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Brasil ultrapassa 4 milhões de casos de coronavírus em meio a sinais de melhora

Evolução diária e média móvel de 7 dias de casos e mortes por covid-19 no Brasil, em 2 de setembro. afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 03. setembro 2020 - 18:24
(AFP)

O Brasil ultrapassou nesta quinta-feira (03) a marca de quatro milhões de infecções por coronavírus desde o início da pandemia, que mostra tímidos sinais de melhora após causar mais de 124.000 mortes.

Do primeiro caso registrado em 26 de fevereiro e do primeiro óbito, em 16 de março, os saldos chegaram a 4.041.638 infecções e 124.614 mortes, com um aumento de 43.773 casos e 834 óbitos nas últimas 24 horas.

Após vários meses com uma média diária de mais de mil mortes, o gigante sul-americano registrou uma ligeira queda desde o final de agosto e uma média de 869 mortes e cerca de 40 mil infecções por dia na última semana.

O Ministério da Saúde afirma que os números revelam uma "queda" na curva, mas especialistas independentes sugerem cautela.

"É o inicio do que a gente espera que seja de fato uma tendência de melhora", disse à AFP o epidemiologista da Universidade de Brasília Mauro Sanchez, que avisa que se trata de uma melhora "muito tímida" e "muito recente", que deve ser mantida por pelo menos duas ou três semanas para ser confirmada.

Além disso, por ser um país com dimensões continentais, a curva nacional deve ser lida como um "resumo de 27 epidemias diferentes", uma para cada estado, destaca o especialista.

Com 212 milhões de habitantes, o Brasil tem um índice de 589 óbitos por milhão de habitantes, com contrastes que vão de 309 mortes por milhão/h na região Sul a 746 por milhão/h no Norte.

"Nos últimos dois meses temos uma curva no Brasil que mistura regiões onde está subindo, que são o sul, o centro-oeste, interior de SP e de Minas Gerais e locais onde está caindo como nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, além do nordeste e do norte", complementa Paulo Lotufo, professor de Epidemiologia na Universidade de São Paulo (USP).

Para Lotufo, os números também sugerem que o Brasil está próximo de uma melhora.

Mas os dois especialistas concordam que tudo pode desmoronar se os governos cederem às pressões de grupos econômicos para promover uma reabertura indiscriminada e as medidas de proteção individual forem abandonadas, como observado no último domingo nas praias do Rio de Janeiro lotadas de pessoas sem máscaras.

Após a retomada das atividades comerciais e a reabertura de bares, restaurantes, academias e igrejas com normas de higiene e distanciamento, muitas cidades estudam como e quando reabrir escolas, que suspenderam suas atividades em março, logo após o início do ano letivo.

A grande festa de final de ano em Copacabana não será mais realizada no formato tradicional e o carnaval de 2021 provavelmente será adiado, enquanto se aguarda a vacinação.

- Medidas tardias e insuficientes -

O Brasil enfrentou a pandemia sem uma estratégia coordenada. O presidente Jair Bolsonaro sabotou as medidas de isolamento impostas pelos governadores, considerando que se tratava de um remédio "pior que a doença" e que o país deveria "voltar à normalidade" para não prejudicar a economia.

O próprio presidente de extrema direita, que descreveu a covid-19 como "gripezinha", contraiu o vírus e continua promovendo multidões em viagens oficiais e apertando a mão de apoiadores, sem usar máscara.

Sua posição levou à saída de dois ministros da Saúde que discordaram de sua gestão da crise e de sua promoção da hidroxicloroquina como tratamento, apesar da falta de evidências científicas sobre sua eficácia.

Sánchez e Lotufo concordam que o Brasil poderia ter evitado um grande número de mortes se tivesse implementado rapidamente medidas eficazes de isolamento e facilitado o acesso antecipado das famílias mais pobres ao subsídio econômico distribuído pelo governo desde abril.

“As pessoas mais vulneráveis não podem ficar em casa trabalhando em 'home office'”, diz Sánchez, que teme que os atuais sinais de melhora levem governos e população a afrouxar os cuidados colocando a perder os resultados das últimas semanas.

No momento, o Brasil enfrenta duas crises ao mesmo tempo: tornou-se o segundo país com mais casos e mais mortes, depois dos Estados Unidos, e registra uma contração recorde de sua economia, que levou a perda de cerca de 9 milhões de empregos.

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