Problema suíço na governança paquistanesa
Investigada por corrupção e lavagem de dinheiro, Benazir Bhutto acaba de ser anistiada pelo regime paquistanês. Mas ela e seu marido continuam inculpados em Genebra.
De fato, a provável futura primeira ministra do Paquistão, com regresso ao país anunciado para 18 de outubro, é acusada pela justiça suíça de lavagem de dinheiro. Em Genebra, foram sequestrados 12 milhões de dólares.
Daniel Zappelli, procurador geral de Genebra, poderá ser confrontado a um dilema nas próximas semanas: mandar ou não uma personalidade política de primeiro plano para o Tribunal Correcional, sendo que ela foi anistiada em seu próprio país.
Mas, por outro lado, foi a pedido da República Islâmica do Paquistão, em novembro de 1977, que a justiça de Genebra bloqueou as contas bancárias da família Bhutto. O motivo era a suspeita de enriquecimento através de propinas nas concorrências públicas na gestão de Benazir Bhuto.
No caso, foram contratos importantes obtidos no Paquistão em 1994 por duas empresas suíças, a Socidade General de Vigilância (SGS) e a Cotecna.
Dossiê no procurador de Genebra
Para os três juízes de instrução de Genebra que se sucederam nesse processo nos últimos dez anos, Daniel Devaud, Christine Junod e Vincent Fournier, Benazir Bhutto e seu marido receberam 12 milhões em contas abertas na Suíça em nome de empresas sediadas nas Ilhas Virgens e no Panamá.
A ex-primeira ministra do Paquistão até comprou uma jóia por 117.000 libras esterlinas (280 mil francos suíços) com dinheiro sacado da conta de uma dessas empresas.
Vincent Fournier confirma que trabalha atualmente na conclusão do processo que deverá ser enviado brevemente ao procurador-geral, Daniel Zapelli.
Primeiro, Benazir Bhutto e seu marido foram indiciados por “lavagem simples” de dinheiro mas, em 2004, a inculpação foi transformada em “lavagem de ofício”, nuance que torna o caso imprescritível.
O marido de Benazir Bhutto, Asif Zardari, que foi ministro dos investimentos estrangeiros, era apelidado de “Mister 10%, em razão das comissões cobradas nos contratos estatais.
Uma anistia criticada na Suíça
“É curiso constatar que durante dez anos o Paquistão insistiu que deveria ser feito justiça. E agora, quando houve uma mudança de aliança política, a senhora Bhuto a anistiada!”, afirma Vincent Fournier.
Essa anistia não é uma notícia muito boa para Dominique Henchoz, advogada em Genebra da República Islâmica do Paquistão. Islamabad vai pedir que ela retire a queixa?
“É preciso esperar, afirma, para conhecer a formulação exata empregada no decreto de reconciliação nacional. Porque falar de anistia não significa que não houve, anteriormente, ato de corrupção?”.
Por sua vez, Benazir Bhutto, que está no exílio desde 1999 entre Dubaï e Londres, esteve três vezes em Genebra. Ela persiste em negar totalmente os fatos de que é acusada. Será que ela vai pedir a restituição dos 12 milhões de dólares? E, se for o caso, qual será a atitude da Suíça?
Para Alec Reymond, advogado de Benazir Bhutto, a situação está clara: a partir do momento em que não há crime na origem “não pode haver lavagem de dinheiro. O processo de Genebra está chegando ao fim”.
Na Suíça, a justiça é independente
De sua embaixada instalada – como as demais – no vasto enclave diplomático, oásis de calma no coração da capital paquistanesa, Markus Peter, o novo embaixador, não demonstra estar excessivamente inquieto.
“Eu acho que vão me fazer algunas perguntas mas vou responder que o Ministério das Relações Exteriores não está diretamente implicado no dossiê. Na Suíça, a justiça é independente”, sublinha o diplomata experiente.
No entanto, ele deverá ser pressionado. Essas pressões poderão vir, em primeiro lugar, dos Estados Unidos. Foram os estadunidenses que pressionaram o presidente, general Pervez Musharraf, no pode desde o golpe de Estado de 1999 e reeleito sábado passado, a autorizar o regresso de Benazir Bhutto.
Washington estima que, dada a degradação da situação no Paquistão, a eleição de uma mulher como primeira-ministra atenuará a imagem desastrosa da ditatura militar.
Indiciada em seu país por corrupção e lavagem de dinheiro, a líder do PPP – cujo retorno ao país é previsto para 18 de outubro – exigiu ser anistiada antes de assinar um acordo de “reconciliação nacional” com Pervez Musharraf.
swissinfo, Ian Hamel, de Islamabad
1994 A SGS e a Cotecna assinam contratos com o Paquistão
1997 Pedido de colaboração judiciária do Paquistão à Suíça
1998 Benazir Bhutto e seu marido indiciados no Paquistão e na Suíça
1999 O casal é condenado a 5 anos de prisão em Lahore (Paquistão)
2001 A Corte Suprema cassa o julgamento
2004 Casal é inculpado por lavagem de dinheiro “por ofício”, em Genebra
2007 Benazir Bhutto é anistiada em seu país
Pervez Musharraf, que acaba de ser reeleito presidente do Paquistão, assinou sexta-feira passada um “decreto de reonciliação” que abre a possibilidade para um acordo de divisão do poder com a ex-primeira ministra no exílio Benazir Bhutto.
Benazir Bhutto pourrait retomar o cargo de primeira ministra graças a uma aliança entre seu partido o partido do general Musharraf, nas eleições legislativas previstas no início de 2008.
Benazir Bhutto é de uma família rica da província de Sind, filha do ex-primeiro ministro Ali Bhutto, enforcado pelos militares em 1979.
Ela foi primeira ministra duas vezes, de 1988 a 1990 e de 1993 a 1996. Ela foi a primeira mulher a dirigir o governo de um país muçulmano, de 160 milhões de habitantes.
Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch
Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch
Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!
Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.