AFP

O ministro das Relações Exteriores, José Serra, participa de coletiva de imprensa, em Montevidéu, no dia 5 de julho de 2016

(afp_tickers)

O governo brasileiro se reuniu nesta terça-feira com o embaixador uruguaio para expressar seu "profundo mal-estar" e pedir explicações após as declarações do chanceler Nin Novoa de que o Brasil teria pressionado o Uruguai na crise pela passagem da presidência do Mercosul à Venezuela.

"O governo brasileiro recebeu com profundo descontentamento e surpresa as declarações do Chanceler Nin Novoa sobre a visita do Ministro José Serra ao Uruguai", afirmou o Ministério das Relações Exteriores em comunicado.

O Mercosul atravessa sua pior crise em anos porque Brasil, Paraguai e Argentina se opõem à passagem da presidência pro tempore do bloco à Venezuela, que atravessa uma profunda crise política. Os três países alegam ainda que Caracas não adequou suas normas internas às previstas pelo bloco regional.

O chanceler uruguaio Rodolfo Nin Novoa disse ao jornal El País do Uruguai, publicado nesta terça-feira, que em viagem a Montevidéu o ministro das Relações Exteriores do Brasil, José Serra, pressionou pela suspensão da passagem da presidência à Venezuela tentando inclusive "comprar o voto do Uruguai".

"Não gostamos muito que o chanceler (José) Serra tenha vindo ao Uruguai nos dizer —ele fez isso publicamente, por isso digo- que pretendiam suspender a passagem e que, se ela (a passagem da presidência à Venezuela) fosse realmente suspensa, nos levaria a suas negociações com outros países, como se estivesse tentando comprar o voto do Uruguai", denunciou Nin Novoa.

"O teor das declarações não é compatível com a excelência das relações entre o Brasil e o Uruguai", reagiu o Itamaraty.

Serra se reuniu na tarde desta terça-feira com o embaixador uruguaio em Brasília para "expressar seu mal-estar e pedir-lhe explicações" pelas declarações de Nin Novoa, explicou uma fonte do Itamaraty à AFP.

Apesar da oposição de seus sócios regionais, a chancelaria venezuelana içou sua bandeira do organismo em Caracas na semana passada para simbolizar o início de seu período na presidência rotativa do bloco.

Há três semanas o Uruguai pôs fim a seu período de seis meses à frente da presidência e defendeu que a Venezuela, o membro seguinte na ordem alfabética, assumisse.

O presidente uruguaio, Tabaré Vázquez, advertiu que Venezuela fará parte do bloco enquanto a cláusula democrática não for aplicada.

As normas internas do Mercosul preveem a possibilidade de suspender os membros caso os demais considerem que houve uma ruptura institucional prejudicial à democracia. A aplicação dessa cláusula não foi discutida oficialmente para o caso venezuelano.

afp_tickers

 AFP