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Desobediência na quarentena: o protesto do líder da esquerda na Colômbia

(Arquivo) Gustavo Petro, líder da esquerda colombiana afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 23. julho 2020 - 17:34
(AFP)

A pandemia destruiu milhões de empregos, privou as pessoas de suas atividades diárias e trouxe o foco para os governos quando as sociedades estão imobilizadas. Gustavo Petro, líder da esquerda na Colômbia, acredita que chegou o momento de protestar sem deixar o isolamento.

O que propõe esse senador e ex-guerrilheiro, de 60 anos - com tantos seguidores fervorosos quanto críticos - são dias de "desobediência civil" em conformidade com o isolamento.

Porém, de que forma? "Deixando de pagar os serviços públicos, contas e dívidas", informou ele à AFP.

Segundo o ex-guerrilheiro, a ideia é atingir o que ele julga ser um manejo inadequado da pandemia na Colômbia.

Para ele, a forma de lidar com a situação no país imita o que é feito pelos presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro nos Estados Unidos e no Brasil, onde a população "é sacrificada" antes de ter as garantias mínimas para sobreviver em uma quarentena.

Com cerca de 50 milhões de habitantes, a Colômbia é o quinto país latino-americano com mais casos (218.428) e mortes (7.373) da COVID-19. Desde 25 de março, existe um sistema de isolamento que se tornou mais flexível por causa da situação econômica.

Sem um estado de bem-estar social como na Europa, 30% das famílias colombianas em estado de maior vulnerabilidade recebem auxílios de US$ 45 a US$ 50 por mês, fazendo com que milhões voltassem a trabalhar nas ruas.

Antes da crise causada pelo vírus, que destruiu cinco milhões de empregos e poderia gerar resultados econômicos nunca antes vistos, o país já enfrentava 47% de pessoas em situação de emprego informal, além de ter o segundo maior índice de desigualdade do continente, ficando atrás apenas do Brasil, segundo organizações ligadas à ONU.

No final do último ano, ocorreram manifestações sem precedentes nas ruas do país, silenciadas pelo novo coronavírus.

Nesse momento, levar "a população às ruas, quando estamos nos aproximando do pico mais violento da pandemia, seria irresponsável", admite Petro.

O ex-guerrilheiro conseguiu aproximar a esquerda do poder presidencial em um país historicamente governado pelas elites liberais e conservadoras.

Em 2018, ele perdeu a eleição ao disputar com o atual presidente, Iván Duque (recebeu oito milhões de votos contra 10,3 milhões), assumindo posteriormente uma cadeira no Senado, e este ano declarou o governo ilegítimo, diante da suspeita judicial de que a campanha do atual presidente possa ter recebido dinheiro de um traficante.

Segue a entrevista com o ex-guerrilheiro:

- O que você propõe?

"A desobediência civil (é) uma continuação das manifestações populares ocorridas nas ruas. Levar a população às ruas quando nos aproximamos do pico mais violento da pandemia seria algo irresponsável, mas existem alguns métodos inventados no mundo que parecem consistentes com o cuidado da vida. É o método de desobediência civil, praticado por Gandhi e descoberto pelo Sr. Henry Thoreau (...) Não o testamos, não sabemos se funcionará. Se eles tiveram sucesso, acho que podemos obrigar o governo a negociar uma mudança radical nas políticas".

- O que seriam as jornadas de desobediência?

"Se olharmos para as tristezas das famílias na Colômbia, as encontraremos encurraladas pela falta de renda. Existem vários gastos que deveriam deixar de existir para tentar manter um equilíbrio na sobrevivência. Essas despesas podem ser o pagamento do seu aluguel, sua casa, o pagamento de serviços públicos e as dívidas bancárias.

Aqui há uma frente de desobediência civil. Se a população parar de pagar dívidas bancárias, pode-se obrigar uma renegociação com o banco. Assim como se a população também parar de pagar serviços públicos ou dívidas. E isso permitiria uma melhor estabilidade para a família caso queira manter uma quarentena rigorosa para salvar sua vida".

- Quando começará?

"O primeiro dia de desobediência deve ser organizado pelas (redes sociais das) organizações sociais. Pedi ao Conselho Indígena Regional de Cauca, a força indígena mais organizada, para convocar sindicatos de base (e) outras organizações ainda vivas no país, e a partir disso iniciar os primeiros dias de desobediência civil (...). Podem ser organizados dias para o não pagamento dos serviços públicos, especialmente onde a quarentena precisa ser rigorosa, como Bogotá e Barranquilla".

- Isso não afetaria a ação do Estado diante da pandemia?

"É que nada está sendo feito. (...) A quarentena foi estabelecida em um momento crucial, com duração de um mês, e imediatamente o governo começou a desativá-la, de forma que hoje a maioria da população está nas ruas.

Hoje poderíamos entrar em uma quarentena rigorosa, como pedem as associações médicas. Hoje mesmo o governo Duque disse que não. Em outras palavras, é como Bolsonaro: não nos importamos com quantos vão morrer, contanto que os lucros continuem acontecendo na Colômbia".

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