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A presidente Dilma Rousseff, em Brasília, no dia 5 de março de 2016

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O relator da Comissão de Impeachment da Câmara dos Deputados considerou, nesta quarta-feira, que a presidente Dilma Rousseff deve ser submetida a julgamento por maquiagem das contas públicas.

O autor do relatório, deputado Jovair Arantes (PTB-GO), manifestou-se a favor da "admissibilidade jurídica e política da acusação e pela consequente autorização para a instauração, pelo Senado Federal, do processo por crime de responsabilidade fiscal" da presidente.

"A magnitude e o alcance das violações praticadas pela presidente da República constituíram um grave desvio de suas funções, com prejuízo para os interesses da Nação (...). Tais atos justificam a abertura excepcional do mecanismo de impeachment".

"O presente trabalho certamente despertará as emoções de cada cidadão brasileiro, as piores ou as melhores. A missão não foi fácil. Alguns me chamarão de "herói", outros, de "vilão e golpista". Esses rótulos, contudo, não me preocupam. O meu maior cuidado foi o de realizar um trabalho imparcial, com a consciência tranquila, e em respeito ao povo de Goiás e do Brasil, sabedor da importância que é recomendar a aceitação ou não de uma denúncia por crime de responsabilidade do Presidente da República", disse Jovair Arantes.

"Entendo também que, ainda que devam ser considerados os pressupostos jurídicos, o processo de impeachment possui essência política, uma vez que foi entregue às Casas do Poder Legislativo pelo poder constituinte originário, para que seja julgado à luz de maior sensibilidade política", acrescentou.

"Não saber, a Presidente da República, que vultosas quantias em dinheiro foram desviadas dos cofres públicos do Governo Federal e que parte significativa desses recursos fora diretamente para as contas de seu partido seria decorrente de sua omissão em cumprir com seus deveres mínimos de gestora e de candidata responsável por sua arrecadação e despesa de campanha", destacou o deputado.

A longa sessão terminou entre aplausos, o hino nacional e gritos de "Fora PT", por parte dos oposicionistas, e "Não vai ter golpe", por parte dos governistas, constatou a AFP.

Os 65 deputados que compõem a comissão poderão modificar o texto até a próxima segunda-feira, quando votarão.

Qualquer que seja a decisão, trata-se de um relatório não vinculativo, que deve ser aprovado pelo plenário da Câmara dos Deputados.

Salvo em caso de imprevisto, o debate nesta instância começará na sexta-feira dia 15, e a votação terá lugar na segunda-feira, 18, de acordo com as previsões da Comissão.

Uma moção de impeachment deve ter o apoio de pelo menos 342 dos 513 membros da Câmara (dois terços) para, então, passar ao Senado. Se o texto for aprovado nesta Casa, por maioria simples (a votação poderia ocorrer no início de maio), Dilma será afastada do cargo por até seis meses, enquanto aguarda o veredicto final. Essa decisão também está nas mãos do Senado.

Se o impeachment for aprovado, Dilma seria substituída até o final de seu mandato, em 2018, pelo vice-presidente Michel Temer, do PMDB, que na semana passada rompeu sua aliança com o PT.

Diante da eventual derrota na Comissão do Impeachment, Dilma e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva concentram seus esforços na votação no plenário da Câmara, e tentam angariar os votos de diversos partidos, especialmente do PP, que reúne 51 deputados e não esconde que negocia seu apoio em troca de cargos no governo, especialmente em ministérios de "prestígio", como Saúde e Educação.

"Estamos preparados para perder na comissão. Apostamos na votação no plenário", disse à AFP o deputado petista Zé Geraldo.

As negociações e os cálculos sobre quem apoiará ou não o impeachment dominam o Congresso, que conta com vários partidos, muitos divididos sobre a saída da presidente.

"É muito difícil prever um resultado (...). Durante o impeachment de Collor, a história conta que vários deputados mudaram de ideia quando estavam na fila para votar", recordou na semana passada o deputado Rogério Rosso, do PSD, presidente da Comissão do Impeachment.

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