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Detidos na Venezuela 27 militares por revolta contra Maduro

Vista parcial do quartel da Guarda Nacional Bolivariana (GNB) em Cotiza, onde um grupo de militares chamou a não reconhecer o presidente Nicolás Maduro, em Caracas, em 21 de janeiro de 2018 afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 21. janeiro 2019 - 18:53
(AFP)

Autoridades venezuelanas detiveram 27 militares que realizaram um motim contra o presidente Nicolás Maduro nesta segunda-feira (21), dois dias antes de manifestações opositoras para exigir um governo de transição e a realização de eleições.

De madrugada, este grupo da Guarda Nacional (GNB) subtraiu armas de guerra de um posto militar em Petare (leste) e se entrincheirou em seguida no quartel do bairro Cotiza (norte), onde os revoltosos foram detidos, segundo um informe oficial.

O número dois do chavismo, Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Constituinte, disse à imprensa que foi o sargento Bandres Figueroa quem liderou o levante e que 25 das 27 detenções ocorreram no quartel.

Após o rápido motim, moradores de Cotiza, Los Mecedores e outros bairros do norte da capital, enfrentaram com pedras, paus e garrafas a tropa de choque, que respondeu com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha. Vários manifestantes ficaram feridos, constataram equipes da AFP.

"Estamos cansados. Não dá mais", disse a jornalistas um jovem de 29 anos, com uma bandeira venezuelana presa ao corpo, durante os confrontos.

Na noite desta segunda-feira, ocorreram "panelaços" em vários bairros de Caracas e grupos de manifestantes fecharam a avenida Forças Armadas, no centro da capital, aos gritos de "Este governo vai cair", até a polícia de choque dispersá-los com bombas de gás lacrimogêneo.

Em El Valle, no sul de Caracas, homens encapuzados saquearam lojas, sem que a polícia ou os militares fossem ao local, contaram testemunhas à AFP.

À agitação provocada pela rápida insurgência se somou a uma sentença do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ, de linha governista), que declarou nula a junta diretiva parlamentar presidida pelo jovem opositor Juan Guaidó.

Sob a liderança de Guaidó, o Congresso - de maioria opositora - declarou Maduro "usurpador" após a sua posse em 10 de janeiro para um segundo mandato, considerado ilegítimo por vários governos, e acordou uma anistia para os militares que não o reconhecerem.

Ao fim da tarde, Guaidó enviou pelas redes sociais uma mensagem aos membros da Força Armada: "Não estamos te pedindo que dê um golpe de Estado, que atire. Ao contrário, estamos te pedindo que defenda junto conosco o direito do povo (...) a ser livre".

Essa ação ocorreu às vésperas das manifestações convocadas pela oposição e pelo governo, que se anunciam como o primeiro grande ato nas ruas desde os protestos de 2017 que deixaram 125 mortos.

- "A mão não vai tremer" -

Em um dos vários vídeos que circularam em redes sociais, um militar que se identificou justamente como o sargento Bandres Figueroa disse não reconhecer Maduro e pediu o apoio dos venezuelanos.

"Aqui está a tropa profissional da GNB contra este regime que não reconhecemos completamente. Preciso do apoio de vocês, saiam às ruas", disse, ao lado de outros homens armados.

Segundo a Força Armada, os "atacantes", que também sequestraram quatro militares, foram rapidamente controlados, submetidos à Justiça e "será aplicada a eles todo o peso da lei".

"Durante a prisão conseguiram recuperar o armamento roubado e, no momento atual, estão dando informações de interesse aos organismos de Inteligência e ao sistema de Justiça militar", destacou a declaração.

Cabello advertiu que o ocorrido "gera decisões fortes". "A força deve ser aplicada quando corresponder. O Estado vai se impor, venha a violência de onde vier, de dentro ou de fora, nossa mão não irá tremer", ameaçou.

Os distúrbios começaram pela manhã, quando dezenas de moradores de Cotiza se aproximaram do quartel para apoiar os insurgentes, fizeram panelaços e barricadas nas ruas queimando lixo, um veículo abandonado e escombros.

- Descontentamento militar -

Guaidó, que se declarou disposto a presidir o governo de transição, assegurou que a mensagem do Parlamento está tendo "eco" na Força Armada, considerada o apoio do governo.

Defendendo a quebra do apoio decisivo da Força Armada que Maduro tem, o Parlamento se comprometeu há uma semana a "decretar uma lei de anistia" para "funcionários civis ou militares" que não o reconhecem e cooperam com o "governo de transição".

Maduro considera essa proposta como parte de um "golpe de Estado" em curso, por trás do qual, segundo diz, estão a Casa Branca e vários governos latino-americanos que também sustentam que a sua reeleição em maio de 2018 foi fruto de eleições ilegítimas.

A Força Armada, integrada por 365.000 mil soldados e 1,6 milhão de milicianos civis, reafirmou a sua lealdade "absoluta" a Maduro após a posse.

Rocío San Miguel, especialista em assuntos militares e presidente da ONG Controle Cidadão, assegurou à AFP que o fato "pode ser descrito como uma expressão de descontentamento, que não encontrou resposta em outras unidades militares".

Apesar do esforço para ser monolítica, dois generais estão entre os presos por um suposto ataque contra o presidente em 4 de agosto, quando dois drones explodiram perto de um palanque onde liderava um ato militar.

A Controle Cidadão estima que 180 soldados tenham sido detidos em 2018 acusados de conspiração e dez mil membros da Força Armada tenham pedido baixa desde 2015.

Em um contexto em que poucos escapam da escassez de alimentos e remédios e da hiperinflação, 4.309 soldados desertaram da Guarda Nacional em 2018, segundo uma lista vazada do organismo e citada pela Controle Cidadão.

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