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Venezuelanos fazem fila no último dia para validar as assinaturas do referendo contra o presidente Nicolás Maduro, em Caracas, no dia 24 de junho de 2016

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A oposição venezuelana busca completar nesta sexta-feira o trâmite de assinaturas para validar um referendo revogatório contra o presidente Nicolás Maduro.

Durante cinco dias, milhares de pessoas validaram, com suas digitais, as assinaturas que deram no fim de abril para dar continuidade à consulta.

A oposição - que controla o Parlamento - necessita que o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) confirme cerca de 200.000 assinatura, do 1,3 milhão que coletou em abril e que foram aceitas pelo organismo.

Os cálculos da coalizão Mesa da Unidade Democrática (MUD) são otimistas: até quinta-feira, em 23 dos 24 estados informaram ter conseguido o mínimo requerido, o equivalente a 1% do colégio eleitoral de cada região.

Somente em Nueva Esparta - da qual a turística ilha Margarita é a capital - faltavam validar cerca de 200 assinaturas.

Diante disso, o líder opositor Henrique Capriles, principal promotor do referendo, viajou a Margarita para vigiar a jornada, que coincide com um feriado nacional.

"Neste grande esforço vamos dar uma lição", declarou Capriles, assinalando que o governo "acreditou que por ser um estado insular, poderia manipulá-lo".

"O total de assinaturas validadas até o momento é de 326.381. Superamos todos os obstáculos", assinalou a deputada Delsa Solórzano.

Cumprido o prazo de validação, o processo entra em uma etapa de incerteza, pois o CNE - acusado pela oposição de servir ao governo - anunciará no dia 26 de julho se a meta foi alcançada.

"A mudança não será imediata"

Durante a semana, a MUD denunciou uma sabotagem do governo contra o reconhecimento de assinaturas mediante demoras, bloqueio logístico e ameaças veladas de suspensão do trâmite.

Os adversários de Maduro impulsionam o revogatório apoiados na severa crise econômica, que nas últimas semanas aumentou a tensão social com roubos em várias cidades deixando ao menos cinco mortos.

Uma escassez de 80% dos alimentos e a inflação mais alta do mundo (180,9% em 2015), além dos altos índices de criminalidade, motivam a rejeição a Maduro, que, segundo uma pesquisa da empresa Datanálisis, tem apenas 25% de apoio.

"A mudança não será imediata, mas o referendo é um passo", disse Eugenia Parra, de 28 anos, estudante de Farmácia, enquanto estava na fila para comprar alimentos em um supermercado do leste de Caracas.

Parra não pôde validar sua assinatura, pois teve que dividir seu tempo entre as longas filas para alimentar sua família, os estudos e um trabalho de meio período em uma clínica.

Nos arredores do mesmo supermercado Ramón Bernay, economista aposentado de 64 anos, esperava seu turno e afirmou que "este ano não haverá referendo".

"Não vão tirar Maduro nem pela OEA, nem por um golpe. Faço filas todos os dias e esta situação me enoja, mas resisto porque o que há aqui é uma guerra econômica da burguesia", afirmou.

Maduro considera impossível que o revogatório possa ocorrer esse ano, em razão de os prazos legais não permitirem.

Para a oposição é fundamental que a consulta seja realizada antes do dia 10 de janeiro de 2017, pois se Maduro for revogado antes desse dia, haverá eleições antecipadas.

Se ocorrer depois dessa data, o mandatário socialista poderá eleger seu sucessor em caso de derrota.

"Se houver, iremos e ganharemos; e se não houver, a vida política do país continuará", sustentou o governante na quinta-feira (23).

No momento, se o CNE ativar a consulta, a oposição deverá recolher quatro milhões de assinaturas para convocá-la. E para depor Maduro, o "sim" deve conquistar mais do que os 7,5 milhões de votos com os quais foi eleito.

A crise venezuelana foi discutida na quinta-feira pelo Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos (OEA), em uma sessão especial que concluiu sem decisões sobre castigar diplomaticamente o governo chavista.

Invocando a Carta Democrática, o secretário-geral da OEA, Luis Almagro, disse que a Venezuela vive "uma grave alteração da ordem constitucional" e democrática, e chamou os países-membros a apoiarem o referendo.

Em meio à tensão interna e às pressões internacionais, Maduro multiplicou nos últimos dias o seu chamado à oposição para iniciar um diálogo, mas ela assegura que o revogatório não é negociável.

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