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Farc admitem responsabilidade em crimes que abalaram a Colômbia

Foto do jornal colombiano El Espectador de maio de 1995 mostra o então candidato presidencial conservador à Presidência da Colômbia, Álvaro Gómez, durante coletiva de imprensa em Bogotá afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 03. outubro 2020 - 20:25
(AFP)

A ex-guerrilha das Farc admitiu perante a justiça de paz sua responsabilidade em vários crimes que estremeceram a Colômbia, entre eles o assassinato do ex-candidato presidencial Álvaro Gómez, executado por matadores de aluguel em 1995 em Bogotá.

Em um comunicado divulgado neste sábado (3), o tribunal que investiga os piores crimes cometidos durante o conflito armado colombiano informou ter recebido uma carta dos ex-insurgentes na qual se ofereceram a "aportar verdade, esclarecer os fatos ocorridos e assumir precocemente a responsabilidade" em seus casos de grande repercussão.

Entre eles está o assassinato de Gómez e do general reformado do Exército Fernando Landázabal, em 1998; do ex-conselheiro de paz Jesús Antonio Bejarano em 1999 e do deputado anticomunista Pablo Emilio Guarín em 1987.

Também admitiram participação nos crimes de José Fedor Rey (2002) e Hernando Pizarro (1995), que comandaram uma dissidência das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Ambos estiveram envolvidos no massacre de Tacueyó, no qual morreram dezenas de guerrilheiros que foram torturados antes para que confessassem a suposta traição à luta rebelde.

As Farc, que foram a organização rebelde mais poderosa das Américas, depuseram as armas e aceitaram se submeter à Jurisdição Especial para a Paz (JEP) em troca de poder atuar na política como partido.

Os comandantes que confessarem seus crimes e repararem suas vítimas receberão penas alternativas à prisão. Se descumprirem seus compromissos, poderão pegar penas de até 20 anos de prisão.

- Culpa surpreendente -

O anúncio da ex-guerrilha sobre o assassinato de Gómez causou surpresa em um país que, por muitos anos, pensou que os responsáveis pelo ataque de um dos principais dirigentes conservadores do século XX fossem adversários políticos, aliados a militares e traficantes de drogas.

Em uma declaração pública, a Força Alternativa Revolucionária do Comum, como a ex-guerrilha passou a se chamar após se tornar partido político, pediu perdão pelo que considerou um "erro".

"A poucos dias de se completar 25 anos deste assassinato, (...) reconhecemos perante a família de Gómez Hurtado, o país e o mundo que somos responsáveis por este fato", disseram as lideranças da ex-guerrilha, que se comprometeram a explicar por que consideraram Álvaro Gómez um "alvo militar" e também as razões para terem se calado sobre "este fato por todos estes anos".

Gómez, que também trabalhou como jornalista e incitou quando congressista, nos anos 1970, os ataques contra a nascente insurgência comunista, foi baleado por matadores de aluguel, que atiraram em seu carro na saída da universidade onde ele dava aulas, no norte de Bogotá.

Em 2019, a justiça declarou o caso "crime contra a humanidade" para evitar que prescrevesse a investigação até encontrar os culpados.

Na quinta-feira, a ex-senadora e conhecida mediadora de paz Piedad Córdoba fez uma advertência sobre o assassinato do ex-candidato conservador.

Córdoba, que participou ativamente do processo de paz com as Farc, antecipou que sabia quem tinha matado Álvaro Gómez e ofereceu dar sua versão à Comissão da Verdade, um órgão extrajudicial que foi criado como parte dos acordos de paz com os guerrilheiros.

A ex-guerrilha, no entanto, pareceu se antecipar à revelação na carta explosiva enviada à JEP em 30 de setembro.

"Admitimos que foi um erro ter assassinado um político do porte de Álvaro Gómez Hurtado. Lemos suas biografias e hoje sabemos que sua contribuição para a paz do país teria sido fundamental. Mas a guerra nubla o olhar do futuro e só permite ver a realidade em preto e branco", destacou em sua declaração.

A carta foi assinada pelos ex-combatentes rebeldes Julián Gallo, Pastor Alape e Pablo Catatumbo, segundo o comunicado difundido neste sábado.

Gallo e Catatumbo representam a ex-guerrilha no Congresso colombiano. Eles ocuparam estes assentos como parte dos acordos de 2016 que terminaram com um conflito de quase seis décadas.

- Suspeita presidencial -

Neste sábado, o presidente Iván Duque, que afirmou ter sido aluno de Álvaro Gómez, recebeu com suspeita o anúncio da Farc.

Duque se opôs ao acordo de paz com a ex-guerrilha e tentou promover, sem sucesso, reformas para que seus integrantes recebessem a maior punição por seus crimes.

"Assumir estes crimes quando já há garantias de que ninguém vai pegar prisão não deixa de gerar dúvidas suspeitas, preocupações (...) Quero que este crime horrendo seja esclarecido (...) e que também se alguém o assumir e não corresponder à verdade, também se entenda que se está cometendo um crime", disse em um ato político.

O conflito colombiano deixou mais de nove milhões de vítimas entre mortos, desaparecidos e deslocados. Estes últimos representam o maior número de afetados pela guerra.

Além das Farc, no conflito interno atuaram agentes do Estado, outras organizações rebeldes, narcotraficantes e grupos paramilitares de ultradireita.

Embora o acordo de paz tenha diminuído a violência, ainda persistem grupos financiados pelo tráfico de drogas, que intensificaram suas ações este ano, deixando centenas de vítimas em uma série de chacinas.

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