Da pena de Bolsonaro à terra preta
Em contraste com um mundo marcado por guerras entre vizinhos, a América Latina construiu uma tradição de não agressão entre Estados, baseada no direito internacional, argumenta o escritor colombiano Héctor Abad Faciolince. Sua opinião foi um dos destaques da semana na imprensa suíça.
Nesta edição da nossa revista de imprensa, reunimos quatro reportagens publicadas na Suíça que ajudam a entender como o Brasil e a região seguem no centro de debates globais sobre democracia, guerra, comércio e meio ambiente. Vem com a gente: o mundo anda olhando mais para o Sul do que parece.
Congresso aprova lei para reduzir pena de Bolsonaro
O Congresso brasileiro aprovou um projeto de lei que pode reduzir significativamente a pena do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. O texto, apresentado pela maioria conservadora, foi aprovado no Senado por 48 votos a 25 e já havia passado pela Câmara, apesar de fortes críticas e protestos que reuniram dezenas de milhares de pessoas no país.
A proposta pode diminuir a condenação de Bolsonaro para pouco mais de dois anos, além de prever benefícios a apoiadores condenados pelos ataques de 8 de janeiro de 2023 em Brasília. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode vetar a lei, mas o Congresso tem poder para derrubar o veto. Aliados de Bolsonaro veem a medida como um “primeiro passo”, enquanto opositores classificam a votação como uma farsa e negam acordos políticos por trás da aprovação.
O julgamento de Bolsonaro agravou a crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos, resultando em sanções e tarifas americanas sobre produtos brasileiros. O ex-presidente cumpre pena desde novembro em Brasília e, segundo autoridades judiciais, ainda pode permanecer anos preso antes de qualquer redução efetiva. O artigo foi produzido pela agência France-Presse (AFP) e publicado em diversos veículos da imprensa suíça.
Fonte: Le MatinLink externo, rts.chLink externo e 24heures.chLink externo, 18/12/2025 (em francês)
Latino-americanos podem ser acusados de muitas coisas, mas não são belicosos
Publicado no jornal NZZ, o jornal mais prestigioso da Suíça, o artigo sustenta que a América Latina é, em contraste com outras regiões do mundo, amplamente imune à praga global da guerra, caracterizada por conflitos regionais recorrentes e invasões entre países vizinhos.
O texto é assinado por Héctor Abad Faciolince, nascido em Medellín em 1958, um dos mais importantes escritores colombianos contemporâneos. Partindo da atual tensão envolvendo os Estados Unidos e a Venezuela, o autor observa que, apesar de seus muitos problemas históricos e estruturais, a América Latina desenvolveu uma tradição singular de não agressão entre Estados, especialmente desde o início do século 20.
Abad reconhece exceções marcantes, como a devastadora Guerra da Tríplice Aliança no século 19 e a breve e simbólica “guerra do futebol” entre Honduras e El Salvador, mas ressalta que, fora esses episódios, a região permaneceu praticamente livre de guerras interestatais, ao contrário da Europa, da Ásia, da África e da América do Norte.
Segundo o autor, esse pacifismo não deriva de virtudes morais dos governantes, mas de uma sólida tradição jurídica: ao longo de mais de um século, juristas latino-americanos consolidaram o respeito ao direito internacional, à soberania nacional e à inviolabilidade das fronteiras. Por isso, mesmo em contextos de forte antagonismo político, como entre Colômbia e Venezuela no passado ou entre líderes atuais da região, a guerra entre países vizinhos permanece impensável.
Fonte: nzz.chLink externo, 17/12/2025 (em alemão)
Agricultores bloqueiam várias rodovias na França
Publicado no NZZ, o artigo explica que a conclusão do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul está sob risco, em razão da forte oposição de agricultores europeus – especialmente na França – que temem a concorrência de carne bovina e de aves mais baratas da América do Sul.
O texto descreve como um surto de doença bovina na França intensificou a insatisfação no campo, já mobilizado contra o acordo com Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Os abates sanitários determinados pelo governo provocaram protestos violentos, bloqueios de estradas e confrontos com a polícia, enquanto a circulação de desinformação agravou o clima político. Diante da pressão dos agricultores, o presidente Emmanuel Macron passou a exigir garantias adicionais para o setor agrícola e pediu o adiamento da votação do tratado na UE. Itália e Polônia também se opõem ao acordo, o que levanta a possibilidade de fracasso de um texto negociado há cerca de 25 anos.
O tema é de interesse direto para a Suíça, destaca o NZZ, porque o Acordo de Livre Comércio entre o Mercosul e a EFTA – que reúne Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein – foi assinado em setembro de 2025, após oito anos de negociações. O tratado prevê a eliminação de tarifas sobre 97% das exportações, facilitando o acesso de produtos como chocolates e medicamentos suíços e bacalhau norueguês aos mercados sul-americanos, criando um amplo espaço comercial e fortalecendo as trocas econômicas. No entanto, assim como o acordo UE–Mercosul, o tratado com a EFTA ainda depende de aprovações parlamentares para entrar em vigor.
Fonte: nzz.chLink externo, 16/12/2025 (em alemão)
Como a terra preta pode salvar nossos solos
Publicado no jornal germanófono Tages-Anzeiger, de Zurique, o artigo do correspondente Francesco Schneider-Eicke mostra como uma antiga técnica agrícola da América do Sul, conhecida como terra preta, oferece respostas contemporâneas para a degradação dos solos e para o combate às mudanças climáticas.
O texto explica que esses solos extremamente férteis foram criados por populações indígenas da Amazônia entre 500 e 2.500 anos atrás, a partir da compostagem de resíduos orgânicos misturados com carvão vegetal (biochar). Essa combinação permite que nutrientes, água e microrganismos fiquem retidos no solo por séculos, evitando a lixiviação típica de solos tropicais e mantendo a fertilidade a longo prazo sem necessidade de fertilização constante.
Com base em pesquisas lideradas pelo cientista alemão Bruno Glaser, o artigo destaca que a terra preta pode ajudar a restaurar solos degradados – um problema global que afeta cerca de 40% das terras do planeta e até 90% dos solos agrícolas da União Europeia. Além de melhorar a estrutura do solo e sua capacidade de retenção de água, o biochar também atua como um depósito duradouro de carbono, contribuindo para a redução do CO₂ na atmosfera.
Segundo o Tages-Anzeiger, estudos indicam que o uso em larga escala do biochar poderia capturar volumes de carbono comparáveis às emissões anuais de grandes países industrializados. O texto ressalta, porém, que o efeito positivo depende de um passo essencial: o carvão precisa ser previamente compostado com resíduos orgânicos. Assim, a técnica ancestral amazônica surge não apenas como uma curiosidade histórica, mas como um modelo sustentável para a agricultura e a política climática do futuro.
Fonte: tagesanzeiger.chLink externo, 14/12/2025 (em alemão)
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Publicaremos nossa próxima revista da imprensa suíça em 9 de janeiro de 2026. Enquanto isso, tenha um bom fim de semana e boa leitura!
Até o ano que vem!
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