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A vida se apaga para os pacientes renais venezuelanos

Paciente chega para receber hemodiálise em meio a apagão que afeta Venezuela, em unidade médica de Caracas. afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 11. março 2019 - 23:31
(AFP)

Alfredo Quintero sente a boca ressecada e enjoo após três dias sem hemodiálise. A energia acabou quando estava conectado à máquina que o mantém vivo devido ao apagão que desde a quinta-feira afeta a Venezuela.

Seu caso se repete entre dezenas de pacientes renais, como Frank Pacheco, a quem a queda de energia custou a vida no domingo, após perder um transplante de rim, há um ano, por falta de medicamentos.

No mesmo dia, Alfredo aproveitou um breve restabelecimento de energia em algumas zonas de Caracas para realizar a hemodiálise e pôde sobreviver.

Após quatro dias do pior apagão a atingir a Venezuela, Caracas tem um fornecimento de energia intermitente, mas vários estados permanecem sem eletricidade.

Ao menos 15 pacientes renais morreram entre sexta e sábado - segundo a ONG Codevida - por falta de hemodiálise, e Frank ainda não integra esta estatística.

O governo de Nicolás Maduro garantiu no domingo que não há mortes nos hospitais públicos por causa do apagão e que as hemodiálises estão garantidas por grupos geradores.

De 10.200 pacientes renais na Venezuela, cerca de 3 mil dependem de hemodiálise, segundo a Codevida.

"Vim testar a sorte e graças a Deus havia energia", disse à AFP Quintero, 23 anos, que no domingo conseguiu fazer seu tratamento por uma insuficiência renal.

Na sexta-feira, Quintero teve sua hemodiálise interrompida após 30 minutos por outro corte de energia, que afetou outros 39 pacientes na mesma situação.

"Muitos partiram descompensados, cheios de líquido, foi terrível", relatou Quintero, que vive com a avó em um subúrbio de Caracas.

- "Terrível" -

Alex, que chegou algumas horas após Alfredo, não teve a mesma sorte no domingo, fazendo apenas 10 minutos de hemodiálise antes do apagão. Sua mãe, Ninoska Arellano, o levou em uma cadeira de rodas com o corpo inchado após vários dias sem tratamento.

"É uma situação terrível, uma incerteza total", disse Arellano à AFP após a sessão frustrada.

O apagão, que o governo de Maduro atribui a um "ataque cibernético e eletromagnético" dos Estados Unidos e da oposição, afetou o funcionamento das 139 unidades de hemodiálise do país e a maioria dos hospitais, segundo a Codevida.

José Manuel Rodríguez, que levou seu sogro de 87 anos para uma sessão, declarou que "na Venezuela os apagões ocorrem" sempre pelo mau estado da infraestrutura, mas desta vez atingiu Caracas.

"Isto é pior que um país em guerra", exclamou Harlen Pereira, bancário de 51 anos, que esperava por seu irmão Harold.

Para Maria Godoy, enfermeira encarregada de conectar os pacientes, são "dias estressantes".

Frank Pacheco, artista plástico de 57 anos, faleceu no hospital Universitário de Caracas após oito dias sem hemodiálise e por complicações. O apagão foi a gota d'água.

"Houve um exame que não pôde fazer, um tratamento que não conseguiu. Não havia elevadores, especialista em nefrologia no final de semana. Foi uma semana muito tumultuada", disse à AFP sua afilhada Gabriela.

"Foi transplantado com sucesso e levava uma vida normal", mas "tudo se agravou há um ano e perdeu o rim porque não conseguiu os imunossupressores", que desapareceram com a crise que atinge a Venezuela.

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