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Democracia direta

A longa luta pelo sufrágio feminino

Os primeiros países do mundo permitiram o direito de voto às mulheres no final do século 19. Desde 1948, o sufrágio também é um direito humano universal. Porém na Suíça o voto foi negado às mulheres por muitas décadas. Por que demorou tanto?

Este conteúdo foi publicado em 07. fevereiro 2021 - 08:00
David Eugster

A revolução ocorreu após a Guerra Fria, quando as últimas mulheres suíças conquistaram seus direitos políticos. O cantão (estado) de Appenzell Rodes interior, ao leste da Suíça, onde as votações ocorriam ainda em praça pública seguindo um antigo costume helvético, permitiu a participação de mulheres nos plebiscitos e referendos locais. Mas foi uma decisão que veio de cima: o Tribunal Federal, a corte suprema da Suíça.

Em nível nacional, as mulheres do Appenzell já gozavam dos direitos políticos plenos há vinte anos. Todavia o sufrágio feminino universal demorou muito tempo para ser concretizado na Suíça. Foi somente em 1971: neste ano, os homens concederam às elas o direito de votar e opinar nos plebiscitos nacionais. 

Por que demorou tanto?

A razão básica era uma ideia generalizada de que as mulheres não haviam sido feitas para a política: os cartazes dos adversários do sufrágio feminino exibiam crianças negligenciadas, caindo dos berços ou de pé, chorando atrás de uma porta trancada. Até imagens de moscas pousando em chupetas e mulheres descuidadas, magras e solteiras viraram motivo. Temia-se que as mulheres deixassem de cuidar dos afazeres domésticos e de educar os filhos se começassem a fazer política.

Mas não foram só os homens na Suíça a compartilhar esse ponto de vista.

O atraso não pode ser explicado pela falta de empenho das mulheres suíças. Os protestos começaram em meados do século 19, mais precisamente em 1868. Foi quando a genebrina Marie-Goegg Pouchoulin fundou a Associação Internacional de Mulheres, a primeira organização internacional formada para lutar pelos seus direitos.

Em 1886, a escritora Meta von Salis denunciava repetitivamente o tratamento desigual vivido pelas mulheres nas palestras organizadas em todo o país. Em 1896, Genebra recebeu o primeiro Congresso Nacional da Mulheres. A principal reivindicação: o direito de votar e ser eleita.

Se I Guerra Mundial abriu espaços às mulheres pela sua contribuição valiosa no esforço de guerra e reconstrução dos países, esse papel não teve o reconhecimento esperado na Suíça. Várias tentativas de alcançar o direito de voto em nível cantonal falharam. O sufrágio feminino, em nível local e nacional, também não foi aprovado, mesmo depois a II Guerra Mundial.

Quando o governo da Suíça propôs, em 1957, que as mulheres também deveriam ser obrigadas a cumprir algum tipo de serviço militar, os protestos eclodiram. Em Unterbäch, um vilarejo no cantão do Valais, as mulheres decidiram entrar em ação: organizam uma votação de protesto e colocam, pela primeira vez na história do país, suas cédulas nas urnas. Porém os votos são anulados logo depois.

Mas enquanto o sufrágio feminino foi introduzido em outros países pelos próprios parlamentos, na Suíça o debate se prolongou no debate em definir os "privilegiados" do sistema democrático: pertencer ao povo é sempre uma questão que precisa ser negociada entre as diferentes partes.

Mas finalmente o país começou a se mover. Foi quando alguns vilarejos suíços introduziram o sufrágio feminino. Logo depois foram acompanhados por alguns cantões: Vaud e Genebra. E nos anos 1960, uma geração de mulheres decidiu que a melhor forma de luta pelos seus direitos seria o protesto ativo e não mais contar apenas com a boa vontade de homens.

Associações de mulheres em Zurique lembravam todos os anos, em marchas com tochas acesas pelas vias públicas, que seus direitos estavam sendo negados. Em 1969 os protestos chegaram até à capital do país, Berna. Nos palanques, elas exigiam finalmente o direito de votar e ser votadas.

Apenas um ano antes, o Conselho Federal (o corpo de sete ministros que governa o país) queria assinar o contrato de adesão da Suíça à Convenção Europeia de Direitos Humanos. Porém queria também incluir uma cláusula excluíndo os direitos políticos das mulheres. Frente aos protestos, decidiu lançar a questão à voto público, mais uma vez. E assim, finalmente, em 1971, dois terços dos homens eleitores disseram "sim".

O voto histórico não resolveu ainda todos os problemas das mulheres. Até 1976, não podiam aceitar empregos sem o consentimento dos maridos. O estupro dentro do casamento só foi considerado crime a partir dos anos 1990. Porém o voto dado em 1971 colocou as mulheres no local, onde realmente as mudanças podem ocorrer: no Parlamento federal.

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