Portugal: a eleição presidencial mais incerta da história
A semana foi dominada pelo Fórum Econômico Mundial (WEF), mas ao ler a imprensa suíça, descobri um tema por trás dos bastidores: a eleição presidencial em Portugal e os resultados do primeiro turno.
Alguns correspondentes em Lisboa veem nas eleições presidenciais em Portugal a confirmação de que nem mesmo as democracias autoproclamadas “estáveis” estão imunes às tensões sociais e ao avanço do populismo. No fim das contas, a pergunta é a de sempre: quem leva essa? A direita ou a esquerda? A resposta soa menos como um projeto político e mais como um capítulo extra da interminável novela europeia, com reflexos garantidos no restante do continente.
No Brasil, Jair Bolsonaro virou o gancho para a retomada do debate sobre a ressocialização pela leitura no sistema penal: se o ex-presidente, agora presidiário, ler alguns romances, pode deixar a prisão mais cedo. Para completar o cardápio da semana, a postergação do acordo entre a União Europeia e o Mercosul evidenciou que, no jogo do liberalismo, são os agricultores europeus que dão as cartas.
Parlamento Europeu paralisa acordo UE-Mercosul
O Parlamento Europeu decidiu, por margem apertada, submeter o acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul ao Tribunal de Justiça da União Europeia para análise jurídica. A medida pode atrasar a ratificação por até dois anos, embora a Comissão Europeia não descarte uma aplicação provisória. O tema teve ampla repercussão na imprensa suíça, especialmente no portal Schweizer Bauer, que destacou os riscos para os agricultores europeus.
Assinado no Paraguai após mais de 25 anos de negociações, o acordo cria uma das maiores zonas de livre comércio do mundo e busca reduzir tarifas e barreiras comerciais entre a UE e o Mercosul. O texto, porém, enfrenta forte resistência de setores agrícolas na Europa, que temem uma guerra de preços com produtores sul-americanos. Para conter críticas, a Comissão Europeia incluiu cláusulas de salvaguarda e monitoramento reforçado de importações sensíveis, como carne bovina, aves, açúcar e arroz.
Na América do Sul, os ganhos esperados são sobretudo para o agronegócio. Em entrevista, a correspondente de TV pública Teresa Delgado explica que produtores de carne e laticínios terão melhor acesso ao mercado europeu, ainda que limitado por cotas reduzidas para evitar desequilíbrios. Já setores industriais, como o automotivo no Brasil e na Argentina, criticam o acordo e temem a concorrência europeia, motivo pelo qual a abertura tarifária será gradual.
Segundo Delgado, mais do que exportações imediatas, o acordo é visto na região como um selo de confiança e estabilidade, capaz de atrair investimentos e reforçar o multilateralismo. O tratado se aplica, por ora, apenas a Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai; países associados, como Chile e Colômbia, ficam de fora, enquanto Bolívia e Venezuela permanecem excluídas por razões políticas e institucionais.
Fonte: schweizerbauer.ch, 21/01/2026Link externo (alemão) e srf.ch, 17.01.2026Link externo (alemão)
Como a trader Mercuria quer monetizar as florestas do Brasil
Uma reportagem investigativa de fôlego publicada pelo Le Magazine, da ONG suíça Public Eye, joga luz sobre o novo “negócio verde” da Mercuria, gigante do comércio de petróleo e gás com sede em Genebra. O texto questiona até que ponto a empresa, que chega à COP30 se apresentando como defensora da Amazônia, está de fato protegendo florestas — ou apenas abrindo uma nova frente altamente lucrativa.
No centro da investigação está um contrato confidencial no estado do Tocantins, que prevê a geração de até 50 milhões de créditos de carbono até 2030. Documentos obtidos pela Public Eye indicam que a Mercuria teria amplo controle sobre a estrutura do programa J-REDD: define preços, recebe comissões, tem direito a descontos e ainda manifesta a intenção de comprar 100% dos créditos emitidos. O resultado, segundo a ONG, é um modelo que pode concentrar a maior parte dos lucros na trading suíça.
Enquanto isso, comunidades indígenas, quilombolas e agricultores familiares denunciam falta de consulta prévia, pressão para aceitar o projeto e riscos de “apropriação verde” de terras. As críticas chegaram ao Ministério Público Federal, que analisa pedidos de suspensão do programa. Nem mesmo representantes do agronegócio local estão convencidos: para eles, o sistema não protege a natureza e transforma a floresta em ativo financeiro.
A reportagem também aponta conflitos de interesse e fragilidades institucionais em um estado com histórico recente de corrupção, além de problemas semelhantes em projetos apoiados pela Mercuria no Pará e no Peru. A conclusão é incômoda: no mercado global de créditos de carbono, a Amazônia virou o novo Eldorado e o “carbono verde” pode render mais aos traders do que às florestas ou às comunidades que vivem nelas.
Fonte: Public Eye – Le Magazine, 21/01/2026Link externo (francês)
Ex-presidente do Brasil: Bolsonaro pode reduzir sua pena de prisão se ler livros
Achei bastante curiosa, embora trate de um tema sério, a reportagem sobre a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a mais de 27 anos por tentativa de golpe. O texto, publicado por diversos jornais europeus, entre eles o Tages-Anzeiger e o Basler Zeitung, chama atenção para um detalhe pouco conhecido fora do país: no Brasil, presos podem reduzir a pena lendo livros e escrevendo resenhas.
Pela lei brasileira, cada detento pode obter até 48 dias de desconto por ano se ler 12 livros, escolhidos de uma lista oficial definida pelo Conselho Nacional de Justiça. O catálogo vai de clássicos como Tolstói, Dostoiévski, Kafka, Orwell e Shakespeare a obras brasileiras contemporâneas, como Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves. No caso de Bolsonaro, não basta pegar qualquer leitura leve: só valem títulos previamente autorizados, ainda que entre eles esteja também o livro infantil ilustrado Democracia!, de Philip Bunting.
A reportagem adota um tom irônico ao questionar se a leitura, por si só, torna alguém mais sábio, empático ou democrático, lembrando que a história está cheia de leitores assíduos que cometeram atrocidades. Entre reflexões literárias e comentários mordazes sobre o ex-presidente, o texto acaba revelando um contraste típico do Brasil: um sistema penal marcado por desigualdades, mas que aposta, ao menos no papel, na leitura como ferramenta de ressocialização. Uma ideia curiosa, sem dúvida e cheia de ambiguidades.
Fonte: tagesanzeiger.ch, 20/01/2026Link externo (alemão)
Em Portugal, a eleição presidencial mais incerta da história
Na minha avaliação, este foi o tema mais importante da semana nos jornais suíços sobre o espaço lusófono: a eleição presidencial em Portugal, que pela primeira vez desde 1986 será decidida em segundo turno. O correspondente Vicent Barros relata que o socialista António José Seguro (31% dos votos) e o nacionalista André Ventura (23%) avançaram para a rodada decisiva de 8 de fevereiro, num cenário amplamente repercutido pela imprensa suíça. A participação de 53%, a mais alta em 20 anos, confirmou o caráter excepcional de uma disputa considerada a mais incerta da história democrática do país.
O duelo opõe dois estilos e dois projetos quase antagônicos. Seguro, ex-líder socialista afastado da política há uma década, construiu seu retorno com um discurso de moderação, estabilidade institucional e unidade democrática, apresentando-se como candidato “livre” das máquinas partidárias. Ventura, líder do partido de extrema direita Chega, encarna a principal força de ruptura do sistema político português: confrontacional, polarizador e defensor de uma leitura maximalista dos poderes presidenciais, não exclui sequer uma revisão constitucional. Para analistas citados por Barros, trata-se de uma escolha simbólica entre moderação e radicalismo, democracia liberal e populismo.
Na análise publicada pela jornalista Marie Giovanola no portal da RTS, o avanço da extrema direita deve ser lido à luz de um mal-estar social persistente: crise da habitação, precarização do trabalho, envelhecimento da população, imigração acelerada e escândalos políticos. Embora o presidente em Portugal tenha poderes sobretudo simbólicos, Giovanola lembra que sua função de árbitro institucional dá peso político à eleição. Mesmo que Ventura tenha dificuldades para vencer no segundo turno, sua presença na final já representa um marco: o fim definitivo da ideia de que Portugal seria uma exceção europeia à ascensão da extrema direita.
Fonte: letemps.ch, 19/01/2026Link externo; laliberte.ch, 18/01/2026Link externo; rts.ch, 18/01/2026Link externo (francês)
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Publicaremos nossa próxima revista da imprensa suíça em 23 de janeiro de 2026. Enquanto isso, tenha um bom fim de semana e boa leitura!
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