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Extorsão, um medo diário no reino dos narcotraficantes colombianos

Militares colombianos patrulham Tumaco, Colômbia, em 19 de fevereiro de 2020 afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 22. junho 2020 - 13:30
(AFP)

Um dia, homens armados invadiram a loja de Vicky, dispostos a matar, a tirar o pouco dinheiro produzido. O medo da extorsão é diário em Tumaco, reduto dos narcotraficantes e uma das cidades mais perigosas da Colômbia.

O confinamento imposto contra a pandemia da COVID-19 veio como um bálsamo contra esse crime, reduzido por um tempo, embora tenha retornado com a reabertura progressiva dos comércios.

"Nenhum ser humano quer passar por isso. Você não sabe a hora, ou como eles vão aparecer, ou se vão mexer com seus familiares. Você trabalha e precisa (...) entregar a eles seu dinheiro!", denuncia Vicky.

Temendo retaliação, esta comerciante concordou em falar com a AFP apenas sob um pseudônimo. Ela chegou a ter seus filhos ameaçados, depois de se recusar a pagar os traficantes.

Cansada de viver com medo, ela expressa sua angústia de costas para a câmera, com os olhos fixos no Pacífico, de onde saem 80% da droga da Colômbia, o principal produtor mundial de cocaína.

A extorsão é uma prática ancorada no país. Segundo as autoridades, é uma fonte de renda para gangues, paramilitares e guerrilheiros, juntamente com a extração ilegal de minerais, sequestros e tráfico de drogas.

- Pagar ,ou ir embora -

Os sequestros, um dos crimes mais repudiados pelos colombianos em quase seis décadas de conflito, reduziram drasticamente em meio a uma ofensiva contra grupos rebeldes e à paz com o ex-guerrilha das FARC.

"Mas a extorsão permanece em altos níveis", lamenta o Ministério da Defesa em seu plano estratégico de 2018-2022.

Em 2018, 7.047 denúncias foram relatadas, embora existam mais casos, porque muitos não se atrevem a reclamar de um "negócio" que gera um milhão de euros por ano para os bandidos. Mais de 80% das extorsões são cometidas por pequenos criminosos, segundo dados oficiais.

O crime afeta vendedores ambulantes, transeuntes que desejam atravessar as fronteiras impostas por gangues entre bairros, produtores de folhas de coca - matéria-prima da cocaína -, ou proprietários de terras.

"Psicologicamente, faz mal (...) não atendo telefonemas de estranhos (...), não saio de casa e vejo apenas inimigos", lamenta Vicky.

Por uma década, viveu sob o jugo de ameaças telefônicas e depositou dinheiro em contas bancárias de empresas de fachada. Um policial com quem reclamou respondeu que não tinha outras opções a não ser "pagar, ou ir embora".

No ano passado, veio a gota d'água. Dois homens feriram um parente que vigiava sua loja e, em seguida, Vicky ligou para a linha direta da unidade de combate ao sequestro e extorsão (Gaula).

Liderados pelo Exército, ou pela Polícia, dependendo da região, os Gaula foram criados em 1996 para combater esses crimes.

- Outras modalidades -

No departamento de Nariño (sudoeste), do qual Tumaco é o principal porto, a extorsão é cometida, principalmente, por dissidentes das FARC que se afastaram do pacto de paz de 2016.

Eles lideram "o fenômeno criminoso no município de Tumaco e ao longo da costa de Narino", diz o comandante do Gaula local, major Miguel Tarazona.

No empobrecido Tumaco, os extorsionistas atuam da maneira "siciliana", em alusão à máfia italiana: de moto, ou lancha. Há também a "extorsão carcerária", realizada por bandidos que telefonam da prisão.

Assim, os grupos armados apoiam seus gastos correntes entre os envios de cocaína, muito mais difíceis de organizar, diz Tarazona, descrevendo uma estreita "conexão" entre a extorsão e o tráfico de drogas.

Enquanto seus homens se preparam para patrulhar, Tarazona explica que "o fenômeno da extorsão sofreu uma mudança devido à atomização de diferentes grupos após o acordo de paz" com as FARC, que controlavam a região.

Com capacetes, fuzis Galil ACE 21 na mão, revólveres Beretta na cintura e vestidos com roupas camufladas, os militares entraram em San Felipe. Esse bairro de casebres montados em pilares e ligados por passarelas instáveis de madeira fica ao lado de uma área de hotéis e comércios, os alvos favoritos dos criminosos.

Em 2019, o Gaula de Tumaco prendeu 12 supostos extorsionistas e apreendeu mais de US$ 89.000, uma pequena fortuna em um país onde o salário mínimo é de cerca de US$ 260.

Este ano, já fez 28 detenções e privou os supostos criminosos de mais de US$ 34.000, "que pararam de entrar em suas finanças criminosas", diz Tarazona.

O fenômeno "diminuiu" durante a fase mais estrita do confinamento nacional, imposto a partir de 25 de março. Mas agora renasce: 15 prisões foram registradas desde o início do relaxamento no final de abril.

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