escolhidas arbitrariamente por restrições para retardar a propagação da pandemia.

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"O sentimento contra os idosos arraigado em nossas sociedades veio à tona", disse Rosa Kornfeld-Matte, especialista independente da ONU para a promoção dos direitos humanos entre as pessoas mais velhas.

Isto é "evidente na linguagem cruel e desumanizante que circula nas mídias sociais [como a hashtag #BoomerRemover citada em várias pesquisas, incluindo a do HETS-FR] e na insistência em destacar a vulnerabilidade das pessoas mais velhas, ignorando sua autonomia".

Falta de reconhecimento social

"Foi uma injustiça esquecer as contribuições dos idosos para a boa economia da Suíça", diz Christian Maggiori.

Em países sobrecarregados por emergências sanitárias, esta atitude assumiu proporções dantescas: "Notícias de idosos abandonados ou cadáveres encontrados em lares de idosos são chocantes; tais eventos são inaceitáveis", denunciou Rosa Kornfeld-Matte.

A especialista da ONU expressou sua preocupação com as pessoas que, devido à sua situação precária de saúde e econômica, "se encontram em uma situação de marginalização" e correm o risco de serem ainda mais marginalizadas como resultado de medidas de proteção. "O distanciamento social não deve se transformar em exclusão social", advertiu ela. "Devem ser encontradas formas criativas e seguras de aumentar a conexão social", tais como o uso da Internet.

A pesquisa HETS-FR mostrou que muitos idosos aprenderam ou melhoraram suas habilidades com as novas tecnologias a fim de permanecer em contato com seus entes queridos. No entanto, nem todos os idosos na Suíça têm acesso a elas, nem milhões de outros em outros países.

Desigualdades estruturais

"Esta pandemia expôs as desigualdades estruturais que compõem as condições de vida das pessoas idosas", diz María Isolina Dabove. "A falta de acesso a programas de alfabetização digital, por exemplo, impediu que elas se comunicassem desta forma. É evidente que a maioria dos idosos foi excluída por razões fora de seu controle".

A jurista argentina também menciona a "disparidade" das políticas adotadas em diferentes países em relação aos idosos. Por um lado, ela explica, existe o reconhecimento do direito à cobertura sanitária e, por outro, a exclusão do cuidado "com base em uma interpretação negativa desta etapa da vida que considera os idosos como objetos a serem jogados fora".

Adaptação: Fernando Hirschy

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