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Esquerda pacifista europeia impotente diante da guerra de 1914

O historiador francês Jean-Jacques Becker participa de comemorações sobre a I Guerra no Hotel Beauharnais, residência do embaixador alemão, em 25 de abril de 2014 afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 25. junho 2014 - 18:38
(AFP)

A esquerda pacifista europeia, ativa e influente em muitos países, mobilizou-se no início do verão de 1914 para tentar impedir, sem êxito, o banho de sangue que se anunciava há meses.

Mas, tão logo a guerra começou, a esquerda em sua maioria mudou de atitude, deu as costas ao pacifismo e assumiu um patriotismo agressivo e belicista.

"Há apenas uma oportunidade para manter a paz e salvar a civilização: que o proletariado some todas as suas forças para afastar o espantoso pesadelo", proclamou o líder socialista francês Jean Jaurès em um discurso angustiado em Vaise, perto de Lyon (centro-leste francês), no dia 25 de julho de 1914.

Seis dias depois, o político foi morto a tiros por um nacionalista fanático em Paris. Sua morte provocou uma forte comoção, que logo se diluiria com a entrada do país na guerra, em 3 de agosto.

Semanas antes de sua morte, Jaurès não poupou esforços na Internacional Socialista (IS) para tentar evitar o inevitável, consciente de que o jogo das alianças internacionais conduzia diretamente a um cataclismo que só poderia ser impedido com uma mobilização em massa contra a guerra.

Incentivado por ele, o Birô da IS se reuniu em caráter de urgência em 29 de julho, em Bruxelas, para adotar medidas destinadas a impedir que o conflito eclodisse.

Entre elas, decidiu antecipar para 9 de agosto o congresso da Internacional previsto para setembro e continuar organizando manifestações pacifistas.

Os social-democratas alemães já haviam começado a sair às ruas das grandes cidades depois do ultimato austríaco dado à Sérvia em 23 de julho, na esperança de dissuadir Viena a entrar em guerra contra Belgrado.

As manifestações se intensificaram nos dias seguintes por toda a Europa.

O erro dos socialistas europeus

"Os dirigentes da esquerda europeia fizeram esforços ousados para deter a marcha para o abismo", afirmou Volker R. Berghahn, da Universidade de Columbia (Nova York).

"Mas o erro foi acreditar que crise ia ser suficientemente longa para permitir aos povos e, em particular ao movimento socialista, mobilizar-se contra a guerra", explica o historiador francês Jean-Jacques Becker em sua "Enciclopédia da Grande Guerra".

A mobilização se prolongou ao longo do verão de 1914, com a organização de congressos pacifistas internacionais em Viena e Haia.

Mas, além da corrente socialista, em 1914 havia "um movimento pacifista em toda Europa, formado por centenas de movimentos que iam do pacifismo cristão ao anarquismo, este último influenciando parte do movimento sindical", recorda o historiador francês Nicolas Offenstadt.

O assassinato de Jaurès, em 31 de julho, poucas horas antes da declaração de guerra da Alemanha à Rússia, acabou com os últimos esforços em prol da paz.

Em poucos dias, em uma virada espetacular, quase toda a esquerda pacifista europeia ia aderir às "uniões sagradas" em torno dos dirigentes das grandes nações europeias.

Reflexo patriótico

"Em todas as partes, o reflexo patriótico estava acima de outras considerações", constata a historiadora francesa Nadine-Josette Chaline, da Universidade de Picardia.

Na França, Jules Guesde, figura histórica do socialismo pacifista, posicionou-se ao lado do governo desde o início da guerra.

Não fez mais que seguir a linha delineada por Jaurès antes de sua morte: "Independentemente do que digam nossos adversários, não há qualquer contradição em fazer o máximo esforço para garantir a paz; e se esta guerra explodir, apesar de tudo, é preciso o máximo esforço para garantir a independência e a integridade da nação", explicou em um discurso de 18 de julho.

O mesmo fenômeno ocorreu na Alemanha, onde Guilherme II pediu que os alemães se unissem em prol de uma "paz civil".

Exceção notável, o deputado socialista Karl Liebknecht se negaria a votar as verbas necessárias para a guerra e seria um dos poucos dirigentes da esquerda europeia contrários ao conflito, antes de criar, com Rosa de Luxemburgo, a Liga Espartaquista (ou Liga Spartacus), que, em 1917, apoiaria a revolução russa.

"Tanto na Alemanha como na França, a maioria dos socialistas continua sendo patriota, pois acha que o eventual inimigo (o czar para os social-democratas alemães, o governo 'militarista' do kaiser para os socialistas franceses) destruiria, se avançasse, qualquer esperança de revolução social", escreve o historiador francês Jean-Baptiste Duroselle em "Europa, história de seus povos".

A isso se soma o sentimento compartilhado nos dois campos de "fazer uma guerra defensiva, que tenha uma legitimidade muito mais forte. Inclusive, quando se é pacifista, é recomendável defender-se de si mesmo", explica Nicolas Offenstadt.

Na Grã-Bretanha, a opinião pública e a classe política majoritariamente pacifistas até o final de julho, inclinariam-se ostensivamente a favor depois da invasão da neutra Bélgica pela Alemanha, em 3 de agosto. Isso foi considerado uma ameaça direta aos interesses do Império britânico.

Em tempos de guerra, "o pacifismo não é uma posição política legítima, nem sequer lícita, e seus raros defensores estão praticamente destinados à clandestinidade", resume Jean-Yves Le Naour, no "Dicionário da Grande Guerra".

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