The Swiss voice in the world since 1935

Ricos e mal informados: por que suíços jogam comida no lixo

Muitos alimentos são desperdiçados nos lares suíços.
Cada habitante da Suíça deita fora, em média, cerca de 600 francos suíços de alimentos comestíveis por ano. Illustration: Kai Reusser / SWI swissinfo.ch

Apesar de anos de campanhas de conscientização e de um projeto nacional para reduzir o desperdício, grandes quantidades de alimentos comestíveis vão das cozinhas suíças diretamente para o lixo.

Em uma nublada manhã de terça-feira, nas imediações de Friburgo, na Suíça, veículos adentram a unidade local de coleta de resíduos. Os porta-malas dos carros vão sendo abertos e sacos caem sobre o concreto, provocando um ruído surdo. Moradores separam rapidamente papel, metal e vidro, a etapa visível do sistema de reciclagem.

O que não se encontra naquele lugar é o lixo doméstico, normalmente descartado pelas pessoas nas proximidades da própria casa. Embora o conteúdo desses sacos não fique visível para quem vê de fora, pesquisadores do governo têm uma ideia a respeito.

A cada dez anos, o governo federal delega um estudo, no qual pesquisadores abrem milhares de sacos de lixo que são descartados em todo o país. O conteúdo é separado, pesado e classificado, inclusive os itens alimentícios individualmente. Os dadosLink externo constituem a base do relatório Monitoring der Lebensmittelverluste in der Schweiz: um documento sobre o desperdício de alimentos no país.

Embora a última pesquisa de 2025 aponte para uma queda no lixo doméstico, os números da Suíça continuam altos, e o país está muito aquém de suas metas de redução da quantidade de alimentos comestíveis que são jogados fora.

“Se os alimentos não pesam muito no bolso, as pessoas tendem a desperdiçar mais.”

Claudio Beretta

“Não estamos no caminho certo”, diz Claudio Beretta, cientista ambiental que estuda o desperdício de alimentos na Suíça há mais de uma década e foi o principal autor do último relatório sobre o assunto. “Há avanços na direção correta, porém ainda insuficientes”, observa o pesquisador.

Durante anos, muitos esforços de redução concentraram-se em áreas mais fáceis de regulamentar e mensurar, como o comércio varejista e a produção alimentar. No entanto, pesquisas mostram cada vez mais que o maior impacto ambiental e o maior potencial de redução estão nas cozinhas particulares.

Custos financeiros e ambientais

O desperdício acontece em todas as etapas do sistema alimentar: nas propriedades agrícolas, durante o processamento, no transporte, no comércio e nas residências. Em 2017, o governo suíço se comprometeu a reduzir pela metade o desperdício evitável até 2030. Desde então, o país diminuiu o desperdício em apenas 5% em todo o sistema alimentar.

De acordo com o último relatório de monitoramento, o volume de alimentos encontrados nos sacos de lixo doméstico caiu cerca de 12% na última década. No entanto, os domicílios ainda representam a maior parte do impacto ambiental do desperdício alimentar, uma vez que os alimentos carregam as emissões de etapas anteriores.

E a quantidade de resíduos nas residências suíças ainda é significativa. Cada residente suíço descarta, em média, 600 francos suíços em alimentos comestíveis por ano. Um relatório de 2024 do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) constatou que a Suíça gera cerca de 119 kg de resíduos alimentares, em média, por pessoa em casa, enquanto a média da Europa Ocidental fica em torno de 80 kg.

Conteúdo externo

Um país que desperdiça, porque pode

Parte da explicação para o desperdício excessivo é a riqueza. As famílias suíças gastam somente entre 7% e 9% de sua renda com alimentação. Em países onde as pessoas dispendem mais dinheiro com alimentos, o desperdício é muito menor.

“Quando os alimentos praticamente não pesam no bolso, as pessoas tendem a desperdiçar mais”, comenta Beretta.

Uma forma de evitar o desperdício é limitar as compras. No período que antecede o Natal, uma pesquisaLink externo realizada pela empresa de redução de desperdício alimentar Too Good To Go constatou que 41% das pessoas na Suíça compram mais alimentos do que precisam durante as festas de fim de ano.

Outra maneira de reduzir o desperdício é prestar mais atenção na deterioração dos alimentos. Estudos realizados pela Universidade de Ciências Aplicadas de Zurique (ZHAW) apontaram que cerca de 20% do desperdício alimentar doméstico é causado por um mal-entendido sobre as datas de validade indicadas nas embalagens. Esses rótulos não são avisos de segurança, mas garantias de qualidade do fabricante. Os clientes devem verificar se os alimentos ainda estão bons após essas datas, em vez de supor imediatamente que estariam estragados.

“A data de validade é a data de segurança”, diz Beretta. “Todo o resto diz respeito à qualidade. Você pode confiar nos seus sentidos”, alerta o especialista.

Composto deitado fora num contentor numa instalação de resíduos
Os suíços deitam fora cerca de 119 quilos de alimentos comestíveis por pessoa em casa. Kristian Foss Brandt

Alguns varejistas tomaram medidas para limitar seus resíduos, flexibilizando padrões estéticos, congelando a carne antes da data de validade e melhorando a logística. De acordo com o Departamento Federal do Meio Ambiente (BAFU, na sigla original), os resíduos no varejo caíram cerca de 20%. O varejo representa, porém, apenas uma pequena parcela do impacto ambiental total do desperdício de alimentos, enquanto os domicílios são responsáveis por quase metade. Portanto, as conquistas no varejo não compensam a escala de resíduos das residências.

Durante anos, a redução do desperdício alimentar concentrou-se em setores mais fáceis de regulamentar e mensurar. Para evitar o desperdício alimentar em casa, os defensores da causa afirmam que é fundamental esclarecer não só como ocorre o desperdício, mas também onde ele se dá.

“A tendência das pessoas em subestimar o volume de alimentos que desperdiçam em suas próprias casas é um dos maiores desafios”, diz Ladina Schröter, diretora de programas domésticos da foodwaste.ch, uma organização que visa reduzir o desperdício de alimentos na Suíça. “Muitas vezes é mais fácil reconhecer o problema em outros lugares do que admitir a própria contribuição”, acrescenta Schröter.

Em vez de repetir mensagens gerais de conscientização, a foodwaste.ch concentra-se em intervenções práticas, como ajudar as famílias a planejar refeições, armazenar alimentos corretamente e interpretar adequadamente os rótulos com datas. A organização tem como objetivo traduzir descobertas científicas em medidas práticas. Pesquisas apontam repetidamente lacunas entre as intenções das pessoas e seu comportamento real, quando o assunto é o desperdício de alimentos.

“Não existe uma solução única”, afirma Schröter. “O desperdício de alimentos ocorre em muitos pontos, e isso significa que precisamos de muitas pequenas mudanças, repetidas e reforçadas”, completa a especialista.

Mostrar mais

Experiências de outros países sugerem que essa estratégia pode funcionar em longo prazo. Nos lugares onde o desperdício doméstico de alimentos diminuiu, os esforços tendem a ser mantidos ao longo do tempo, no lugar de campanhas pontuais.

Na Holanda, uma semana de ação nacional realizada todos os anos alinha municípios, varejistas, escolas e chefs de cozinha em torno das mesmas mensagens, a fim de combater o desperdício de alimentos. No Reino Unido, a campanha de longa duração “Love Food, Hate Waste” (Ame a comida, odeie o desperdício) combinou financiamento público com auditorias domésticas e medições regulares, evidenciando aos consumidores não apenas que o desperdício ocorre, mas de que forma ele acontece.

O Japão incorporou a redução do desperdício alimentar na legislação, exigindo medições municipais e o envolvimento do público. A Dinamarca transformou a economia de alimentos em uma norma social, apoiada por redes de compartilhamento de alimentos e empresas como a Too Good To Go.

O que essas abordagens têm em comum não é uma política ou ideia única, mas sim a consistência. O investimento é sustentado, as mensagens se repetem e os esforços se ampliam. A Suíça, por outro lado, muitas vezes lançou iniciativas fortes sem se comprometer com elas em nível nacional.

O que continua sem solução

Na unidade de coleta de resíduos perto de Friburgo, uma mulher que descarregava suas sacolas, quando questionada sobre o que a ajudaria a desperdiçar menos alimentos, respondeu: “Acho que eu teria que fazer compras com mais frequência, mas comprar quantidades menores de cada vez”.

É uma resposta simples, mas que reflete muito aquilo que os dados mostram: as decisões domésticas, incluindo o quanto as pessoas compram, armazenam e planejam, formatam o desperdício em todo o sistema alimentar.

A Suíça ainda tem tempo para cumprir sua meta até 2030. Se isso vai de fato ocorrer é algo que dependerá menos da conscientização e mais do combate sistemático ao desperdício de alimentos nas residências – por meio de políticas sustentáveis, verbas e empenhho em longo prazo, no lugar de campanhas pontuais.

Em todo o sistema alimentar, o desperdício de alimentos evitável na Suíça chega a cerca de 310-330 kg por pessoa por ano. Aproximadamente 35% deste desperdício ocorre no âmbito doméstico.

Em todo o sistema alimentar, o desperdício alimentar evitável na Suíça gera cerca de 500 mil a 700 mil toneladas de emissões equivalentes de CO₂ por ano.

De acordo com o Departamento Federal do Meio Ambiente, o desperdício alimentar representa cerca de 14% do impacto ambiental do sistema alimentar suíço.

O desperdício alimentar no nível doméstico tem um impacto especialmente intenso no clima, uma vez que todas as emissões provenientes da agricultura, processamento, transporte e refrigeração já ocorreram.

Desperdiçar um quilo de carne causa 20 a 30 vezes mais emissões de gases de efeito estufa do que desperdiçar um quilo de vegetais.

Fontes: Departamento Federal do Meio Ambiente (BAFU); avaliações do ciclo de vida ETH Zurique; PNUMA.

Mostrar mais

Debate
Moderador: Philipp Meier

Como podemos reduzir o desperdício de alimentos?

Um terço de todos os alimentos do mundo é jogado fora. O que podemos fazer?

3 Curtidas
36 Comentários
Visualizar a discussão

Edição: Gabe Bullard/sb

Adaptação: Soraia Vilela

Mais lidos

Os mais discutidos

Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!

Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR