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"Monsieur Prix" declara guerra aos preços

Os suíços são consumidores calejados nos preços mais elevados da Europa. Keystone

No país onde o custo de vida é um dos mais elevados do mundo, um órgão público existe apenas para combater os preços altos e abusos do mercado.

Este conteúdo foi publicado em 01. março 2005 - 14:29

O "Serviço de Vigilância dos Preços" promete agora, durante a coletiva anual de imprensa, que a situação vai melhorar para o consumidor. Difícil é combater os monopólios.

Dinheiro não vale muito no país dos Alpes. Essa é a impressão de consumidores e turistas num dos países mais caros do mundo.

As estatísticas européias demonstram: habitação, eletricidade e gás são, em média, 70% mais caras na Suíça do que nos países vizinhos; alimentos, 50%. Também roupas custam 17% a mais.

Uma nota de cem francos não chega a encher um carrinho de compras no supermercado. Carne, laticínios, hortigranjeiros, não importa: quase todos os produtos alimentícios têm preços estratosféricos.

Mesmo o chocolate Toblerone de 100 gramas, produto tão típico suíço como os relógios e fabricado logo na esquina, em Berna, custa nos supermercados helvéticos 1,70 francos. Na vizinha Alemanha a mesma barra custa 0,91 francos, como mostram os prospectos da promoção oferecida pela rede de supermercados Lidl.

Uma pesquisa recém-publicada do banco UBS mostra que Zurique e Basel estão na lista das dez cidades mais caras para se viver no mundo.

Mesmo o cinema é um prazer de luxo: com entradas que podem variar entre 13 e 17 francos, os preços para sentar na sala escura na Suíça são 53% mais elevados do que a média européia, como revela a revista de consumidores "J’achète mieux".

Consumidor vai a luta

Depois de décadas pagando preços elevados, o consumidor suíço resolveu acordar. Com o crescimento econômico fraco dos últimos anos, o medo do desemprego e, sobretudo a introdução do Euro nos países da União Européia, uma mudança que tornou os preços mais transparentes, os lares helvéticos resolveram ir ao combate.

Um exemplo: grupos de consumidores resolveram enviar um requerimento por escrito ao Serviço de Vigilância dos Preços para reclamar dos preços elevados das entradas de cinema. Seu argumento: o cinema é caro, pois existe um monopólio das empresas de distribuição. O assunto agora está em debate.

Criado em julho de 1986 depois de décadas de debates no Parlamento helvético, esse órgão público único na Europa existe para combater os abusos e monopólios do mercado. Seus chefes são tão populares no país que são mais conhecidos pela denominação de Monsieur Prix (Senhor Preços, na tradução do francês).

Na coletiva de imprensa da última semana, Rudolf Strahm, o atual chefe, explicou aos jornalistas como é o combate dos preços altos.

A culpa é do governo

- Na Suíça ninguém pensa nos preços, mas só na qualidade, normas ou outros fatores - desabafa Strahm. Na sua opinião, um dos maiores culpados para a situação incômoda está na super-regulação.

Além da proibição de importações paralelas, seja por questões de patentes ou de normas técnicas, existem vários tipos de monopólios no mercado helvético como, por exemplo, o dos atacadistas de hortigranjeiros. Estes obrigam os agricultores a aceitá-los como fornecedores exclusivos de adubos, pesticidas e máquinas, sendo que os preços são também ditados às alturas. Aliado às subvenções já dadas à agricultura, esse fator explica porque o consumidor paga os olhos da cara para ter um prato de salada à mesa.

Também no caso dos remédios, que na Suíça chegam a custar o dobro do que nos países vizinhos, o problema estaria no engessamento do mercado. Normas técnicas obrigam o reconhecimento de novas substâncias na Suíça, apesar delas já estarem autorizadas para o mercado europeu. "Por que o medicamento que já é vendido na Grécia e em outros países vizinhos não pode ser importado diretamente pelos hospitais?", pergunta-se Strahm.

O problema está intimamente relacionado com a situação especial da Suíça dentro da União Européia: ela não faz parte do clube e adota, em muitos casos, regras próprias.

A lista de preços que ainda são controlados pelo estado é ainda maior: ela inclui os setores de eletricidade, água, gás, esgoto, hospitais e outras centenas de taxas públicas. No caso da eletricidade, a situação chega a ser alarmante: - "Já identificamos diferenças enormes das tarifas aplicadas pelas comunas, sendo que algumas cobram 30% a mais do que a média suíça, que já é muito elevada", revela Strahm.

1.200 reclamações por ano

O Serviço de Vigilância dos Preços ocupa 16 funcionários e tem um orçamento de 2,2 milhões de francos. Em 2004, eles receberam 1.200 petições por escrito, um terço a mais do que no ano retrasado. Dessas, mil foram reclamações contra preços abusivos.

As tarifas no setor de saúde, incluindo preços de medicamento, foram o tema do ano. Outras reclamações foram contra os preços de produtos, telecomunicação, correios, TV a cabo e tarifas públicas.

Na coletiva de imprensa, o "Monsieur Prix" tenta convencer os jornalistas de que seu órgão público tenta pelos menos melhorar a situação do consumidor suíço. Trata-se de uma luta inglória.

Um exemplo prático de que as reclamações podem dar frutos é dado através da Cablecom, uma empresa que detém praticamente o monopólio de TV a cabo na Suíça. Depois que ela anunciou um aumento drástico das tarifas, muitos consumidores reclamaram frente ao órgão. Depois que seus economistas analisaram as contas da empresa, descobriram que não havia razão para o aumento. Estes não foram autorizados. "1,5 milhão de lares vão economizar pouco mais de 100 milhões de francos através da economia", explica o boletim publicado.

Para 2005, as prioridades do "Monsieur Prix" são diminuir os preços no mercado de eletricidade, medicamentos, produtos agrícolas e tarifas públicas.

"Esse trabalho só pode funcionar se os políticos e o governo nos ajudarem", conclui Strahm.

swissinfo, Alexander Thoele

Fatos

953 pessoas reclamaram oficialmente dos preços elevados em 2004, 33% a mais do que em 2003.
142 reclamações foram relativas ao setor de saúde.
90 reclamações foram contra os preços em telecomunicação, correios e alfândega.
Em 80 casos as tarifas do transporte público, água e energia foram criticadas.
50 reclamações foram feitas contra as taxas de televisão e rádio.
Mais de 100 registros foram relativos aos preços de diferentes produtos no comércio.

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