A luta das mulheres pelo direito ao lazer

O lazer, como o entendemos hoje, nem sempre foi uma coisa natural. Até a primeira metade do século 20, especialmente para as mulheres, o tempo livre era cheio de regras.

Este conteúdo foi publicado em 25. setembro 2020 - 08:02
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Em 1877, a jornada de 11 horas foi introduzida com a legislação federal da indústria. Uma vez terminado o trabalho na fábrica, os homens dispunham de tempo livre, chamado então de "tempo restante". Já as mulheres, depois do expediente na fábrica, tinham de fazer as tarefas domésticas, lavavam a roupa, cuidavam das crianças e cozinhavam - e tiveram assim que brigar muito pelo seu exíguo tempo livre.  

As lojas de departamento que abriram na Suíça no final do século 19 tornaram possível transformar o dever em prazer: as mulheres podiam assim fazer compras fora de seus bairros e escapar por um momento do controle social.

Josef Weber, filho de um rico comerciante, abriu seu "J. Weber's Bazaar", a primeira grande loja de departamentos na Suíça, na Papierwerdinsel, em Zurique, em 1892. Magazine zum Globus
Mercado de alimentação na Globus Zurich por volta de 1912, onde as mulheres podiam conferir todos os produtos, os preços eram fixos, e não havia a obrigação de comprar. Essa nova forma de fazer compras era o auge do glamour na época. Magazine zum Globus

Da higiene ao esporte - por prazer

Os primeiros espaços abertos para mulheres foram oferecidos pelos primeiros estabelecimentos balneários públicos, construídos no início do século 19 para atender à crescente conscientização da higiene. Entretanto, foi somente em 1837 que a proibição do banho feminino foi suspensa em Zurique e que uma "casa de banho feminina" foi construída.

A "Badi" (banhos) feminina Belvoir em Zurique, em um registro sem data. Por volta de 1900, foram construídos várias dessas instalações de madeira, com uma rigorosa separação dos sexos. Baugeschichtliches Archiv
Na década de 1920, a natação era considerada especialmente adequada para as mulheres, pois produzia uma bela e esbelta musculatura e moldava o ideal feminino. As meninas começaram a ter aulas de natação em 1925, apenas cem anos depois dos meninos. Schweizerisches Sozialarchiv
Gradualmente, os banhos de "praia" à beira dos lagos e rios foram se somando às Badis fechadas. Na década de 1930, as mulheres finalmente tiveram a permissão de tomar banho de sol em espaços públicos. Keystone / Walter Studer

Cinema, dança, cafés

Muitas vezes foram mulheres artistas, intelectuais e corajosas que abriram o caminho para mais direitos e liberdades. Elas haviam estudado em Paris, Londres e Nova Iorque e queriam promover o intercâmbio e a cultura na Suíça no seu retorno. Elas próprios queriam determinar a forma de sua vida social.

Dois bons exemplos são a escultora Anna Indermaur, a primeira dona de cinema da Suíça, e a dançarina autodidata Trudi Schoop, que abriu sua própria escola de dança em 1921 aos 18 anos de idade. 

Anna Indermaur abriu o primeiro cinema de arte da Suíça em 1935, o Studio Nord-Süd. "Um ato cultural que sacudiu o caráter anteriormente patriarcal da indústria cinematográfica de Zurique até a medula", escreveu o jornal NZZ em 1980 no obituário de Indermaur. Theo Frey / Fotostiftung Schweiz
A vida de Anna Indermaur não era fácil: os grandes donos de cinema não toleravam nenhuma competição feminina. Os distribuidores de filmes também se posicionaram junto aos donos dos cinemas e boicotaram o "Nord-Süd". Indermaur tinha que buscar no mercado negro os filmes que queria exibir. Depois de uma incansável ação judicial travada por seu irmão, o cinema foi finalmente aceito na Verband Lichtspiel, a associação comercial dos exibidores. Baugeschichtliches Archiv / Forter E.
Ir ao cinema era considerado como uma ameaça à moral para as mães. Boas meninas passeavam ao ar livre e iam às compras. Mas as mulheres adoravam o cinema porque oferecia intimidade e era ao mesmo tempo um espaço público, inspirando sonhos e tornando possível aquele beijo escondido. Akg-images / Weegee
O café "Select" também se beneficiou de sua proximidade com o cinema. Logo se tornou o café favorito da cena artística e cultural - e das mulheres - de Zurique. Fotostiftung Schweiz / Anita Niesz

Nos anos 1920, não apenas a mente criativa, mas também o corpo queria se libertar das restrições. Os tabus sexuais e convenções rígidas foram dissolvidos. Para as mulheres, isso significava que elas não estavam mais dependentes de parceiros para atuar e participar. Esta revolução também se refletiu na dança, que há muito tempo havia quebrado as correntes da dança de casal.

As criações de dança e pantomimas de Trudi Schoop eram por vezes percebidas pelo público como espetáculos cômicos, razão pela qual ela era chamada de Charlie Chaplin feminina. Ela fundou sua segunda "Escola de Dança Artística" em 1931 para realizar suas próprias idéias de beleza e profunda seriedade da dança expressiva moderna. Ela também teve que lutar com os conceitos morais predominantes e após cinco anos teve que abrir mão de seu clube instalado em uma igreja de Zurique. Ela emigrou para os EUA e tornou-se uma pioneira da terapia de dança.

O grande sucesso de Trudi Schoop se deu no início dos anos 30 com a criação de seu personagem "Fridolin", que trazia ao palco uma performance sem palavras, somente com a expressão dos gestos e movimentos. Robert Walser Stiftung / Carl Seelig
"Dança grotesca" (1927), estilo de expressão corporal bastante popular na primeira metade do século 20. Martin Imboden / Fotostiftung Schweiz
A ordem é sacudir e rebolar: o Charleston era a música mais moderna na época, e a dança era "ousadíssima" - a imagem é de 1926. Getty images

No curso da urbanização, uma indústria de entretenimento surgiu, oferecendo diversões para passar o tempo livre que também crescia - um progresso que se intensificou quando a semana de 48 horas foi introduzida em 1919. Diversões e entretenimento eram oferecidos no circo, ópera, teatro e, a partir de meados dos anos 20, no rádio.

Ao mesmo tempo, várias organizações de jovens e mulheres foram criadas para contrabalançar o temido declínio dos padrões morais. Eles ofereciam atividades de lazer controladas e, em sua opinião, "significativas", que, dependendo da orientação política ou religiosa, deveriam moldar os jovens. 

As "Meitschi" (mocinhas) da Wandervögel, a Federação Suíça de Caminhadas para Jovens Abstêmios (de álcool), do grupo local de St. Gallen em 1921 Este movimento juvenil buscava a liberdade nas atividades na natureza: brincar na floresta, dançar nos prados e fazer caminhadas nas montanhas. Schweizerisches Sozialarchiv
Em 1930, Dori Wettstein (1904-1982) fundou o Clube Feminino de Remo de Zurique e assim invadiu um domínio masculino absoluto. Assim que permitido, o clube também participou de competições. Na década de 1930, as aficionadas pelo remo só podiam competir na disciplina "remo de estilo", que havia sido criada especialmente para elas (onde sempre ocupavam o primeiro lugar devido à falta de competidores). Schweizerisches Sozialarchiv

Na primeira metade do século 20, numerosos jornais e revistas femininos também foram criados nas áreas de educação, economia doméstica, enfermagem, comércio e indústria. Mas as revistas de entretenimento e moda também experimentaram uma ascensão e deixaram seus leitores vaguear pelo grande mundo em generosas reportagens fotográficas.

"Wahre Geschichten" (Histórias reais) era a versão alemã da revista popular americana "True Story", cerca de 1930. Hans Staub / Fotostiftung Schweiz Winterthur

Fontes: Dicionário Histórico da Suíça, Historiadoras dos Passeios Urbanos Femininos (Frauenstadtrundgang) de Zurique, Basileia, Winterthur, Lucerna

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