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Bolsonaro revela dados imprecisos e remédios sem comprovação ao anunciar ter COVID-19

Reprodução de imagem de TV mostra do presidente Jair Bolsonaro colocando uma máscara facial, preparando-se para falar com jornalistas em Brasília, 7 de julho de 2020 afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 07. julho 2020 - 23:45
(AFP)

O presidente Jair Bolsonaro anunciou nesta terça-feira (7) ter testado positivo para o novo coronavírus, informando que iniciou um tratamento com hidroxicloroquina e azitromicina.

Também mencionou que muitos pacientes infectados pela COVID-19 estão tendo resultados positivos com a ivermectina, que o vírus “se dá melhor” em climas mais frios e que jovens infectados pela doença podem ficar “tranquilos”. Confira abaixo, o que se sabe até agora sobre estas afirmações.

Hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina

“Dado os sintomas, a equipe médica resolveu aplicar a hidroxicloroquina”, afirmou o presidente nesta terça, ao anunciar que havia testado positivo para a COVID-19.

Medicamento indicado para casos de malária e lúpus, a hidroxicloroquina foi um dos primeiros remédios considerados para um possível tratamento contra o novo coronavírus. Em maio, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chegou a afirmar que estava tomando a hidroxicloroquina apesar de ter testado negativo para o coronavírus. “Ouvi um monte de boas histórias”, disse, na época.

No início de junho deste ano, no entanto, um teste clínico liderado pela Universidade de Minnesota nos Estados Unidos e no Canadá indicou que tomar hidroxicloroquina não impede a infecção por COVID-19.

“Este estudo randomizado não demonstrou nenhum benefício significativo da hidroxicloroquina como tratamento profilático após a exposição à COVID-19”, afirmaram os autores.

Em 15 de junho, a agência de Medicamentos de Alimentos dos Estados Unidos (FDA) revogou a autorização de uso de emergência que permitia a administração da hidroxicloroquina em pacientes com COVID-19 no país. “Com base em sua análise contínua [...] de dados científicos emergentes, a FDA determinou que é improvável que a cloroquina e a hidroxicloroquina sejam eficazes no tratamento contra a COVID-19”.

De maneira semelhante, em 17 de junho, a OMS suspendeu as pesquisas de avaliação da eficácia da hidroxicloroquina contra a COVID-19 afirmando que os dados recentes indicaram que “não resulta em uma redução na mortalidade de pacientes hospitalizados de COVID-19”.

Após declarar que equipe médica decidiu utilizar a hidroxicloroquina, um repórter questionou o presidente se o remédio estava sendo aplicado em conjunto com a azitromicina, o que ele confirmou.

Apesar da fala de Bolsonaro, a combinação de hidroxicloroquina com azitromicina segue sem ser indicada por instituições de saúde nacionais e internacionais.

Na seção de perguntas e respostas relacionadas ao novo coronavírus, a Fiocruz indica que a “azitromicina é um antibiótico e, portanto, não ataca vírus. Os antibióticos são indicados apenas contra bactérias”.

Um documento de 18 de maio com diretrizes para o tratamento farmacológico da COVID-19, e que contou com a participação da Associação de Medicina Intensiva Brasileira, da Sociedade Brasileira de Infectologia e da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, indica: “Sugerimos não utilizar a combinação de hidroxicloroquina ou cloroquina e azitromicina de rotina no tratamento da COVID-19 (recomendação fraca, nível de evidência muito baixo)”.

Durante a entrevista, Bolsonaro também mencionou a ivermectina, que tem sido amplamente divulgada nas redes sociais como outro possível tratamento à COVID-19.“Eu sei que não tem uma comprovação científica ainda, mas, a eficácia da [...] ivermectina, entre outros, têm aparecido e muita gente tem dito que após ter ministrado esses medicamentos passou a se sentir muito bem”.

A ivermectina, de fato, ainda não teve a sua eficácia comprovada no tratamento da COVID-19. Até este momento, ela tem sido usado como antiparasitário em humanos e também em animais, mas sob outra fórmula.

Em 22 de junho, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) divulgou um artigo sobre a recomendação deste medicamento. Segundo a publicação, apesar da ivermectina ter sido utilizada com sucesso “in vitro no tratamento do SARS-CoV-2 em células infectadas experimentalmente”, este estudo não foi revisado ou publicado formalmente.

Diante disso, a OPAS concluiu que os estudos sobre ivermectina apresentam “um alto risco de parcialidade, pouca certeza de evidência e que a evidência existente é insuficiente para chegar a uma conclusão de seus benefícios e danos”.

A OMS também optou por retirar a ivermectina do estudo que patrocina e permanece com a indicação de que ainda não há medicamento que cure, previna ou trate a COVID-19.

A FDA segue igualmente sem indicar a ivermectina: “Enquanto existem usos aprovados para a ivermectina em pessoas e animais, ela não foi autorizada para a prevenção ou tratamento da COVID-19”.

Coronavírus “se dá melhor” no frio?

Questionado sobre as medidas de isolamento adotadas amplamente no país, Bolsonaro afirmou que não teria agido dessa forma já que o Brasil possui diferentes climas e que o novo coronavírus “se dá melhor em climas mais frios”.

No entanto, ainda não se sabe se a temperatura influencia a propagação da COVID-19, como explicam os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC).

De maneira semelhante, a OMS informa em seu site que é possível contrair o novo coronavírus “independentemente do quão ensolarado ou quente seja o clima”. Até este 7 de julho, o Brasil registrava mais de 1,6 milhão de casos confirmados da doença e mais de 66 mil mortes, segundo o Ministério da Saúde.

Presidente diz que jovens podem “ficar tranquilos”

O presidente Bolsonaro também afirmou que no caso pessoas com menos de 40 anos e sem doenças prévias “a chance é próxima a zero a ter consequências maiores da contaminação” pelo novo coronavírus.

No entanto, este não foi o caso de Julie A., que tinha 16 anos e nenhum problema de saúde prévio. Mas segundo relatou sua mãe à AFP, o que começou como uma tosse evoluiu rapidamente para uma insuficiência respiratória, fazendo com que ela tivesse que ser entubada e, posteriormente, levou-a à morte.

No Rio de Janeiro, um adolescente de 12 anos também faleceu em decorrência da COVID-19. Em Indianapolis, Estados Unidos, o mesmo ocorreu com um jovem de 16 anos, assim como com um menino de 13 anos em Londres.

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