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Pedro Pablo Kuczynski, em Lima, no dia 9 de junho de 2016

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Sabendo que deve unificar um país polarizado, o liberal Pedro Pablo Kuczynski está disposto a governar o Peru com um gabinete de ampla larga, que inclui seus rivais fujimoristas e um setor de esquerda que apoiou sua eleição.

Após uma votação apertada contra a populista de direita Keiko Fujimori, Kuczynski obteve 50,12% dos votos diante de 49,88% de sua rival, ainda que uma mínima porcentagem de votos observados o impeça de celebrar formalmente a vitória. Apesar disso, analistas concluíram que o resultado é irreversível.

Nesta sexta, Fujimori reconheceu sua derrota, afirmando que, com o seu bloco parlamentar, fará oposição ao novo governo do Peru.

"Aceitamos democraticamente os resultados do ONPE (Escritório Nacional de Processos Eleitorais), porque nós somos uma organização política séria, e por respeito ao povo peruano", declarou Keiko Fujimori em um pronunciamento aos legisladores de seu partido, Fuerza Popular, que assumem em 28 de julho.

Ela assegurou que os resultados eleitorais indicam que "o Fuerza Popular recebeu a missão da população de ser oposição, e será o papel que vamos cumprir com firmeza. Seremos uma oposição responsável, que pensará no futuro do país".

Já o vencedor das eleições, um ex-banqueiro de Wall Street, de 77 anos, avançava na organização de sua equipe de trabalho. Como havia anunciado durante a campanha eleitoral, nomeará para o Ministério de Economia e Finanças Alfredo Thorne, ex-diretor executivo do JP Morgan-Chase e ex-economista sênior do Banco Mundial.

Mas, para formar o resto de sua equipe, sabe que precisará buscar consenso. Sobretudo, porque o partido fujimorista Fuerza Popular, conseguiu 73 das 130 cadeiras no Congresso unicameral, enquanto seu partido, Peruanos Por el Cambio (PPK), obteve 18. No entanto, o esquerdista Frente Amplio, que o apoiou com seu voto no segundo turno, tem 20.

"Temos que buscar as melhores pessoas do Peru que têm a maior entrada política, que não sejam técnicos. Eu sou um tecnocrata e necessito ser rodeado de alguns músicos que saibam tocar 'cajón'", ainda que os músicos sejam do Fuerza Popular ou da Frente Ampla, admitiu este flautista formado na Royal College of Music de Londres.

O fujimorismo tem exigido desculpas ao partido de PPK pelas graves palavras proferidas na campanha.

"As eleições podem ser duras, tensas e até graves, mas passadas as eleições, é o momento de abrir pontes (...) Nos desculpamos com todos e vamos voltar a página para consertar", disse Kuczynski, em uma entrevista concedida à Latina TV.

"Pacto de la Moncloa" peruano

"Temos que convencer, tanto o Fuerza Popular quanto os que estão mais a esquerda que me apoiaram, que existem algumas coisas que nenhum peruano pode fazer objeção", considerou PPK.

Para ele, são três os aspectos-base onde deve haver coincidência: apoio com uma "revolução de crédito" às pequenas empresas, que representavam 70% da geração de emprego no Peru; destinar recursos para educação, saúde e água potável; e trabalhar nos grandes projetos de infraestrutura.

Para ele, disse PPK, "tem que pensar no que aconteceu na Espanha com o Pacto de la Moncloa (acordo político e social durante a transição espanhola). Tem que haver uma combinação. Tem que haver uma agenda política, social e econômica na qual estejamos de acordo".

"Tanto a senhora Fujimori, se for candidata em 2021, assim como a senhora (Verónika) Mendoza, todos os que querem governar no Peru, devem apoiar um país mais viável", acrescentou.

Ele deixou claro que não está em seus planos a privatização do serviço de água, que o partido de Mendoza teme. "Na França, por exemplo, a eletricidade é de uma empresa do Estado e funciona perfeitamente bem", esclareceu.

Ele espera que os consensos evitem, por exemplo, um fechamento do Congresso, como prevê lei, se a oposição censurar dois gabinetes ministeriais de forma consecutiva.

Em seus planos de política exterior, PPK planeja a curto prazo uma visita à China, antes de que concretize em novembro, em Lima, a cúpula das 21 economias do setor Ásia-Pacífico, APEC.

Fujimori pai

Kuczynski se mostrou favorável em relação à permissão de Alberto Fujimori, pai de Keiko, preso por crimes de corrupção e contra a humanidade, permanecer em prisão domiciliar.

"Se o Congresso dá uma lei genérica - não pode ser uma lei pessoal -, para que as pessoas nessa condição cumpram o final de sua sentença em casa, eu assinarei", disse Kuczynski ao site da revista Semana Econômica, após negar que irá assinar um indulto, opção dada ao presidente.

Alberto Fujimori (1990-2000), de 77 anos, sofre de hipertensão e nos últimos anos foi operado cinco vezes na cavidade bucal devido a uma recorrente lesão cancerígena na língua, necessitando de avaliações periódicas.

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