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Frustrados, migrantes hondurenhos retornam pela Guatemala sem chegar aos EUA

Policiais entre um grupo de migrantes hondurenhos que faziam parte de uma caravana com destino aos EUA, em frente a um abrigo para migrantes no município de San Marcos, Guatemala, em 3 de outubro de 2020 afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 03. outubro 2020 - 19:09
(AFP)

Frustrados e esgotados pela travessia, milhares de migrantes hondurenhos viram desaparecer neste sábado (3) suas aspirações de chegar aos Estados Unidos e se resignaram a ser repatriados pelas autoridades da Guatemala, onde o governo temia que sua passagem gerasse uma recorrência de casos do novo coronavírus.

Apenas 80 integrantes da caravana de hondurenhos que partiu na quinta-feira passada de San Pedro Sula tentaram continuar a jornada, mas foram contidos pelas autoridades guatemaltecas em Tecún Umán, localidade fronteiriça com o México.

Enquanto isso, com as roupas sujas, os sapatos desgastados e carregando mochilas nas costas com seus poucos pertences, a maioria dos migrantes hondurenhos retornava a seu país sob um sol inclemente na fronteira de Corinto, 315 km a nordeste da capital da Guatemala.

Na maioria jovens, vários dos migrantes disseram à AFP enfrentar com tristeza a volta à realidade de pobreza e violência que castiga seu país e que esperavam deixar para trás.

Segundo dados da polícia, disponibilizados à imprensa pela presidência da Guatemala, mais de 2.150 membros do grupo pediram para retornar a seu país e eram transferidos em caminhões do exército até Honduras.

Apenas grupos pequenos e dispersos se negaram a abandonar seu objetivo, segundo relataram vários migrantes à AFP.

Na última quinta-feira, cerca de 3 mil hondurenhos romperam um cerco militar na fronteira e entraram em território guatemalteco visando alcançar os EUA, fugindo da pobreza e da violência que assolam seu país.

Na Guatemala, a caravana se desfez e seus integrantes seguiram diferentes caminhos. A maior parte do grupo seguiu para Petén, no norte, e o resto para o sudoeste para chegar a vários pontos de cruzamento na fronteira com o México. Os dois países compartilham quase mil quilômetros de fronteira.

- Frustração e irritação -

A princípio, a maioria se negava a desistir da odisseia, mas o presidente guatemalteco, Alejandro Giammattei, decretou estado de prevenção por 15 dias em seis departamentos (estados) pela passagem da caravana.

A medida foi instaurada porque os migrantes voltaram às pressas sem se submeter a testes para a covid-19, diante do que Giammattei determinou a detenção e o retorno a Honduras de todos os que tiverem violado os protocolos de saúde ao entrar ilegalmente em território guatemalteco.

Além disso, o México alocou militares e agentes de imigração ao longo de sua fronteira para impedir a passagem da caravana.

"Sinto muita frustração porque saímos de casa com uma meta, que era poder chegar aos Estados Unidos, e quando nos vemos voltar, sentimos que nossos sonhos se desfizeram", disse à AFP Blas Escobar.

"Estou irritado porque vim perder tempo e o pouco dinheiro que tinha", acrescenta Eduardo Rodríguez, outro hondurenho de 22 anos, que caminha mancando porque bateu o pé direito ao cair de um caminhão em movimento.

Os dois tentaram chegar à fronteira com o México pelo departamento (estado) de Petén e já tinham percorrido mais de 250 km a pé ou em caminhões.

- Engano -

No outro extremo do país, na fronteira de Tecún Umán, 80 migrantes também eram contidos por autoridades guatemaltecas que pretendiam devolvê-los a Honduras em caminhões, com a legenda "retiro voluntário".

Membros da polícia e do exército vigiam a região onde o grupo está, junto da Casa do Migrante da cidade, onde recebem comida e máscaras.

Alguns denunciaram um engano das autoridades da Guatemala, ao afirmar que lhes permitiram entrar no país sem problemas para detê-los mais adiante.

"Disseram-nos que temos que embarcar nos ônibus e voltar para Honduras", disse à AFP Maria Cruz, de 26 anos, que viaja com seu irmão, José Javier, de 23, e seu filho, Joshua Issac, de 4.

Cruz e seu irmão informaram que ao chegar a Tecún Umãn, as autoridades lhes disseram que alguns poderiam voltar ao seu país e outros, seguir caminho, embora no fim a intenção era embarcar todos em caminhões.

Em Ciudad Hidalgo, localidade mexicana fronteiriça com a Guatemala, as autoridades migratórias revisavam os documentos de quem entrava, principalmente a comprar mercadorias, e havia poucos homens da Guarda Nacional posicionados à margem do rio Suchiate.

- Guatemala protesta -

Esta nova caravana em tempos de pandemia gerou incômodo no governo da Guatemala com o de Honduras, que o criticou por "fazer pouco" para deter os fluxos migratórios, que neste caso elevam o risco de contágio do novo coronavírus, segundo a chancelaria guatemalteca.

"Fazemos novamente o apelo ao governo hondurenho para que tome as medidas que lhe corresponde para mitigar esta crise", informou o vice-chanceler Eduardo Hernández em uma mensagem.

Ele comentou, ainda, que apesar dos constantes apelos feitos a Honduras para fortalecer suas passagens fronteiriças, não foram "obtidas as medidas esperadas" e as pessoas continuam "violentando" as fronteiras de Guatemala, pondo em risco "a segurança sanitária de todos".

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