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Exército prende dez militares envolvidos na morte de músico no Rio

Tropas especiais da polícia militar participam de uma operação na favela Vila Kennedy, no dia 23 de fevereiro de 2018 no Rio de Janeiro. afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 08. abril 2019 - 23:00
(AFP)

O Exército decretou nesta segunda-feira a prisão de 10 militares que na véspera dispararam mais de 80 tiros contra um veículo no bairro de Guadalupe, na zona norte do Rio de Janeiro, matando o motorista e ferindo duas pessoas.

Evaldo dos Santos Rosa, de 51 anos, que era segurança de uma creche e músico em um grupo de pagode, dirigia o carro fuzilado pelo militares e no qual também estavam sua esposa, o filho de 7 anos, a afilhada do casal, de 13, e o sogro dele, baleado nos glúteos e que está internado em um hospital. Um pedestre que tentou ajudar as vítimas também foi atingido pelos tiros.

O incidente ocorreu no perímetro de segurança de uma área militar onde o efetivo realizava uma "patrulha regular", informou Exército.

Através de uma nota, emitida logo após o crime, o Comando Militar do Leste informou que os militares revidaram a uma "injusta agressão" de criminosos a bordo do veículo. Mas nesta segunda-feira, em um segundo comunicado, o CML informou que dez dos doze militares que participaram da operação foram presos em flagrante por "inconsistência dos fatos reportados"

A viúva de Evaldo afirma que depois do primeiro tiro pediu ajuda aos soldados, mas eles continuaram disparando.

"Por que o quartel fez isso? Os vizinhos vieram para nos socorrer mas eles continuaram disparando. Pedi a um deles: 'Ajuda meu marido!'. Não fizeram nada, ficaram debochando", afirmou Luciana Nogueira.

Em entrevista à TV Globo, na noite de domingo, o delegado Leonardo Salgado, da Divisão de Homicídios, disse que "tudo indica" que os militares do Exército atiraram ao confundirem o carro com o de assaltantes.

"Foram diversos, diversos disparos de arma de fogo efetuados, e tudo indica que os militares realmente confundiram o carro com um veículo de bandidos. Mas neste veículo estava uma família. Não foi encontrada nenhuma arma. Tudo o que foi apurado é que realmente era uma família normal, de bem, que acabou sendo vítima dos militares", afirmou o delegado.

- Justiça Militar investiga -

A Polícia Civil realizou uma perícia no local, mas a investigação está agora a cargo da Justiça Militar, tal como estabelece uma lei aprovada em 2017.

Os militares participaram nos últimos anos de operações contra a criminalidade no Rio, estiveram inclusive entre fevereiro e dezembro de 2018 à frente do comando da segurança no estado.

A ONG Rio de Paz manifestou "repúdio" à ação dos militares detidos e exigiu uma manifestação da Presidência, a quem as Forças Armadas respondem em última instância.

"Apesar de todos os bons serviços prestados pelas Forças Armadas na patrulha ostensiva no Estado do Rio, a ONG Rio de Paz pede que toda a sociedade exija as autoridades, principalmente as que estão sob ordens do Ministério da Defesa, todo o rigor na investigação dos fatos".

O presidente Jair Bolsonaro ainda não se manifestou publicamente sobre o caso. Mas na tarde desta segunda-feira, o porta-voz do governo, Otávio do Rêgo Barros, disse que o presidente confia na Justiça Militar.

Quem também não fez declarações públicas sobre o caso foi o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, que prometeu ao assumir o cargo, em janeiro passado, aplicar uma política dura contra crime, em um discurso sintonizado com o de Bolsonaro.

Witzel defendeu recentemente que a polícia tenha atuação contundente e letal contra criminosos que portem armas de guerra, além da utilização de atiradores de elite (snipers) em operações policiais.

Em janeiro e fevereiro de 2019, nos dois primeiros meses do governo, 305 pessoas foram abatidas pela polícia no Rio, de acordo com fontes oficiais do estado. Esse número representa um crescimento de 17,6% em relação ao mesmo período de 2018.

Alguns desses casos levantaram questionamentos sobre os métodos policiais.

No dia 8 de fevereiro, uma operação policial nas comunidades do Fallet-Fogueteiro, no bairro de Santa Teresa (Zona Sul) deixou 13 mortos e despertou, segundo a Defensoria Pública, suspeitas de execução sumária.

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