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(Arquivo) O presidente argentino, Mauricio Macri

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Os primeiros seis meses de governo do presidente da Argentina, Mauricio Macri, revelam uma guinada de 180 graus sobre as políticas de sua antecessora, Cristina Kirchner (2007-2015), ao privilegiar o estímulo aos mercados apesar do custo das tensões sociais.

Macri empreendeu um ambicioso programa de reformas, as 'Macrinomics', inspiradas no ideário liberal de direita. Ele diz que encontrou a terceira economia da América Latina em péssimo estado, com um déficit orçamentário de 6%. Consultoras privadas estimam que neste ano déficit será igual ou até mais alto do que isso.

Sua mudança é sempre comparada com o modelo seguido pelos governos Kircher, baseado no estatismo, nos subsídios sociais, no industrialismo protecionista e no confronto econômica e ideológico com as grandes potências mundiais.

Desde que tomou posse, no dia 10 de dezembro, o governo Macri foi marcado seis pontos considerados chave.

Dólar liberado

O dólar sofreu uma desvalorização de 34%, e já no dia 16 de dezembro foi decretado o fim do chamado "cepo cambial" à compra de dólares. A inflação, entretanto, disparou, a 40% ao ano.

Macri eliminou impostos às exportações de trigo, milho e outros alimentos. Reduziu de 35% para 30% o tributo sobre a soja, que representa quase um quarto das exportações do país. Também suprimiu o imposto às exportações de minérios, beneficiando grandes corporações, como a canadense Barrick Gold.

"Cerca de 30% das pessoas festejam Macri, uns 20% sentem saudade do kirchnerismo e outros 50% confiam nele, embora a paciência acabe em algum momento", disse à AFP o sociólogo Jorge Giacobbe.

'Tarifaço'

Macri alega que Kirchner atrasou o ajuste nas tarifas de gás, luz e água. Ordenou, portanto, aumentos de entre 200% e 2.000% que impactaram no custo de vida da classe trabalhadora, em um país cujo salário mínimo é de aproximadamente 450 dólares por mês.

As contas de luz que passaram, em média, de 4 para 32 dólares, e de água que passaram de 14 a 60 dólares.

Usuários, pequenos empresários, clubes de bairro e até mesmo províncias inteiras da Patagônia, onde o frio causa estragos, protestaram fortemente contra o "tarifaço".

"O positivo de Macri: o fim do 'cepo', pagamento aos 'holdouts' e redução dos impostos às exportações. O negativo: o 'tarifaço' e a sensação de que o governo favorece os ricos", disse à AFP o cientista político Carlos Fara.

Fim de disputa

Em março pôs fim ao um pesadelo de 14 anos de disputa judicial em Nova York. Conseguiu que a Argentina voltasse ao mercado financeiro mundial e assumiu um dívida 16 bilhões de dólares para pagar a fundos especulativos e outros credores, após um litígio pela dívida herdada do colapso econômico e social de 2001.

Cerca de 11 bilhões foram pagos aos fundos 'holdout' que os financistas chamam de "abutres" por especularem com os bônus de países em bancarrota.

Primeiro mundo

Macri recebeu de braços abertos os presidentes de Estados Unidos, Barack Obama, e da França, François Hollande. Ambos lhe fizeram elogios. Estendeu a mão ao Reino Unido, apesar do conflito das Malvinas. "Mostrou uma linha clara e eficaz de política externa recuperando as relações com Estados Unidos, Europa e Japão", disse à AFP o cientista político Rosendo Fraga.

Sua relação com o Papa Francisco é um pouco fria. Macri, inimigo do chavismo, tem, por outro lado, uma relação ambígua com a Venezuela, e tenta manter o equilíbrio diplomático, para favorecer a candidatura de sua chanceler, Susana Malcorra, à secretaria-geral da ONU.

Insatisfação social

A recessão resultou na demissão de milhares de trabalhadores. As cinco centrais sindicais, que denunciam aproximadamente 200.000 demissões no setor público e privado, se uniram pela primeira vez em abril em um enorme protesto. Macri ignorou a manifestação e vetou a lei anti-demissões sancionada por um Congresso controlado pela oposição peronista.

"O hemisfério opositor parece desgastado, o que favorece o governo que com erros e acertos ocupa o centro da cena política", disse Ignacio Ramírez, da consultoria Ibarómetro.

A pobreza aumentou desde dezembro como consequência de uma política de ajuste de preços, afirmou a Universidade Católica argentina, ao precisar que passou de 29% em 2015 para 34,5% (13,8 milhões de pessoas) nos primeiros três meses de 2016.

Mobilizações sociais marcaram esses primeiros seis meses.

Macri Papers

Seu nome apareceu no escândalo dos paraísos fiscais do "Panama Papers". Descobriu-se que Macri tem empresas e dólares nas Bahamas. Simultaneamente, a justiça investiga um empresário que fez uma fortuna como contratista do Estado, sob suspeita de administrar o dinheiro de Kirchner.

Macri disse que não tem "nada a esconder". Também assegurou estar à disposição da Justiça. Mas surgiram novas denúncias e suspeitas judiciais que estão sendo investigadas.

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