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Pesquisadores contam população sem-teto pela primeira vez

Este abrigo feito de galhos e barracas antigas, às margens do rio Arve em Genebra, é atualmente o lar de um jovem morroquino. Mark Henley / Panos Pictures

A falta de moradia é um fenômeno difícil de abordar e quantificar. Alguns países e cidades mantêm registros ou fazem grandes esforços para ajudar as pessoas que vivem nas ruas, enquanto outros parecem fazer pouco. Apesar de ser um país rico, a Suíça não está imune ao problema. Quantas pessoas em situação de rua vivem na nação alpina? Uma primeira pesquisa nacional espera encontrar a resposta. 

Este conteúdo foi publicado em 03. janeiro 2021 - 09:00

Alguns países, cidades e autoridades locais fazem muito para ajudar as pessoas em situação de rua. No Canadá, um grupo de sem-teto recentemente recebeu uma doação única em dinheiro de $ 7.500 (CHF5.200) como um experimento social para ajudá-los a se reerguer. 

O projeto New Leaf selecionou 50 pessoas que vivenciaram recentemente a falta de moradia na área de Vancouver e deu a elas o equivalente à taxa de assistência de renda anual praticada na Colúmbia Britânica. O estudo descobriu que, um ano depois, em comparação com um grupo de controle que não havia recebido dinheiro, os beneficiários viviam melhor: com maior estabilidade de moradia, segurança alimentar e menos dependência de serviços sociais. 

O direito à moradia adequada está inscrito na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, mas estima-se que 150 milhões de pessoas em todo o mundoLink externo vivem desabrigadas. E apesar da fama do país rico, a Suíça não é exceção: a cada inverno, conforme as temperaturas caem e os abrigos de emergência não conseguem atender à demanda por camas quentes, reaparece o debate sobre o número de pessoas que vivem nas ruas. 

Em uma das cidades mais caras da Europa, vários moradores de barracas dormem e se banham escondidos sob uma ponte. Mark Henley/panos Pictures

Uma população difícil de definir 

Embora não seja uma tarefa fácil quantificar com sucesso a falta de moradia em todo o país, muitos países na Europa e em outros lugares publicam pelo menos uma estimativaLink externo. Em 2017, os Estados Unidos relataram uma população sem-teto de 553.700 (0,17% da população geral), enquanto havia 6.635 na Dinamarca (0,11%) e 11.000 na Coreia do Sul (0,02%). Outros países mencionam apenas a taxa de pobreza - a Suíça está entre eles. 

Pesquisadores da Universidade de Ciências Aplicadas do Noroeste da Suíça (FHNW) estão atualmente realizando o primeiro estudo nacional para estabelecer uma estimativa de pessoas vivendo em situação de rua na Suíça. A equipe liderada pelo professor Jörg Dittmann iniciou o projeto no início de 2020 e espera ter os primeiros resultados reunidos no próximo semestre. O núcleo do estudo consistiu em uma série de entrevistas presenciais realizadas durante a primeira semana de dezembro. 

A pesquisa na prática  

“Estávamos tentando atingir uma população muito difícil de alcançar: não podemos enviar um questionário às pessoas se elas não têm casa, o que é uma técnica de pesquisa padrão”, explica Christopher Young, que coordenou as entrevistas. 

Um universo paralelo é visível sob a Ponte das Acácias (Pont des Acacias) no rio Arve, que corre através de Genebra para encontrar o rio Ródano. Este grupo oculto de barracas é habitado por jovens do Marrocos, Argélia e Líbia. Mark Henley/panos Pictures

“Apenas dar a eles um questionário de 10 páginas e uma caneta não ia funcionar. Normalmente essas pessoas têm outras preocupações”, afirma Young, destacando como o idioma e a escolaridade também podem diferir nessa população. “Claro que houve pessoas que se recusaram a participar. Mas, em geral, houve muita boa vontade para com os entrevistadores”. 

Metodologia

Os pesquisadores selecionaram 50 instituições em seis grandes cidades suíças - Genebra, Lausanne, Basel, Bern, St Gallen e Lugano. Sopas, abrigos de emergência e instituições médicas foram visitados por 85 entrevistadores, que se sentaram com as pessoas e lhes aplicaram um questionário curto e outro mais longo, seguindo o modelo de entrevista anônima estruturada. 

Os participantes receberam CHF 5 (US $ 5,66) para preencher um questionário de 15 minutos, que funcionou como um filtro para identificar aqueles que haviam dormido fora ou em um abrigo de emergência na noite anterior. Estes, considerados o grupo-alvo dos sem-teto, foram então convidados a preencher um segundo questionário mais longo por CHF10. 

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Em algumas instituições, pelo menos metade das pessoas presentes aceitou responder às perguntas dos entrevistadores. “Acho que a atitude geral positiva em relação ao estudo mostra que [a participação] não foi principalmente uma questão financeira, mas também uma oportunidade para as pessoas contarem sua história e falarem sobre si mesmas, mesmo que seja uma entrevista estruturada”, diz a pesquisadora. 

Os dados das entrevistas ainda não foram analisados, mas a equipe acompanhou o volume geral de hóspedes dessas instituições, a fim de avaliar o percentual que participou da pesquisa. Seus resultados intermediários serão comparados com os números fornecidos pelas instituições municipais que lidam com os sem-teto, antes que os números finais sejam calculados. 

Desafios da pesquisa 

A forma como as pessoas em situação de rua são tratadas varia de país para país. Dittmann, que chefiou o projeto FHNW, também faz parte da Rede Europeia de Medição de Desabrigados na EuropaLink externo, podendo assim comparar metodologias e encontrar a melhor forma de pesquisar o tema na Suíça. 

“Em Berlim, Paris ou Bruxelas, eles fizeram grandes pesquisas nas ruas onde as pessoas contaram os sem-teto dormindo do lado de fora”, explica Young. “Decidimos não fazer isso por vários motivos, principalmente porque não tínhamos recursos suficientes”. 

Os países do norte da Europa são mais consistentes em suas pesquisas. “Existem países escandinavos que registram a falta de moradia. Acho que da Dinamarca vemos números regularmente a cada dois anos. Mas sempre há definições diferentes e cada definição e cada método de contagem de moradores de rua sempre tem suas lacunas”, diz Young.  

Um morador de rua ao lado do rio Arve, embaixo da Ponte das Acácias, em Genebra, onde ele dorme. Mark Henley/panos Pictures

Na Suíça, os dados disponíveis geralmente dizem respeito apenas a uma instituição e raramente a uma cidade inteira. Uma pesquisa anterior feita pela mesma universidade estimou que cerca de 100 pessoas dormem fora ou em abrigos de emergência em Basel. A cidade de Zurique estimou que pelo menos uma dúzia de pessoas dormem nas ruas durante todo o ano. 

O que vem depois 

Se a falta de moradia é difícil de encontrar e quantificar, não significa que seja inútil abordá-la. Pelo contrário: “Nosso objetivo é fornecer dados para a mudança social, certamente para revisar ou mesmo criar uma política para os sem-teto”, diz Young. “Esse pode ter sido um motivo que motivou algumas pessoas a participarem; certamente foi uma motivação para algumas instituições”. Para que uma situação mude, ela primeiro precisa ser conhecida. 

Em uma resolução adotada em 24 de novembroLink externo, parlamentares europeus em Bruxelas conclamaram a UE e seus estados membros a erradicar a falta de moradia até 2030. A Suíça ainda não tem uma política nacional contra a falta de moradia. Os pesquisadores esperam que seus resultados tragam uma mudança nas políticas. 

“Uma direção que poderíamos definitivamente seguir para melhorar a situação seria oferecer aos moradores de rua uma abordagem mais integrada”, destaca Young, explicando como, apesar da miríade de instituições que atendem às suas necessidades hoje, a população ainda é obrigada a estar constantemente em movimento de um ponto quente para outro.

Adaptação: Clarissa Levy

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