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A maldição do cacau: escravidão moderna nas terras do sem-fim

A indústria do cacau no Brasil avança, mas as condições de trabalho permanecem atrasadas.
A indústria do cacau no Brasil avança, mas as condições de trabalho permanecem atrasadas. AFP

Destaques da semana na imprensa suíça: multinacional de chocolate zuriquenha sai manchada em processo trabalhista. Brasileiros vivem mais graças à genética. A parte que cabe ao Brasil na valorização do ouro. O cinema de Kleber Mendonça Filho e os quadrinhos de Marcelo Quintanilha. Confira aqui.

A parte que lhes cabe neste latifúndio

As autoridades brasileiras libertaram nove pessoas de condições semelhantes à escravidão em uma fazenda de cacau em setembro de 2017, iniciando um processo judicial contra uma subsidiária do grupo suíço de chocolates Barry Callebaut. Em segunda instância, a empresa foi condenada a pagar uma multa equivalente a 75 mil francos.

As condições que as autoridades descobriram entre os produtores de cacau nos estados brasileiros do Pará e da Bahia eram, em alguns casos, deploráveis. Famílias inteiras trabalhavam na fazenda, incluindo crianças. As pessoas viviam em abrigos precários que representavam um “grave risco à saúde”. A água que retiravam de um poço raso para cozinhar e beber estava poluída. Recebiam um salário mínimo e só podiam vender os grãos de cacau a compradores designados por seus empregadores.

O processo ocupa os tribunais trabalhistas brasileiros há vários anos. As autoridades brasileiras acusam a subsidiária de ter comprado indiretamente cacau de fornecedores que exploram pessoas, incluindo a fazenda mencionada. O caso foi levado aos tribunais depois que a subsidiária da gigante suíça se recusou, em 2020, a assinar um acordo extrajudicial proposto pelo Ministério do Trabalho.

Em sua denúncia, as autoridades brasileiras escrevem que a filial da Barry Callebaut “ignora as graves violações evidentes dos direitos humanos cometidas na base da cadeia de produção, a fim de obter lucros mais elevados”.

Questionada sobre o processo judicial em andamento, a sede da Barry Callebaut em Zurique recusa-se a responder a perguntas específicas. Em uma declaração geral, o serviço de imprensa enfatiza, no entanto, que condena “veementemente todas as formas de violação dos direitos humanos na cadeia de abastecimento do cacau, bem como todas as práticas que exploram crianças e adultos ou que os expõem a condições nocivas ou perigosas”.

O grupo garante ter incorporado a proteção dos direitos humanos em sua estratégia de desenvolvimento sustentável. Como maior produtor mundial de chocolate, “nosso objetivo claro é combater o trabalho infantil e suas causas a longo prazo”, continua a empresa.

Para as autoridades brasileiras, este caso reveste-se de grande importância. É extremamente raro que elas visem grupos situados no final da cadeia de produção. Luciano Aragão, procurador e coordenador para a abolição da escravatura moderna, declarou ao “Repórter Brasil” sobre o julgamento em última instância que se aproxima.

“É uma decisão importante. Ela pode criar um precedente para obrigar as empresas dominantes a prevenir eficazmente as violações dos direitos humanos em suas cadeias de abastecimento.” Grupos como a Barry Callebaut não seriam simples compradores de cacau. “Eles dominam o mercado, controlam a produção, de modo que também têm uma parte da responsabilidade nessa cadeia.”

Fonte: 24heures.chLink externo, 26.01.2026 (em francês)

Vida dura, vida longa

Um novo estudo publicado na revista “Genomic Psychiatry” revela que o Brasil tem um número particularmente elevado de centenários, apesar das condições de vida difíceis. “Muitos dos participantes são provenientes de regiões desfavorecidas e têm acesso limitado a cuidados de saúde modernos ao longo da vida”, indica o estudo.

Os pesquisadores ficaram surpresos ao ver o quanto os entrevistados estavam, mesmo assim, em boa forma física e mental. “Eles eram capazes de realizar as tarefas diárias de forma autônoma.”

Mas por que essas pessoas vivem tanto tempo? Mais de 160 centenários foram examinados e entrevistados para entender esse fenômeno. E a resposta está no sistema imunológico. Ele continua funcionando tão bem quanto em pessoas significativamente mais jovens. “Os processos de limpeza celular permanecem ativos e eficazes, ajudando a prevenir o acúmulo de proteínas danificadas.”

Além disso, os cientistas observaram uma proliferação anormal de certos linfócitos T. Trata-se de uma descoberta única, raramente observada mesmo em jovens. Além disso, foram identificadas variantes raras de genes importantes relacionados à imunidade. Consequências: os centenários são particularmente resistentes a doenças, como a Covid-19.

De fato, três centenários resistiram bem à infecção, mesmo antes do desenvolvimento da vacina contra a Covid-19. A razão pela qual essa resistência é tão pronunciada pode estar relacionada à diversidade genética de um país marcado pela colonização e por numerosas ondas de imigração.

“Pesquisa recente identificou mais de 8 milhões de variantes genômicas até então desconhecidas na população brasileira, em todas as faixas etárias”, indica o estudo.

Embora os pesquisadores não forneçam recomendações concretas para ultrapassar os 100 anos, Blick oferece uma breve visão geral dos conselhos dos centenários.

Fonte: BlickLink externo, 25.01.2026 (em francês)

Ouro do Brasil, e do mundo

Reportagem do diário zuriquenho Neue Zürcher Zeitung (NZZ) sobre a apreciação da cotação do ouro no mercado internacional destaca o comportamento de vários bancos centrais, inclusive o do Brasil:

O preço do ouro parece ter perdido completamente o contato com a realidade. Em 2025, o valor do metal precioso subiu 65%, para US$ 4.319 por onça. O ouro atingiu 53 recordes históricos. Desde o início do ano, a corrida do ouro se intensificou ainda mais. Na quarta-feira, o preço atingiu mais um recorde, com US$ 5.311 por onça, o que corresponde a um aumento vertiginoso de 23% desde o início do ano.

Os fatores fundamentais para essa evolução são as incertezas geopolíticas e geoeconômicas. Entre elas estão o imprevisível presidente americano Donald Trump, que provoca conflitos comerciais e ataca a independência do Banco Central dos EUA (Fed). Também estão incluídas as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, bem como os períodos de fraqueza econômica na Europa e na China.

O Brasil também aumentou suas reservas de ouro sob o presidente Lula da Silva, após uma pausa de quatro anos. Entre setembro e novembro, o país sul-americano adquiriu 43 toneladas. O momento foi uma coincidência?

Poucos meses antes, havia ocorrido um grave desentendimento político entre o Brasil e os EUA, porque Donald Trump queria encerrar o processo contra o ex-presidente de direita Jair Bolsonaro com a ameaça de uma tarifa punitiva.

Além disso, no ano passado, o Cazaquistão, o Azerbaijão, a Turquia, a China e a República Tcheca aumentaram suas reservas. Entre os vendedores, por outro lado, estavam Cingapura, com 15 toneladas, a Rússia, com 6 toneladas, e o Banco Central Alemão, que vendeu uma tonelada para seu programa de moedas.

Fonte: NZZLink externo, 29.01.2026 (em alemão)

Grande cinema e a ditadura

O diário genebrino Le Temps publicou uma longa entrevista com o cineasta recifense Kleber Mendonça Filho, cujo último filmo O Agente Secreto vem arrasando os tapetes vermelhos do mundo do cinema, de Cannes ao Oscar.

Depois de Ainda Estou Aqui, de seu compatriota Walter Salles, vencedor do Oscar de melhor filme internacional em 2025, Kleber Mendonça Filho também aborda em O Agente Secreto os anos de chumbo da ditadura brasileira (1964-1985).

Os dois filmes se tornaram “a vitrine do cinema brasileiro”, avalia o cineasta em entrevista por videoconferência de Recife. Essa metrópole do nordeste brasileiro, onde o diretor nasceu em 1968, é o cenário não só de O Agente Secreto como de quase todos os seus filmes.

Cineasta de esquerda e apoiador declarado de Lula, o diretor de Aquarius e Bacurau estabelece uma ligação entre o sucesso atual do cinema brasileiro e o retorno ao poder do líder de esquerda Luiz Inácio Lula da Silva em 2023. “A cultura foi erradicada no Brasil sob o governo de extrema direita de Jair Bolsonaro”, condenado no ano passado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.

Ele explica ter percebido que sua obra encontrou eco diante de uma “lógica de Brasil vinda do passado. Em plena democracia no século XXI, um grupo de políticos decidiu reeditar a iconografia, as palavras, os modos de agir e a ausência de ética do regime militar. Qualquer história sobre o uso do poder para oprimir as pessoas será sempre universal”, continua ele, evocando a persistência de agressões e abusos de poder. “O que choca é que continuamos cometendo os mesmos erros.”

O presidente Lula, por sua vez, elogiou “um filme essencial para não deixar cair no esquecimento a violência da ditadura”. Mas o cineasta brasileiro se defende de ter querido fazer um filme político: “Se você faz um filme ou conta uma história de maneira honesta, franca e informada, provavelmente contribuirá para uma melhor compreensão do país ou da sociedade. Meus filmes contribuíram para o debate de certa forma, mas não foram concebidos para isso.”

Fonte: Le TempsLink externo, 24.01.2026 (em francês)

O craque brasileiro das BD

O termo “quadrinhos” é quase desrespeitoso para com uma arte que já há décadas atingiu um grau de sofisticação e lirismo peculiares. Na França, o gênero é chamado de “BD” (bandes dessinés, ou tiras desenhadas em tradução literal), em inglês se usa o termo “graphic novel” (romance gráfico).

Seja como for, um dos autores mais festejados do Brasil, Marcelo Quintanilha, tem mais uma obra sua editada em francês, Eldorado, ganhando uma resenha no jornal regional La Gruyère:

Página de "Eldorado", de Marcelo Quintanilha, traduzido para o francês.
Página de “Eldorado”, de Marcelo Quintanilha, traduzido para o francês. © Le Lombard, 2026

No Brasil dos anos 1950, em plena transformação, a vida das classes mais modestas não se assemelha a uma partida de bola na praia. A violência se torna um fato cotidiano e o futuro nem sempre é promissor. Alicio administra a mercearia da família com pulso firme.

A vida não é fácil, mas há honra e dignidade em levá-la bem. Seus dois filhos têm dificuldade em encontrar seu lugar e cada um sonha em trilhar um caminho diferente: Luiz Alberto é a ovelha negra, anda com más companhias e cai na delinquência. Hélcio, ao contrário, sonha com o Eldorado, com uma ascensão social tão eficaz quanto implacável: ele quer se tornar jogador de futebol profissional.

Depois de receber o prêmio Fauve d’or em 2022 com Escuta, Formosa Márcia, o autor brasileiro Marcello Quintanilha mergulha no passado de seu país com um relato amplo, ao mesmo tempo drama social e histórico, um policial neorrealista, como ele o chama, que traça a evolução dessa família ao longo de vinte anos, enquanto o país se submete à ditadura. Poderoso e sem concessões.

Fonte: La GruyèreLink externo, 29.01.2026 (em francês)

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