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Consertar injustiças do passado Dar a palavras às vítimas das separações forçadas

Vítimas do sistema social posam para uma foto frente ao Parlamento helvético em 31 de março de 2014, em Berna. 

(Keystone)

Até 1981 na Suíça, 100 mil crianças vivendo em situação de pobreza foram recolocadas em outras famílias ou abrigadas em instituições. Hoje, cada vez mais vítimas do sistema superam a vergonha para reivindicar o reconhecimento da injustiça cometida e também exigir indenizações. Na reportagem a seguir, você vai conhecer quatro dessas histórias.

São nove horas da manhã e faz frio nesse verão chuvoso. Ele espera frente à sua residência, com a gola levantada e se aperta, com seus 1 metro e 90 de altura, dentro do veículo. O destino é o cantão do Valais. "Lá irei encontrar quatro pessoas". Esse grandalhão com ares esportivos se chama Clément Wieilly, fundador da Associação Agir pela DignidadeLink externo e membro do grupo de trabalhoLink externo criado pelo governo federal em 2013 para ajudar as vítimas das recolocações forçadas e medidas de coerção com fins de assistência social. Além disso, faz parte do comitê da iniciativaLink externo que exige a criação de um fundo de indenização de 500 milhões de francos.

Temos uma hora e meia pela frente, tempo para ele me contar a história da sua infância roubada. Durante a viagem recebe inúmeros telefonemas no seu celular. 

Testemunho de Clément Wieilly Depoimento 1

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"Nasci em Friburgo em 1954 em uma situação de grande miséria e fui entregue à assistência pública aos três anos de idade, junto com meus dois irmãos.

Sofri de desnutrição, maus-tratos físicos e abusos sexuais. Mas, acima de tudo, de falta de afeto. Ao lado do orfanato havia uma caserna do exército. Um dia, eu estava sozinho no jardim e um oficial, trajando um belo uniforme, falou comigo. No dia seguinte ele me trouxe um brinquedo e eu perguntei-lhe se ele não queria ser o meu pai. Ele respondeu-me, dizendo que não era tão simples.

Aos 14 anos fui viver em uma fazenda. Lá era preciso trabalhar sem cessar. Assim acabava dormindo na hora da aula. Em três anos ganhei 15 francos. Depois retornei à instituição, onde fiz um aprendizado de funileiro, mas tive de parar com o trabalho após quatro anos devido a problemas de saúde. O que me ajudou na vida foi o esporte. Graças a esse esforço me tornei professor de educação física.

Uma vez que tive acesso aos arquivos, descobri que a minha mãe não tinha desaparecido como eles me diziam, mas que havia sido abandonada pelo meu pai, um vagabundo, e assim não podia nos alimentar. Ele pediu ajuda, mas não deram; as autoridades nos separaram. Eu também descobri que tinha uma irmã de 66 anos no cantão da Argóvia. Eu a encontrei e foi uma grande emoção!"

"Sou um lutador"

Para Clément Wieilly, tudo começou na primavera de 2013. Foi quando a ministra suíça da Justiça, Simonetta Sommaruga, convidou as antigas vítimas para participar de uma cerimônia oficial de retratação. "É estranho o que me aconteceu. Foi um acaso na vida. Fui então à Berna e decidi fazer algo."

As mídias se interessam por sua história. Seu nome circula. "Minha midiatização atraiu a atenção de outras vítimas e, nesse dia, representava as 500 pessoas que me contataram. Em dez meses, percorri seis mil quilômetros para recolher seus testemunhos e ajudar-lhes a ter acesso à sua história escondida nos arquivos."

Trata-se também de ajudar o grupo de 10 mil a 20 mil antigas vítimas que ainda estão vivas. O grupo de trabalho criou um fundo de urgência em agosto, à espera que o Parlamento suíço se pronuncie sobre a criação de um verdadeiro fundo de indenização.

A ideia da associação surgiu naturalmente. Presidida por Úrsula Schneider Schüttel, deputada federal do Partido Socialista, ela representa as vítimas frente às autoridades. Clément Wieilly dedica uma boa parte do seu tempo trabalhando para ela. "Com a distância, me tornei menos emocional. Distanciei-me da minha própria história, pois quero dar toda minha energia a essas pessoas."

Testemunho de Rose-France Depoimento 2

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"Nasci em Lausanne em 1943. Era a caçula em uma família com cinco crianças. Todos fomos colocados em um orfanato. Naquela época não se deixavam filhos com mães solteiras ou mães pecadoras, como se dizia.

Aos dois meses fui deixada no berçário e depois, aos dois anos, em um convento. Fui educada a chutes e socos. Ninguém pagava minha pensão e então era preciso trabalhar e rezar. Quando alguém fazia xixi na cama, ela devia depois lavar os lençóis. Aos trezes anos, quando estava indisposta, uma freira quis se ocupar da minha higiene pessoal. Eu fugi para a casa da minha mãe, mas ela estava casada com um legionário que bebia e me batia. Eu fui colocada na rua aos 15 anos. Minha irmã mais velha me ajudou, mas não terminei a escola. Eu consegui arrumar alguns bicos até que um conhecido me propôs um emprego em um banco. Eu aproveitei essa chance e trabalhei lá até 2000.

Eu vi o meu pai quatro vezes. A última vez foi em 1969 (ele morreu em 1970). Eu me sentei ao lado dele de propósito e ele não me reconheceu. Eu me casei com um homem que me batia e então acabei ficando só com duas crianças. Meu filho conhece a minha história, mas não disse nada a minha filha. Ela é muito revoltada. Ela está debilitada após um acidente e tenho medo que eles tomem seu filho de 14 anos. É como se esse círculo nunca se quebrasse e minha história sempre voltasse à tona. O que me ajudou? A raiva."

Encontro com a Rose-France

Nesse meio tempo começou a chuviscar, mas já chegamos a Sierre. São 11 horas da manhã, o GPS conseguiu encontrar a casa. Em calça jeans e camiseta, ela aparenta ser mais jovem do que os seus 71 anos. Rose-France nos recebe em seu apartamento decorado de budas, onde ela vive com o segundo marido. Na mesa estão espalhadas revistas em quadrinhos. Com a voz trêmula, ela conta a sua história de abandono, punições físicas, incontinência urinária, pão seco e o medo do escuro. "O pior foi a falta de amor e termos nos sentindo culpados, quando na verdade éramos as vítimas", diz.  

Clément Wieilly convida Rose-France para a próxima assembleia da associação. Ele lhe entrega folhas de assinaturas para a iniciativa popular. Ao mesmo tempo fala do fundo de ajuda imediata de quatro a 12 mil francos distribuídos pelo grupo de trabalho através da Cadeia da FelicidadLink externoe (uma fundação humanitária da Sociedade Suíça de Radiodifusão e Televisão - SRG SSR). "Eu não pedi nada, pois não cumpro as condições exigidas", explica Rose-France. De qualquer maneira, isso não vai curar o que vivi". Mas se receber algo, ela iria "onde houvesse sol". Ou compraria um veículo usado para a filha deficiente.

Testemunho de Rose-Marie Testemunho 3

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"Fomos colocadas em um orfanato, onde éramos maltratadas, tínhamos fome e as freiras eram transferidas a cada quatro anos para não criarem vínculos.

Aos 14 anos fui levada a uma família de agricultores para cuidar dos seus vinte filhos. As condições eram terríveis e eu não era paga. Eu estava tão ignorante da minha situação que nem sabia que a gente poderia receber um salário. Eu fugi, fui recolocada em outra família, depois expulsa de novo e aí continua.

Aos vinte anos fui contratada como empregada doméstica em Lausanne. Lá me ocorreu um infortúnio: foi quando fui a uma festa com uma colega, onde fomos estupradas e depois engravidamos.

Minha chefa não tinha crianças, mas me demitiu sem dar um tostão. Na noite de Natal eu queria me jogar de uma ponte. Eu já havia passado uma perna pela balaustrada e lá, meu bebê me deu um pontapé pela primeira vez. Então jurei me ocupar dele, mas ele estava traumatizado pela nossa vida na rua durante cinco anos. Eu não falava bem o francês e as pessoas me detestavam por ser da parte germanófona da Suíça. Eu dormia nas igrejas e me limpava nas fontes. Eu passava o dia descascando grãos para dar aos pássaros. Eu ia lamber os pratos sujos dos restaurantes do Uniprix. Finalmente, eles me deram um alojamento. Então trabalhei com barraqueiros em um parque de diversão. Eles me ensinaram a vender e depois me transformei em demonstradora de aparelhos eletrodomésticos."

...Rose-Marie e Gilbert

Deixamos Rose-France almoçar com seu marido. Às 14 horas, Rose-Marie chega à estação de trem de Sion. Aos 78 anos, ela precisa de uma bengala para andar. "Fui agredida há dois anos. Foi quando me arrancaram a bolsa e quebrei o quadril e alguns dentes. Como tenho um problema cardíaco, ninguém quer me operar. Só vivo infortúnios", lamenta. Nós vamos a um café para escutar a história de Rose-Marie, com detalhes extraordinariamente precisos, intercalados por lágrimas e risos de autoironia.

"Faz-me bem sair de tudo isso", conclui Rose-Marie com um sorriso, olho brilhante e combativo. "Meu único desejo é denunciar o que me aconteceu. Em um país rico como a Suíça, nunca encontrei um sentimento de humanidade". Rose-Marie recebe apenas a sua aposentadoria básica e está decidida a lutar por indenizações, começando pela ajuda imediata. Clément Wieilly vai ajudá-la a preparar seu dossiê e resolver a papelada.

"Questiono-me porque estou no planeta"

São 17 horas. Chegamos ao hospital de Sion, onde Gilbert, 82 anos, passa períodos prolongados nesses últimos quatro meses. Foi uma enfermeira que contatou Clément Wieilly. A história de Gilbert é mais sucinta do que as anteriores, mas também muito parecida: divórcio, tutelado, punições físicas, inferno...Com longas pausas, a cabeça virada sobre o travesseiro, mas também com alguns lampejos de humor. 

Coerção

Crianças transferidas à força: menores oriundos de famílias pobres, órfãos ou nascidos fora do matrimônio eram abrigados à força em instituições ou famílias hospedeiras, muitas das quais de agricultores.

Detenções administrativas

As autoridades podiam ordenar, sem julgamento ou direito a pedido de recurso, o internamento de menores em estabelecimentos fechados por tempo indeterminado, com fins de reeducação pelo trabalho.

Ataques aos direitos reprodutivos

Até os anos 1970, abortos e esterilizações forçadas eram praticados por razões sociais ou de eugenia.

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"É bom que aconteça algo. Ninguém se interessava na época de se inteirar da situação. A indiferença era total. O que mais me chocou foi o comportamento das pessoas. Questiono-me porque estou nesse planeta. Eu era incomodado o tempo todo."

Gilbert trabalhou na Rede Ferroviária Suíça. Ele é viúvo, pai de três filhos e avô. Ele vive em um camping, mas recusa-se a receber qualquer forma de ajuda financeira. "Tenho um trailer, dois gatos e assim está muito bem". Seus netos pediram-lhe que contasse sua história, mas eles não se interessam realmente. "Eu compreendo as pessoas que têm vergonha de falar, pois tudo isso é...muito duro. É bom de ter um pouco de reconhecimento, mas se alguém quiser me dar dinheiro, eu o darei ao Exército da Salvação. Eu nunca pedi ajuda. Esse é o meu temperamento e eu sempre ensinei o que é direito aos meus filhos."

Nós saímos do hospital. O sol já se pôs. E, portanto, alguns dias antes da publicação da reportagem, uma triste notícia nos chega: Gilbert faleceu após uma longa enfermidade. Clément Wieilly está chocado e, ao mesmo tempo, revoltado: "Gilbert não teve tempo de fazer um pedido de ajuda às autoridades. As coisas andam devagar para as vítimas, pois elas são idosas e frequentemente muito pobres e com pouca saúde. É preciso que as pessoas compreendam que é uma corrida contra o relógio."

Longo caminho

1981: após a ratificação (em 1974) da Convenção Europeia dos Direitos Humanos (CEDH), a Suíça renuncia às práticas que permitem a internação (em instituição ou penitenciário), a coibição do direito de procriação (castrações e abortos forçados), assim como a adoção ou a recolocação familiar.

Abril de 2013: o governo federal se desculpa oficialmente perante as vítimas de recolocações forçadas e medidas de coerção para fins de assistência social.

Junho de 2013: criação de um grupo de trabalho integrando as partes envolvidas, incluindo igrejas e a União Suíça de Agricultores.

Março de 2014: lançamento de uma iniciativa popular "para a indenização", exigindo a criação de um fundo de 500 milhões de francos. No início de setembro ela já havia recolhido 60 mil assinaturas das 100 mil necessárias.

Julho de 2014: o grupo de trabalho apresenta um relatório e um catálogo de medidas. Dentre elas: a atribuição de uma prestação financeira única de quatro a doze mil francos através de um fundo de ajuda imediata de sete milhões, financiado pelos cantões, cidades e comunas. Os pagamentos começaram através da Chaîne du Bonheur (fundação humanitária da SRG SSR). O número de pedidos é avaliado em mil até junho de 2015.

Agosto de 2014: entrada em vigor da Lei federal sobre a reabilitação de pessoas recolocadas por decisão administrativa. Ela reconhece a injustiça feita, cria o projeto de pesquisa SynergiaLink externo e garante o arquivamento como a abertura dos dossiês das vitimas.

Indenização: o grupo de trabalho poderá solicitar ao Parlamento de se pronunciar sobre uma lei, cujo principal objetivo seria o pagamento de um montante fixo associado a um complemento à pensão AVS, levando em conta a situação específica de cada beneficiário. Esta base jurídica poderá entrar em vigor em 2017, um ritmo extraordinariamente rápido para a Suíça.

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Adaptação: Alexander Thoele, swissinfo.ch

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